{"id":3542,"date":"2026-09-30T10:38:17","date_gmt":"2026-09-30T13:38:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3542"},"modified":"2026-09-30T10:40:02","modified_gmt":"2026-09-30T13:40:02","slug":"reinacoes-de-reynaldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/reinacoes-de-reynaldo\/","title":{"rendered":"Reina\u00e7\u00f5es de Reynaldo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ontem, enquanto o mundo explode, de repente, senti muita saudade de Reynaldo Jardim. Mas, al\u00e9m da saudade, pensei como o seu legado precisa ser conhecido pelas novas gera\u00e7\u00f5es de jornalistas. Li em um livro que Paulo Francis foi o maior jornalista cultural do pa\u00eds. Permitam-me discrepar, como diria Antonio Houaiss. Francis era um articulista muito bom, embora eu discordasse dele em quase tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o resiste a uma compara\u00e7\u00e3o com Reynaldo, que era jornalista, poeta, artista gr\u00e1fico, escultor e desenhista. Reynaldo Jardim espalhou pequenas revolu\u00e7\u00f5es por onde passou ao longo de uma carreira de mais de 60 anos como jornalista e poeta. Os alvos eram jornais, revistas, suplementos, emissoras de r\u00e1dio e de televis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parecia aqueles cientistas exc\u00eantricos das hist\u00f3rias em quadrinho, dominados por um instinto indom\u00e1vel e furioso de cria\u00e7\u00e3o, a desferir rel\u00e2mpagos. A sua loucura era da esp\u00e9cie criadora e l\u00facida sem a qual as pessoas, as institui\u00e7\u00f5es e as na\u00e7\u00f5es adoecem de in\u00e9rcia ou inani\u00e7\u00e3o. E quem estava por perto tamb\u00e9m era atingido pelas chispas de inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inventou ou reformou os principais jornais e emissoras de r\u00e1dio do pa\u00eds. Criou o <em>Suplemento Dominical do Jornal do Brasil <\/em>e o jornal <em>O Sol,<\/em> no qual Zuenir Ventura e Carlos Heitor Cony foram editores; foi editor dos jornais<em> Correio da Manh\u00e3<\/em> e <em>\u00daltima Hora<\/em>; comandou a revista <em>Senhor<\/em>, onde Guimar\u00e3es Rosa e Clarice Lispector publicaram os primeiros textos, entre outros; dirigiu a ic\u00f4nica<em> R\u00e1dio Mundial.<\/em> \u00c9 uma figura inspiradora para as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentemente de Nelson Rodrigues, que recomendava: &#8220;Envelhe\u00e7am, envelhe\u00e7am&#8221;, Reynaldo era um adolescente nato e sempre adorava estar cercado de jovens para trocar energias e estabelecer parcerias. Os mais mo\u00e7os tamb\u00e9m reverenciavam Reynaldo e o coroavam com o apelido din\u00e1stico de &#8220;Rey.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tive o privil\u00e9gio de trabalhar dois anos com Reynaldo no <strong>Correio<\/strong>, ficamos amigos e testemunhei algumas cenas impag\u00e1veis. Reynaldo era editor do caderno de Cultura e eu, rep\u00f3rter. Ele criou um belo suplemento chamado Encarte, mas algu\u00e9m questionou que o tabl\u00f3ide poderia ser confundido com uma pe\u00e7a publicit\u00e1ria e, portanto, n\u00e3o seria mais publicado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reynaldo soltou fogo pelas ventas, trovejou, relampeou, mas logo deu a volta por cima e sentenciou: &#8220;Ah, n\u00e3o pode Encarte, ent\u00e3o vai ser <em>Desencarte<\/em>&#8220;. Depois de uma duas horas de trabalho furioso, estava pronto o projeto do Desencarte que, aprovado, j\u00e1 come\u00e7ou a circular no dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o separava poesia e jornalismo (escreveu em <em>O Sol<\/em>, o t\u00edtulo: &#8220;FMI \u00e9 o fim&#8221;) nem poesia e vida. Ao saber que seria submetido a um procedimento m\u00e9dico perigoso, reuniu a fam\u00edlia e comunicou: &#8220;Vou fazer um procedimento, vai dar tudo certo, mas, se n\u00e3o der, chamem a bateria da Aruc&#8221;. E, assim se fez, ele morreu em 2 de fevereiro de 2011. No sarau de s\u00e9timo dia, a bateria da Aruc abalou o Museu da Rep\u00fablica com Batucada de bamba: &#8220;Quero morrer numa batucada de bamba\/Na cad\u00eancia bonita do samba&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certa vez, convidei Reynaldo para falar com os alunos do UniCeub, onde eu lecionava. Combinei v\u00e1rias coisas com ele, mas, ao chegar na sala de aula, ele fez uma performance totalmente imprevista. Em seguida, Reynaldo me presenteou com o bel\u00edssimo volume de Sangradas escrituras, com toda a sua obra po\u00e9tica. No outro dia, liguei para ele e comuniquei constrangido que haviam me roubado o livro: &#8220;Que maravilha!!!\u201d, exultou Reynaldo. &#8220;Que pessoa de bom gosto. Amanh\u00e3, eu te dou outro exemplar de Sangradas escrituras&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Ontem, enquanto o mundo explode, de repente, senti muita saudade de Reynaldo Jardim. Mas, al\u00e9m da saudade, pensei como o seu legado precisa ser conhecido pelas novas gera\u00e7\u00f5es de jornalistas. Li em um livro que Paulo Francis foi o maior jornalista cultural do pa\u00eds. Permitam-me discrepar, como diria Antonio Houaiss. 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