{"id":3551,"date":"2026-10-13T13:16:41","date_gmt":"2026-10-13T16:16:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3551"},"modified":"2026-10-13T13:17:04","modified_gmt":"2026-10-13T16:17:04","slug":"o-fascismoe-o-demo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/o-fascismoe-o-demo\/","title":{"rendered":"O fascismo \u00e9 o demo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Arnaldo Jabor escreveu uma cr\u00f4nica saborosa sobre um encontro que o cineasta-cronista e os amigos Glauber Rocha e Cac\u00e1 Diegues tiveram no long\u00ednquo 1965 com Guimar\u00e3es Rosa no Itamaraty, do Rio de Janeiro. Jabor, Glauber e Cac\u00e1 eram cineastas iniciantes, ati\u00e7ados pelo \u00e2nimo de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, no \u00e1pice da petul\u00e2ncia juvenil. Achavam-se Rimbauds in\u00e9ditos, segundo Jabor.<br>Aquela gera\u00e7\u00e3o pertencia a um terceiro ciclo do modernismo que abra\u00e7ou a pol\u00edtica e viveu revolu\u00e7\u00f5es por minuto. Os tr\u00eas amigos investiam armados de preocupa\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, mas Rosa desconversava e respondia com blagues de nonsense sobre loucos. A trinca come\u00e7ava a ficar irritada com o desinteresse ou a aliena\u00e7\u00e3o de Rosa. No entanto, depois de certa blague, Glauber teve um estalo, deu um risinho, entendeu a postura de Rosa e a conversa fluiu.<br>O autor de <em>Grande Sert\u00e3o<\/em>: <em>Veredas<\/em> padeceu da fama de alheado durante muito tempo, pois n\u00e3o se metia nas ninharias da vida pol\u00edtica. \u201cMas voc\u00ea j\u00e1 observou que os que mais falam de pol\u00edtica s\u00e3o sempre os que t\u00eam menos livros publicados?\u201d, questionou em um congresso de literatura. No entanto, a aliena\u00e7\u00e3o ou a suposta aliena\u00e7\u00e3o do escritor foi posta \u00e0 prova durante o per\u00edodo em que trabalhou como c\u00f4nsul na Embaixada do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, de 1938 a 1951.<br>Nessa \u00e9poca, Rosa conheceu e se apaixonou por Aracy Moebius de Carvalho, uma brasileira que prestava servi\u00e7os para a secretaria do consulado. A Segunda Guerra Mundial se acirrou e Hitler ordenou ca\u00e7a implac\u00e1vel aos judeus na Europa. Eles passaram a procurar, cada vez mais, a Embaixada do Brasil em busca de fuga. Aracy e Rosa acolheram a muitos e ajudaram com grande risco pessoal de serem descobertos e punidos pelos nazistas: \u201cEu levava at\u00e9 o vapor, porque l\u00e1 os nazistas n\u00e3o pegavam eles\u201d, dizia Aracy, em depoimento ao <em>Jornal do Brasil<\/em>, reproduzido na \u00f3tima biografia sobre Guimar\u00e3es Rosa (Editora Nova Fronteira-Topobooks), de Leonencio Nossa.<br>Aracy revelou que Rosa ficava muito preocupado com ela: \u201cAra, qualquer dia voc\u00ea desaparece\u201d. Rosa tinha medo pela amada e por ele mesmo. \u201cMas eu n\u00e3o tinha medo, n\u00e3o\u201d, dizia Aracy. S\u00f3 que quem assinava os passaportes era Rosa: \u201cEle ajudava por minha causa. Assinava os passaportes e tal, mas tinha pavor. Fazia, mas tinha medo dos nazistas. L\u00e1 as pessoas desapareciam e ningu\u00e9m sabia mais nada. Os alem\u00e3es eram fan\u00e1ticos por Hitler\u201d. Em um di\u00e1rio, Rosa anotou: \u201cO Fuhrer e o marechal Goring fazem o que querem com o povo alem\u00e3o pois esse povo \u00e9 muito burro\u201d.<br>Rosa sempre teve foi obcecado pelo tema do diabo, a ponto de inventar muitos nomes para n\u00e3o nomear o original. O que era o diabo? \u201cO que n\u00e3o \u00e9 Deus \u00e9 o estado do dem\u00f4nio\u201d, diz o personagem Riobaldo Tatarana em <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>. Mas ao vivenciar o inferno do nazismo, com a suspens\u00e3o de todos os direitos humanos em favor dos caprichos de um ditador paranoico, Rosa teve uma experi\u00eancia hist\u00f3rica concreta de embate com as for\u00e7as do sem nome.<br>Em conversa com o poeta Haroldo de Campos, registrada na biografia de Leonencio Nossa, Rosa confidenciou: \u201cO fascismo, voc\u00ea n\u00e3o sabe, mas \u00e9 o demo. Eu sei, porque estive l\u00e1 e sei que \u00e9 o demo, porque tive que lidar com os alem\u00e3es para proteger refugiados judeus.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Arnaldo Jabor escreveu uma cr\u00f4nica saborosa sobre um encontro que o cineasta-cronista e os amigos Glauber Rocha e Cac\u00e1 Diegues tiveram no long\u00ednquo 1965 com Guimar\u00e3es Rosa no Itamaraty, do Rio de Janeiro. Jabor, Glauber e Cac\u00e1 eram cineastas iniciantes, ati\u00e7ados pelo \u00e2nimo de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, no \u00e1pice da petul\u00e2ncia juvenil. 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