{"id":3530,"date":"2026-09-14T11:30:12","date_gmt":"2026-09-14T14:30:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3530"},"modified":"2026-09-14T11:30:13","modified_gmt":"2026-09-14T14:30:13","slug":"a-idade-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-idade-da-terra\/","title":{"rendered":"A Idade da Terra"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nelson Rodrigues foi assistir Terra em transe, de Glauber Rocha, em 1968, acompanhado de um amigo. A certa altura, incomodado com a fita, o amigo perguntou a Nelson o que ele estava achando e o nosso profeta do \u00f3bvio respondeu: \u201c\u00c9 um texto chin\u00eas, s\u00f3 que de cabe\u00e7a para baixo\u201d. Nelson detestou o filme, mas, no dia seguinte, Terra em transe continuou rodando em sua cabe\u00e7a e, a certa altura, ele teve um estalo e reconheceu: \u201cAqueles personagens se debatendo em dana\u00e7\u00f5es hediondas, aquilo somos n\u00f3s, aquilo \u00e9 o Brasil. Esse filme \u00e9 genial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois bem, tenho a impress\u00e3o de que o estranhamento e, em seguida, o reconhecimento, ocorre novamente com o filme A Idade da Terra. Glauber definiu A Idade da Terra como uma missa b\u00e1rbara sobre o renascimento de quatro Cristos no Terceiro Mundo: o Kristo Negro Zumbi (Ant\u00f4nio Pitanga), o Kristo S\u00e3o Sebasti\u00e3o (Tarc\u00edsio Meira), o Kristo Pescador (Jesse Valad\u00e3o) e o Kristo Ogum (Geraldo Del Rei).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Incompreendida na \u00e9poca do lan\u00e7amento, em 1980, a obra ganhou uma atualidade dram\u00e1tica com a invas\u00e3o da Venezuela, o sequestro de Maduro e os del\u00edrios imperialistas de Donald Trump. \u00c9 como se Glauber antecipasse, de maneira vision\u00e1ria, o que acontece hoje no mundo. O personagem John Brams, antagonista dos quatro Kristos, \u00e9 puro Trump. Glauber mistura, livremente, document\u00e1rio, realidade, fic\u00e7\u00e3o e poesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Bras\u00edlia, o Kristo Zumbi assume o protagonismo da cena. Brams diz para os oper\u00e1rios verdadeiros que constru\u00edram o Teatro Nacional: \u201cH\u00e1 500 anos, meus escravos est\u00e3o construindo essa pir\u00e2mide, que, no futuro, ser\u00e1 meu t\u00famulo\u201d. Em outro momento, o Kristo Negro, na pele de Antonio Pitanga, insurge-se e berra: \u201cBrams, chegou a hora de voc\u00ea ouvir a voz do Terceiro Mundo, voc\u00ea representa a pir\u00e2mide, n\u00f3s somos os prisioneiros da pir\u00e2mide. Chegou a hora de voc\u00ea ouvir a voz do povo da \u00c1sia, da Am\u00e9rica Latina, da \u00c1frica. A humanidade caminha para terceira guerra mundial, o mundo ser\u00e1 destru\u00eddo pela bomba at\u00f4mica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, uma das sequ\u00eancias mais impressionantes e on\u00edricas \u00e9 aquela em que o Kristo Ogum, Deus da guerra, julga Brams, de maneira surreal, trepado em um morro, empunhando dois fuzis em riste como se fossem extens\u00f5es do bra\u00e7o: \u201cAcuso Brams de invadir pa\u00edses europeus, asi\u00e1ticos, africanos e americanos. Acuso Brams de organizar a guerra psicobateriol\u00f3gica contra \u00edndios, contra negros, judeus e comunistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brams morre v\u00e1rias vezes e retorna, numa ruptura com o realismo, para revelar que a subjuga\u00e7\u00e3o imperialista sempre pode voltar. Os Kristos do Terceiro Mundo trazem a mensagem da revolu\u00e7\u00e3o do amor e da justi\u00e7a na forma de uma poesia poderosa. A prova mais cabal da for\u00e7a de uma obra de arte \u00e9 fato de a gente lembrar-se dela, \u00e9 o fato de ser memor\u00e1vel. Continuo achando A Idade da Terra um filme desigual, mas com sequ\u00eancias geniais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Revi as mencionadas sequ\u00eancias tr\u00eamulo, impressionado pela atualidade e pela antecipa\u00e7\u00e3o transfiguradora, a ponto de minha filha perguntar se eu estava com Alzheimer. \u00c9 que sob impacto est\u00e9tico costumo estremecer mesmo. E que falta nos fazem obras que nos fa\u00e7am tremer de como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Nelson Rodrigues foi assistir Terra em transe, de Glauber Rocha, em 1968, acompanhado de um amigo. A certa altura, incomodado com a fita, o amigo perguntou a Nelson o que ele estava achando e o nosso profeta do \u00f3bvio respondeu: \u201c\u00c9 um texto chin\u00eas, s\u00f3 que de cabe\u00e7a para baixo\u201d. 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