{"id":3521,"date":"2026-09-01T10:52:22","date_gmt":"2026-09-01T13:52:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3521"},"modified":"2026-09-01T10:52:23","modified_gmt":"2026-09-01T13:52:23","slug":"com-fe-na-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/com-fe-na-poesia\/","title":{"rendered":"Com f\u00e9 na poesia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luis Turiba, que nos deixou na semana passada, era um pernambucano, muito carioca e muito baiano. Quer dizer, muito brasiliense. Inquieto, din\u00e2mico, idealista, agregador e pragm\u00e1tico, com ele, as ideias se transformavam, rapidamente, em poemas, livros, revistas, coletivos, cole\u00e7\u00f5es e saraus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se na primeira metade da d\u00e9cada de 1970, Bras\u00edlia foi uma cidade cinzenta, em raz\u00e3o do cerceamento imposto pelo regime de exce\u00e7\u00e3o, instalado a partir de 1964, na d\u00e9cada de 1980, ela seria efervescente, audaciosa, solar, prazerosa, lis\u00e9rgica e feliz. No caso, a felicidade n\u00e3o decorria de uma ordem compuls\u00f3ria ou da aliena\u00e7\u00e3o, mas, sim, da alegria de criar, experimentar e arriscar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob os ventos da redemocratiza\u00e7\u00e3o, as novas gera\u00e7\u00f5es injetavam novo \u00e2nimo na cultura e apostavam, com grandes esperan\u00e7as, no futuro da cidade e do pa\u00eds. Os fantasmas e traumas do regime de exce\u00e7\u00e3o estavam vivos, mas a arte parecia dar voo para encarar e transcender todas as mazelas hist\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E Turiba foi um personagem relevante no campo das letras, quase sempre em conex\u00e3o com outras artes. Teve import\u00e2ncia decisiva na fermenta\u00e7\u00e3o da poesia marginal em Bras\u00edlia. Animou o grupo Lira Pau Bras\u00edlia. Trouxe Chacal do Rio de Janeiro, que espalhou em Bras\u00edlia o sopro po\u00e9tico coloquial da Nuvem Cigana. Colocou a palavra no caldeir\u00e3o cultural do movimento Cabe\u00e7as. Criou a cole\u00e7\u00e3o Poesia de Bolso, que revelou novos poetas da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Editou com Jo\u00e3o Borges a Bric-a-Brac, a revista que se tornou uma refer\u00eancia nacional ao publicar poemas de Leminski, Nicolas Behr, Francisco Alvim, mas, tamb\u00e9m, entrevistas antol\u00f3gicas com Caetano Veloso, Nise da Silveira, Augusto de Campos e Manoel de Barros. Uma das marcas distintivas da publica\u00e7\u00e3o era a experimenta\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica. Era uma revista de Bras\u00edlia e do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 para se ter ideia do alcance da Bric a Brac tomo a liberdade de citar trecho da apresenta\u00e7\u00e3o do volume que re\u00fane Poemas rupestres, Menino do mato e Escritos em verbal de ave, de Manoel de Barros, assinada por Alberto Pucheu. Ele tomou conhecimento da poesia de Manoel de Barros na revista Bric a Brac, indicada pelo professor Glause Abreu: \u201cAcabei de ler em uma revista chamada Bric a Brac, na Leonardo da Vinci, uma entrevista impressionante com um poeta que voc\u00ea tem de conhecer. V\u00e1 l\u00e1 e compre a revista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pucheu entendeu e recebeu o impacto da entrevista como se tivesse lido um poema: \u201cFiquei pasmo como o que lia naquelas palavras que formavam um longu\u00edssimo poema estranho, intenso, ileg\u00edvel em qualquer outro lugar que n\u00e3o fosse aquele\u201d. Al\u00e9m disso, Turiba era muito ligado \u00e0 m\u00fasica, comp\u00f4s can\u00e7\u00f5es com Renato Mattos e flertava com a poesia visual, o que se refletiu no arrojo gr\u00e1fico da Bric a Brac.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era singular e coletivo. Parece-me que o movimento Cabe\u00e7as reverbera nos shows gratuitos no Museu da Rep\u00fablica, nos saraus da Feirinha da 216 Norte e no Eix\u00e3o do Lazer. Turiba era um dos agitadores da gera\u00e7\u00e3o que fez a primeira ocupa\u00e7\u00e3o cultural de Bras\u00edlia e ensinou aos brasilienses novas formas de viverem, amorosamente, a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tra\u00e7o que mais me impressionava em Turiba era a f\u00e9 na poesia que o animava para fazer qualquer coisa, jornalismo, revista, sarau, agita\u00e7\u00e3o cultural, articula\u00e7\u00e3o de projetos, festa ou assessoria de imprensa: \u201cMeu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma uva\/pulsa explode abusa pluga\/meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 rebelde\/vive amea\u00e7ando greve\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Luis Turiba, que nos deixou na semana passada, era um pernambucano, muito carioca e muito baiano. Quer dizer, muito brasiliense. 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