{"id":3518,"date":"2026-08-31T12:01:25","date_gmt":"2026-08-31T15:01:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3518"},"modified":"2026-08-31T15:26:27","modified_gmt":"2026-08-31T18:26:27","slug":"mateiro-do-cerrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/mateiro-do-cerrado\/","title":{"rendered":"Mateiro do Cerrado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2009, Claudomiro de Almeida, 45 anos, assistiu a uma cena dram\u00e1tica na regi\u00e3o em que mora. Come\u00e7ou um inc\u00eandio de grandes propor\u00e7\u00f5es em Alto Para\u00edso, o fogo se alastrou e avan\u00e7ou sobre o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Uma equipe combateu o flanco do lado direito; outra, do lado esquerdo, a ideia era chegar na cabe\u00e7a do fogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No come\u00e7o, a estrat\u00e9gia deu certo, mas, quando faltava cerca de 50 metros para controlar o inc\u00eandio e os moradores j\u00e1 comemoravam a vit\u00f3ria, o fogo chegou em \u00e1rea de pastagens, gram\u00edneas africanas plantadas para criar gado, com muita palha seca. N\u00e3o \u00e9 vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado. Ent\u00e3o, o fogo cresceu muito e se espalhou pelo parque. A devasta\u00e7\u00e3o foi terr\u00edvel. Ali, surgiu, com alguns moradores, a ideia de restaurar o Cerrado. Foi realizado o primeiro experimento, com sucesso. No segundo, a \u00e1rea aumentou, precisava de mais semente e de mais gente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com isso, Claudomiro se juntou a outros moradores e fundou a Cerrado de P\u00e9, associa\u00e7\u00e3o de coletores de sementes da Chapada dos Veadeiros, que vem fazendo um trabalho extraordin\u00e1rio de restaura\u00e7\u00e3o do bioma, que envolve 240 fam\u00edlias da regi\u00e3o, com cerca de 70% de mulheres. Eles colhem cerca de 20 toneladas de sementes por ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de prover a regi\u00e3o da Chapada, a Associa\u00e7\u00e3o abastece o projeto de restaura\u00e7\u00e3o do Cerrado de Mariana, a cidade mineira que teve a vegeta\u00e7\u00e3o arrasada por um acidente da minera\u00e7\u00e3o. Esse dinheiro garante a subsist\u00eancia das fam\u00edlias da regi\u00e3o. Com isso, a comunidade se sente estimulada a preservar o Cerrado, pois ele \u00e9 a fonte de renda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Claudomiro \u00e9 nascido e criado no mato, n\u00e3o tem nenhuma pretens\u00e3o a pesquisador. \u00c9 agricultor, mateiro, brigadista e coletor de sementes. Ele era um agricultor familiar, praticava o que se chama na regi\u00e3o ro\u00e7a de toco. Tinha de trabalhar fora algum tempo para ganhar dinheiro e comprar roupas e outros produtos que a comunidade n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de fabricar. Come\u00e7ou como funcion\u00e1rio dos servi\u00e7os gerais do Parque Nacional de Veadeiros, mas, na verdade, precisava atuar a maior parte do tempo como brigadista, combatendo o fogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contato com as amea\u00e7as ao meio ambiente acenderam a consci\u00eancia para a necessidade de preservar e restaurar o Cerrado. Pergunto a Claudomiro se ele est\u00e1 notando alguma mudan\u00e7a no ciclo dos ip\u00eas-amarelos e ele confirma o que observamos na cidade. Com menos chuva e mais aquecimento, \u00e9 poss\u00edvel perceber o efeito das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na flora\u00e7\u00e3o, que atrasa ou adianta. Os polinizadores tem diminu\u00eddo. Ele lembra que em 2009, quando come\u00e7ou a coletar sementes e ia mapear o terreno, encontrava verdadeiros doss\u00e9is de ip\u00eas-amarelos com uma cor t\u00e3o intensa que pareciam um inc\u00eandio no Cerrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As abelhas, os beija-flores e outros p\u00e1ssaros rondavam. Era uma m\u00fasica da vida. Mas, agora, n\u00e3o existe unidade. De vez em quando, ele se depara com uma \u00e1rvore de florada exuberante. No entanto, os ip\u00eas-amarelos n\u00e3o apresentam mais unidade, florescem de maneira descont\u00ednua. As sementes tamb\u00e9m s\u00e3o afetadas. O tempo do \u00e1pice da flora\u00e7\u00e3o era agosto. No entanto, ela est\u00e1 se atrasando ou adiantando. Virou uma bagun\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas os moradores da Chapada dos Veadeiros n\u00e3o desistem de lutar e de resistir. \u201cQuando n\u00e3o estamos na coleta, estamos apagando fogo,\u201d diz Claudomiro. Ele estabeleceu uma meta para si pr\u00f3prio e para todos porque ningu\u00e9m faz nada sozinho. Juntar-se, coletar e plantar tantas sementes quanto estrelas existem no c\u00e9u.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Em 2009, Claudomiro de Almeida, 45 anos, assistiu a uma cena dram\u00e1tica na regi\u00e3o em que mora. Come\u00e7ou um inc\u00eandio de grandes propor\u00e7\u00f5es em Alto Para\u00edso, o fogo se alastrou e avan\u00e7ou sobre o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. 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