{"id":3506,"date":"2026-08-19T12:27:38","date_gmt":"2026-08-19T15:27:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3506"},"modified":"2026-08-19T12:27:38","modified_gmt":"2026-08-19T15:27:38","slug":"luiz-gutemberg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/luiz-gutemberg\/","title":{"rendered":"Luiz Gutemberg"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>Tive o prazer de trabalhar com jornalista e escritor Luiz Gutemberg, em 1999 e 2000, no Jornal de Bras\u00edlia. Era um brilhante analista pol\u00edtico. Eu costumava v\u00ea-lo na Band em um telejornal no qual formava uma dupla afinada com Mar\u00edlia Gabriela e ele me pareceu com um tanto solene, embora levemente ir\u00f4nico. No entanto, quando o conheci pessoalmente a impress\u00e3o foi completamente outra.<\/p>\n<p>Como editor, estabeleceu a primazia do texto. E, por isso, resgatou a antiga nomenclatura do Redator chefe e estendeu a todos as editorias. Assim, os editores passaram a ser nomeados por Redator de pol\u00edtica, Redator de cidades, Redator de cultura. Ou seja, o editor tinha de escrever reportagens, entrevistas e artigos. Ambicionava a autoridade da autoria. Os tra\u00e7os que o distinguiam eram a intelig\u00eancia, a ilustra\u00e7\u00e3o, a cr\u00edtica, o afeto, a verve e a coragem.<\/p>\n<p>Gutemberg veio do Jornal do Brasil dos bons tempos, uma das melhores escolas de jornalismo da imprensa brasileira, de onde sa\u00edram Ferreira Gullar, Alberto Dines, J\u00e2nio de Freitas, Reinaldo Jardim, Castelinho, Ant\u00f4nio Calado, Oliveira Bastos e Jos\u00e9 Carlos Oliveira, entre tantos outros. Ele escreveu o livro essencial JB \u2013 A inven\u00e7\u00e3o do maior Jornal do Brasil, conduzida por Odylo Costa Filho (Aeroplano). Carregava na cabe\u00e7a um mar de hist\u00f3rias e, ao mesmo tempo, protagonizava um outro tanto delas na vida.<\/p>\n<p>Todos os dias, ele chegava cedo \u00e0 reda\u00e7\u00e3o e, logo em seguida, aportava o revisor Bevil\u00e1qua, a quem ele dispensava muito apre\u00e7o, com a sauda\u00e7\u00e3o invari\u00e1vel, a plenos pulm\u00f5es: \u201cBevil\u00e1cqua, o saudoso Bevil\u00e1qua!\u201d. Ao que, Bevil\u00e1qua protestava: \u201cAlto l\u00e1, n\u00e3o estou morto\u201d. Era in\u00fatil, no outro dia, o ritual se repetia: \u201cBevil\u00e1qua, o nosso saudoso Bevil\u00e1cqua\u2026\u201d<\/p>\n<p>Quando inventou o Teatro Galp\u00e3o na 508 Sul, a partir da ocupa\u00e7\u00e3o de um almoxarifado, o ator Jo\u00e3o Ant\u00f4nio resolveu inaugurar o novo espa\u00e7o com um espet\u00e1culo feito inteiramente com gente de Bras\u00edlia. Chamou La\u00eds Aderne para dirigir, e ela convocou a turma do Col\u00e9gio Pr\u00e9-Universit\u00e1rio, onde era professora. E, a\u00ed, apareceu Gutemberg com o texto da pe\u00e7a O homem que enganou o diabo e ainda pediu troco. A montagem fez muito sucesso e Jo\u00e3o ganhou um amigo.<\/p>\n<p>Para Jo\u00e3o, Gutemberg tinha esse jeito de inventar encontros. De transformar uma amizade em projeto, uma ideia em aventura, uma conversa em alguma coisa que podia ganhar o mundo. Uma dessas ideias foi a cria\u00e7\u00e3o da Companhia Popular de Com\u00e9dia do Hospital Sarah, proposta por Gutemberg depois de uma estada no espa\u00e7o em raz\u00e3o de um acidente de tr\u00e2nsito. Ele chamou Jo\u00e3o para ser o diretor.<\/p>\n<p>Gutemberg era imprevis\u00edvel. Naquela \u00e9poca, o editor de Cidades era um paraibano do fio desencapado. Por qualquer raz\u00e3o, real ou aparente, ele se destemperava e se desentendia. E foi o que aconteceu em um hor\u00e1rio de pico do fechamento da edi\u00e7\u00e3o. Jogou o crach\u00e1 de editor em cima da mesa e foi embora para casa. Gutemberg tinha afei\u00e7\u00e3o pelo nosso personagem e o chamou no outro dia para uma conversa no meio da reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos poucos, o col\u00f3quio entre o alagoano arretado e o paraibano do fio desencapado subiu a temperatura, a tens\u00e3o se tornou insuport\u00e1vel e, a certa altura, Gutemberg levantou-se da cadeira, ergueu as m\u00e3os e bradou uma frase que era uma mistura de bronca terr\u00edvel e declara\u00e7\u00e3o de afeto, que deixou o nosso personagem desconcertado: \u201cN\u00f3s te amamos, seu paraibano imbecil!\u201d<\/p>\n<p>A reda\u00e7\u00e3o inteira explodiu em uma gargalhada, inclusive e, principalmente, o nosso personagem. Gutemberg era extremamente s\u00e9rio no compromisso profissional, mas sem perder o afeto e o senso de humor jamais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco Tive o prazer de trabalhar com jornalista e escritor Luiz Gutemberg, em 1999 e 2000, no Jornal de Bras\u00edlia. 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