{"id":640,"date":"2019-01-15T18:00:32","date_gmt":"2019-01-15T20:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=640"},"modified":"2019-01-13T18:27:48","modified_gmt":"2019-01-13T20:27:48","slug":"professor-de-loucura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/professor-de-loucura\/","title":{"rendered":"Professor de loucura"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>Fui professor do curso de jornalismo em uma faculdade particular durante oito anos. Ao longo do per\u00edodo, em todas as disciplinas que ministrei a primeira tarefa que passava era escrever uma cr\u00f4nica. Eu tinha em mira conhecer melhor cada um. A cr\u00f4nica revela a alma.<\/p>\n<p>Surgiam narrativas muito inventivas. Uma das mais interessantes foi a hist\u00f3ria de uma simp\u00e1tica senhora idosa que roubava mam\u00f5es da esp\u00e9cie papaya em uma mercearia da Asa Sul. Os propriet\u00e1rios da lojinha logo descobriram o delito da senhora e ficaram muito constrangidos com a situa\u00e7\u00e3o e sem saber que atitude tomar.<\/p>\n<p>No entanto, em face do fato de que a senhorinha continuou a surrupiar as frutas com a maior inoc\u00eancia, eles resolveram entrar em contato com a fam\u00edlia. Fizeram uma proposta extremamente vantajosa: concederiam um desconto grande nas compras do mam\u00e3o, ela n\u00e3o precisaria roubar; podia simplesmente comprar.<\/p>\n<p>Cientes dos acontecimentos, os familiares interpelaram a senhorinha e levaram a sugest\u00e3o da mercearia. Ela era uma mulher religiosa convicta e praticante. N\u00e3o faltava a nenhuma missa. E, precisamente por essa raz\u00e3o, alegava n\u00e3o poder abrir m\u00e3o dos furtos. Argumentou que tinha conduta moral impec\u00e1vel. Ent\u00e3o, necessitava arrebatar os mam\u00f5es, pois, s\u00f3 assim ganharia o direito de se confessar. Era o \u00fanico pecado que cometia.<\/p>\n<p>E a outra hist\u00f3ria que elegi como uma das melhores teve como tema um misterioso \u201cprofessor de loucura\u201d. No primeiro dia de aula, o professor de loucura entrou na sala e come\u00e7ou a expor seu plano de ensino. Antes de tudo, explicou no que consistia a disciplina da qual era titular: \u201cSou professor da disciplina loucura. O que constitui essa estranha disciplina?, indagou o lun\u00e1tico professor.\u201d<\/p>\n<p>E ele mesmo respondeu: Loucura consiste em conhecer as principais vertentes e fontes da cultura brasileira e internacional, numa rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Conhecer, conviver e tornar-se \u00edntimo dos personagens mais brilhantes da humanidade de todos os tempos. Inventar uma internet espiritual. Combater o culto da ignor\u00e2ncia. \u201cResistir ao esp\u00edrito de rebanho e de Maria-vai-com-as-outras e tornar-se um ser singular. Adquirir autonomia de estudo e tornar-se um verdadeiro autodidata. Extrair o que havia de melhor em cada um\u201d.<\/p>\n<p>Os alunos ouviram, mas ao tomar ci\u00eancia do plano de ensino, informaram ao quixotesco personagem: \u201cProfessor, acho que o senhor se enganou e entrou na sala errada. Ningu\u00e9m aqui est\u00e1 interessado nesta disciplina\u201d.<\/p>\n<p>E, ao entregar os coment\u00e1rios, levei tremendo susto: a autora disse que escrevera o texto em homenagem a meu \u201cesfor\u00e7o dram\u00e1tico\u201d em transmitir o conhecimento. Contou que a minha presen\u00e7a era pol\u00eamica, provocava coment\u00e1rios desencontrados: \u201c\u00c9 inteligent\u00edssimo\u201d. Ou: \u201cEle \u00e9 louco\u201d. Ou: \u201cViaja na maionese\u201d. Ou: \u201cN\u00e3o, ele \u00e9 l\u00facido, estuda para falar.\u201d Entendia que eu \u201catirava p\u00e9rolas aos porcos\u201d. S\u00f3 uns 20% aproveitavam.<\/p>\n<p>Retifiquei que apenas a primeira parte da frase estava correta. Tentava compartilhar o que havia aprendido de mais precioso. Tentava fazer a minha parte. O que as pessoas fariam com isso era da responsabilidade delas. Mas sempre deixava aberta a possibilidade de que eu tivesse errado em algum ou em v\u00e1rios momentos. Educar \u00e9 dif\u00edcil e dram\u00e1tico, e exige autocr\u00edtica permanente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco Fui professor do curso de jornalismo em uma faculdade particular durante oito anos. Ao longo do per\u00edodo, em todas as disciplinas que ministrei a primeira tarefa que passava era escrever uma cr\u00f4nica. Eu tinha em mira conhecer melhor cada um. A cr\u00f4nica revela a alma. Surgiam narrativas muito inventivas. 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