{"id":3532,"date":"2026-09-14T19:18:36","date_gmt":"2026-09-14T22:18:36","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3532"},"modified":"2026-09-14T19:18:36","modified_gmt":"2026-09-14T22:18:36","slug":"o-bruxo-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/o-bruxo-no-mundo\/","title":{"rendered":"O bruxo no mundo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, eu quero falar do document\u00e1rio <em>Rodas de gigante,<\/em> dirigido por Catarina Acyolli, sobre Hugo Rodas, nosso bruxo em\u00e9rito do teatro, exibido na Mostra Bras\u00edlia do Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro. Tenho uma teoria segundo a qual, um espet\u00e1culo, um filme ou um livro bom para Bras\u00edlia precisa ser bom em S\u00e3o Paulo, no Rio de Janeiro, em Paris, Nova York, Marte, V\u00eanus e Plut\u00e3o. E foi exatamente isso que ocorreu com o filme <em>Rodas de gigante<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assisti \u00e0 fita em 2023, no Cine Bras\u00edlia, com Vladimir Carvalho, que ficou entusiasmado e fez o seguinte coment\u00e1rio: \u201cEsse \u00e9 o grande filme de Catarina Acyolli, ela acertou a m\u00e3o. Todos os diretores, mesmo os grandes, s\u00f3 fazem, de verdade, um ou dois grandes filmes.\u201d O document\u00e1rio \u00e9 singularmente brasilienses. Hugo Rodas se tornou um grande diretor de teatro de Bras\u00edlia e do Brasil ao se apropriar da cidade como campo experimental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entanto, o filme rodou por mais de 80 festivais, ganhou 40 pr\u00eamios, sendo 29 internacionais e sensibilizou as plateias de outros continentes ou quase de outros planetas. Ganhou pr\u00eamio de Melhor document\u00e1rio em Miami, Xangai, Amsterd\u00e3 e Roma, entre outros. Em todas as cr\u00edticas que Catarina recebeu, os autores ressaltavam a personalidade e o ser absolutamente inspirador de Hugo Rodas tanto pela paix\u00e3o de viver e de celebrar a vida, no limiar da morte. Catarina acredita que esse \u00e9 um tema universal. E, para completar o fasc\u00ednio, mesmo as broncas terr\u00edveis vinham carregadas de humor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No filme, Hugo aparece de corpo inteiro, com muitos momentos memor\u00e1veis e epif\u00e2nicos. Ritualizava todos os momentos da vida. Esbravejava, dan\u00e7ava, falava e sorria com os olhos, as m\u00e3os, as pernas, os cotovelos e os cabelos. Era dionis\u00edaco na arte e na vida. N\u00e3o importa que tivesse mais de 80 anos, ele sempre foi um adolescente nato. Perto de Hugo todos eram caretas, embora fosse tamb\u00e9m paternal e chegasse a ser chamado de \u201cPapito\u201d. Ele enfrentou a doen\u00e7a e a morte com a liberdade, o senso de humor, a coragem e a alegria de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Catarina registrou imagens raras. Depois de sofrer com um c\u00e2ncer, a doen\u00e7a afetou os movimentos de Hugo, que se tornaram meio desconectados. Mas \u00e9 impressionante, quando dan\u00e7ava em uma festa, o corpo dele se transmutava, as muletas eram incorporadas como instrumentos da performance. Pareciam uma extens\u00e3o do corpo. No filme, ele diz que dan\u00e7ava melhor do que andava. Nada mais verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 desconcertante que um dos brasilienses mais leg\u00edtimos era um uruguaio meio baiano. Hugo Rodas se tornou um dos mais importantes diretores do teatro brasileiro fazendo da nascente Bras\u00edlia o seu campo de experimenta\u00e7\u00f5es: \u201cEu fiquei em Bras\u00edlia porque eu queria me tornar candango. Quando me perguntam se eu me tornei brasileiro, eu digo que, antes de ser brasileiro, sou brasiliense, sou candango\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na ra\u00e7a, sem dinheiro de edital, \u00e0s pr\u00f3prias custas S. A. e dos amigos, Catarina acompanhou o cotidiano de Hugo durante os \u00faltimos quatro anos. N\u00e3o dava tempo de esperar a burocracia estatal ou a boa vontade oficial dos que decidem. A tarefa era urgente, imperiosa e inadi\u00e1vel. Valeu a pena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hugo Rodas era um teatro completo. Com muita sensibilidade e compet\u00eancia, Catarina captou o melhor das situa\u00e7\u00f5es para transform\u00e1-las em document\u00e1rio de poesia, revelador do legado de arte e de vida de Hugo Rodas. A trajet\u00f3ria vitoriosa do filme em festivais internacionais refor\u00e7a a relev\u00e2ncia do Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro e da Mostra Bras\u00edlia, que tem revelado filmes em destaque nos festivais internacionais. \u00c9 a cultura que confere dignidade a Bras\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Hoje, eu quero falar do document\u00e1rio Rodas de gigante, dirigido por Catarina Acyolli, sobre Hugo Rodas, nosso bruxo em\u00e9rito do teatro, exibido na Mostra Bras\u00edlia do Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro. 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