{"id":3502,"date":"2026-08-14T19:40:14","date_gmt":"2026-08-14T22:40:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3502"},"modified":"2026-08-14T19:40:14","modified_gmt":"2026-08-14T22:40:14","slug":"a-elegancia-de-coutinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-elegancia-de-coutinho\/","title":{"rendered":"A eleg\u00e2ncia de Coutinho"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>O professor Jos\u00e9 Carlos Coutinho \u00e9 um dos brasilienses que mais vive a cidade. \u00c9 sempre um prazer encontrar essa figura elegante, distinta e bem-humorada. Quando se aposentou, ele passou a dedicar-se, inteiramente, a acompanhar a vida cultural brasiliense. Segundo o amigo Jos\u00e9 Geraldo Sousa J\u00fanior, a presen\u00e7a de Coutinho em um evento \u00e9 um selo de qualidade.<\/p>\n<p>Por isso, a apari\u00e7\u00e3o do nosso personagem \u00e9 disputada a tapa pelos produtores culturais. Segundo outro amigo, Vladimir Carvalho, Coutinho foi visto, ao mesmo tempo, em tr\u00eas eventos culturais. Formou v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de arquitetos na Universidade de Bras\u00edlia.\u00a0 Se tivesse poderes para tal, Coutinho gostaria de criar uma lei para que, antes de assumirem cargos p\u00fablicos, todos os governantes fizessem um curso sobre patrim\u00f4nio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Certa vez, Niemeyer visitou a UnB e, ao ser convidado a passar pela Faculdade de Arquitetura, ele se recusou, pois, l\u00e1, teria um inimigo: Jos\u00e9 Carlos Coutinho. Na \u00e9poca, Coutinho sentiu o impacto, mas, com o passar do tempo, o acontecimento virou uma piada. Com toda a genialidade, Niemeyer tinha dificuldade de aceitar reparos \u00e0 sua obra, mesmo que viesse de admiradores, como \u00e9 o caso de Coutinho. E, para o professor, o apre\u00e7o pela cidade e o senso cr\u00edtico n\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis. N\u00e3o \u00e9 para qualquer um ser \u201cinimigo\u201d de Niemeyer.<\/p>\n<p>O Cine Bras\u00edlia \u00e9 uma esp\u00e9cie de segunda casa para Coutinho. Desde que chegou \u00e0 cidade, ele \u00e9 um frequentador ass\u00edduo do cinema, obra arquitet\u00f4nica inspirada de Oscar Niemeyer. Quando foi Diretor do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico de Bras\u00edlia, ele e um colega resolveram tombar, em uma s\u00f3 tacada, o Cine Bras\u00edlia e o Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro como patrim\u00f4nios culturais materiais e imateriais de Bras\u00edlia. A identifica\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o \u00e9 t\u00e3o intensa que, independentemente do filme que estiver passando, ele vai ao Cine Bras\u00edlia na certeza de que encontrar\u00e1 um bom filme ou um amigo.<\/p>\n<p>Ao ser indagado sobre quais seriam as a\u00e7\u00f5es marcantes que fez por Bras\u00edlia, Coutinho inverte a l\u00f3gica da pergunta. \u201cN\u00e3o fiz nada, Bras\u00edlia \u00e9 que me ofereceu oportunidades que eu n\u00e3o teria em nenhuma outra cidade.\u201d Por exemplo, ele teve a chance de conhecer Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Nelson Mandela, o l\u00edder sul-africano mundialmente famoso por ter enfrentado o apartheid.<\/p>\n<p>Adalgisa do Ros\u00e1rio, aguerrida professora de hist\u00f3ria da UnB, prop\u00f4s que Mandela recebesse o t\u00edtulo de doutor honoris causa da universidade. O l\u00edder africano aceitou, a cerim\u00f4nia seria realizada no audit\u00f3rio da Reitoria. No entanto, havia muita gente e decidiram transferir o ritual para o Audit\u00f3rio Dois Candangos. Logo, perceberam que n\u00e3o caberia. Em seguida, foram para o Audit\u00f3rio da Faculdade de Medicina.<\/p>\n<p>Ocorre que a comunidade negra do DF se mobilizou e ocupou a UnB. N\u00e3o havia lugar para ningu\u00e9m mover-se e a reitoria de Antonio Ibanez resolveu outorgar o t\u00edtulo a Mandela em um dos jardins da UnB, ao ar livre, em meio a uma multid\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, Coutinho dispensou o carro dirigido por ele e s\u00f3 anda a p\u00e9, de t\u00e1xi, de \u00f4nibus ou de uber. \u00c9 uma outra Bras\u00edlia que se descortinou para ele, semelhante a que se desvelou para Lucio Costa ao visitar a Rodovi\u00e1ria sozinho e de maneira an\u00f4nima. Fica impressionado com a educa\u00e7\u00e3o da gente do povo nos \u00f4nibus, que, quando o v\u00ea, se levanta e oferece a cadeira para sentar-se. N\u00e3o se cansa de ter alumbramentos com as \u00e1rvores retorcidas como esculturas naturais ou com a esta\u00e7\u00e3o das flores pelas superquadras. Coutinho \u00e9 uma das pessoas que ensinou a amar Bras\u00edlia com senso cr\u00edtico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco O professor Jos\u00e9 Carlos Coutinho \u00e9 um dos brasilienses que mais vive a cidade. \u00c9 sempre um prazer encontrar essa figura elegante, distinta e bem-humorada. Quando se aposentou, ele passou a dedicar-se, inteiramente, a acompanhar a vida cultural brasiliense. 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