{"id":391,"date":"2017-08-23T16:21:09","date_gmt":"2017-08-23T19:21:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=391"},"modified":"2017-08-23T16:22:37","modified_gmt":"2017-08-23T19:22:37","slug":"alienacao-dos-numeros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/alienacao-dos-numeros\/","title":{"rendered":"A aliena\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_327\" aria-describedby=\"caption-attachment-327\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-327\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836.jpg\" alt=\"Cr\u00e9dito: EDUSP\/Reprodu\u00e7\u00e3o. Clarice Lispector, imagem do livro Clarice: Uma vida que se conta; de N\u00e1dia Battella Gotlib.\" width=\"800\" height=\"1171\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-205x300.jpg 205w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-768x1124.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-700x1024.jpg 700w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-550x805.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-230x337.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-327\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Severino Francisco<\/h5>\n<p>N\u00f3s estamos vivendo sob o imp\u00e9rio dos n\u00fameros. Quase todas as decis\u00f5es de ordem pol\u00edtica ou econ\u00f4mica s\u00e3o tomadas com base em argumentos exclusivamente quantitativos. N\u00e3o existem mais pessoas; s\u00f3 planilhas, estat\u00edsticas e proje\u00e7\u00f5es cont\u00e1beis. O n\u00famero venceu, pelo menos provisoriamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o me refiro ao sensato equil\u00edbrio de contas que deve reger a vida das na\u00e7\u00f5es, das empresas ou das fam\u00edlias, sem o qual n\u00e3o chegam a lugar nenhum. Mas a economia n\u00e3o pode ser um fim em si mesma; ela deve ser um instrumento para a promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento, da justi\u00e7a social, da educa\u00e7\u00e3o, das utopias ou da felicidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O uso exclusivo dos n\u00fameros para nortear a nossa vida empobrece, obscurece e aliena. Nos deixa cegos para outros aspectos essenciais da realidade. Por exemplo, os economistas costumam louvar, em prosa e verso, automaticamente e acriticamente, as estat\u00edsticas da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola sem atentar, em nenhum momento, para os impactos no meio ambiente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, os cientistas t\u00eam alertado que as monoculturas afetam o ciclo das \u00e1guas e contribuem para o acirramento da crise h\u00eddrica. De outra parte, o mercado parece a express\u00e3o de uma entidade divina, soberana, racional e incontest\u00e1vel. Todavia, \u00e9 regido pelos humores mais inst\u00e1veis, mais irracionais e mais predat\u00f3rios. Oito bilion\u00e1rios det\u00e9m o bolo maior da riqueza do mundo enquanto na\u00e7\u00f5es inteiras agonizam na linha da pobreza ou da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os mandat\u00e1rios que decidem as grandes quest\u00f5es nacionais desconsideram tudo que n\u00e3o seja um n\u00famero. Os seres humanos foram inteiramente extintos dos discursos, das argumenta\u00e7\u00f5es e dos projetos. Estou sentindo a solid\u00e3o terr\u00edvel do algarismo. Isso me deu uma absurda nostalgia do humano, do erro, do transcendente, do ut\u00f3pico e do inef\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_328\" aria-describedby=\"caption-attachment-328\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-328\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838.jpg\" alt=\"Cr\u00e9dito: EDUSP\/Reprodu\u00e7\u00e3o. Retrato de Clarice Lispector em Cabo Frio em 1972 feito por Carlos Scliar, imagem do livro Clarice: Uma vida que se conta; de N\u00e1dia Battella Gotlib.\" width=\"800\" height=\"1083\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-222x300.jpg 222w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-768x1040.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-756x1024.jpg 756w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-550x745.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-230x311.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-328\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o. Retrato de Clarice Lispector por Carlos Scliar<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1967, Clarice Lispector escreveu uma cr\u00f4nica proclamando, a plenos pulm\u00f5es, que era um n\u00famero. No entanto, logo em seguida, ela pr\u00f3pria se insurgiu contra a senten\u00e7a proferida e resolveu fazer nova cr\u00f4nica retificando sua declara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois de meditar um pouco sobre o tema, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o, definitivamente, n\u00e3o era um n\u00famero. Na pressa para entregar o texto, ela mesma sentiu-se ultrajada pelas pr\u00f3prias palavras. Farejou no ar que havia desagradado e incomodado muita gente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A nova cr\u00f4nica foi uma insurrei\u00e7\u00e3o contra o anonimato, a frieza e a desumaniza\u00e7\u00e3o do n\u00famero. Encontrei em suas palavras um or\u00e1culo para a minha afli\u00e7\u00e3o atual com o pesadelo de um mundo regido soberanamente pelos algarismos: \u201cN\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero. Nem eu\u201d, sentencia Clarice, com a velocidade de sua intui\u00e7\u00e3o fulminante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E continua: \u201cPorque h\u00e1 o inef\u00e1vel. O amor n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero. A amizade n\u00e3o \u00e9. Nem a simpatia. A eleg\u00e2ncia \u00e9 algo que flutua. E se Deus tem n\u00famero \u2013 eu n\u00e3o sei. A esperan\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o tem n\u00famero. Perder uma coisa \u00e9 inef\u00e1vel: nunca sei dizer onde as coloquei. Inclusive perco at\u00e9 a lista de coisas a n\u00e3o perder. Morte \u00e9 inef\u00e1vel. Mas a vida tamb\u00e9m o \u00e9. Inclusive ser \u00e9 de um provis\u00f3rio impalp\u00e1vel\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s estamos vivendo sob o imp\u00e9rio dos n\u00fameros. N\u00e3o existem mais pessoas; s\u00f3 planilhas, estat\u00edsticas e proje\u00e7\u00f5es cont\u00e1beis. 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