{"id":657,"date":"2019-01-29T12:27:41","date_gmt":"2019-01-29T14:27:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=657"},"modified":"2019-01-29T13:00:37","modified_gmt":"2019-01-29T15:00:37","slug":"minerador-drummond-brumadinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/minerador-drummond-brumadinho\/","title":{"rendered":"O minerador Drummond"},"content":{"rendered":"<p>\u201cSucede h\u00e1 bem treze anos,\/oito meses e uns trocados,\/os pobres itabiranos,\/mais fazem, mais s\u00e3o furtados.\/A nossa mina de ferro,\/que a todo mundo fascina,\/tornou-se (e sei que n\u00e3o erro),\/pra n\u00f3s, o conto da mina\u201d.<\/p>\n<p>O poema \u00e9 de 1955, mas desde 1951 at\u00e9 a morte, em 1987, Carlos Drummond de Andrade, o mais importante poeta brasileiro, desfechava cr\u00edticas agudas contra a minera\u00e7\u00e3o em Itabira, a cidade em que nasceu e que ocupa um lugar m\u00edtico em sua obra.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o complexa \u00e9 analisada sob m\u00faltiplos aspectos pelo compositor e professor Jos\u00e9 Miguel Wisnik no brilhante ensaio Maquina\u00e7\u00e3o do mundo \u2014Drummond e a minera\u00e7\u00e3o (Companhia das Letras). O impulso para Wisnik escrever bateu com o impacto do desastre ambiental de Mariana, em 2015. A obra ganha uma atualidade dram\u00e1tica com o choque da nova trag\u00e9dia humana, social e ambiental de Brumadinho.<\/p>\n<p>O ano de 1955 \u00e9 crucial, pois Drummond desencadeou uma luta brava contra a extra\u00e7\u00e3o predadora, na sua coluna no Correio da Manh\u00e3, do Rio de Janeiro. Indignou-se contra a empresa que explorava o ferro, remunerava mal os trabalhadores e deixava Itabira sem escolas, subnutrida, com estradas prec\u00e1rias, luz fraca, \u00e1gua sem tratamento e imensas crateras.<\/p>\n<p>Chamou a aten\u00e7\u00e3o para o abismo entre a riqueza estratosf\u00e9rica das corpora\u00e7\u00f5es e os escassos benef\u00edcios para a cidadezinha. Aos que argumentavam que 70% da popula\u00e7\u00e3o de Itabira dependia da Companhia, ele replicava que \u201c100% da Cia. (\u2026) vive em fun\u00e7\u00e3o do ferro de Itabira\u201d.<\/p>\n<p>Pragm\u00e1tico, Drummond exigia que o determinado no regulamento da empresa Vale do Rio Doce (atual Vale) fosse cumprido: a sede deveria ser transferida do Rio de Janeiro para Itabira, capital nacional do min\u00e9rio: \u201ca explora\u00e7\u00e3o organizada e oficial do interior pela metr\u00f3pole, o asfaltismo guloso que dirige de \u2018Cadillac\u2019 a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, insens\u00edvel ao lugar e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es em que as riquezas se produzem\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Drummond, o tema aparentemente provinciano replica o modelo colonial da economia brasileira, baseado no saque predat\u00f3rio para beneficiar uma civiliza\u00e7\u00e3o de corte e de litoral: \u201cSempre se chamou a ind\u00fastria da minera\u00e7\u00e3o de \u2018ind\u00fastria ladra\u2019, porque ela tira e n\u00e3o p\u00f5e, abre cavernas e n\u00e3o deixa ra\u00edzes, devasta e emigra para outro ponto\u201d.<\/p>\n<p>Destr\u00f3i, degrada e abre crateras, sem nada \u201cpara compensar essas perdas com a implanta\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura de servi\u00e7os e bens, e ainda com alguma coisa mais do que isso, essa coisa que torna perenes as cidades: a silenciosa e poderosa a\u00e7\u00e3o cultural das bibliotecas, dos centros de pesquisa, dos institutos de arte, das oficinas de cria\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis.\u201d<\/p>\n<p>Drummond dizia que Itabira \u201cvendeu sua alma \u00e0 Companhia Vale do Rio Doce\u201d. A Cia. leva lambadas em v\u00e1rios poemas: \u201cDo Rio Doce se chama,\/de pranto amargo ela \u00e9,\/refletindo um panorama\/de onde desertou a f\u00e9.\u201d<\/p>\n<p>Claro que Drummond perdeu a batalha, mas Wisnik mostra que o mais importante poeta brasileiro n\u00e3o se omitiu em rela\u00e7\u00e3o a um tema crucial e antecipou as trag\u00e9dias que estamos vivendo, com extraordin\u00e1ria clarivid\u00eancia e lucidez: \u201cTudo exportar bem depressa,\/Suando as rotas camisas.\/Ficam buracos? Ora essa,\/O que vale s\u00e3o divisas\/Que tapem outros \u2018buracos\u2019\/Do tesouro nacional,\/Deixando em redor os cacos\/De um pa\u00eds colonial\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSucede h\u00e1 bem treze anos,\/oito meses e uns trocados,\/os pobres itabiranos,\/mais fazem, mais s\u00e3o furtados.\/A nossa mina de ferro,\/que a todo mundo fascina,\/tornou-se (e sei que n\u00e3o erro),\/pra n\u00f3s, o conto da mina\u201d. 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