{"id":3498,"date":"2026-08-08T21:26:19","date_gmt":"2026-08-09T00:26:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3498"},"modified":"2026-08-08T21:26:19","modified_gmt":"2026-08-09T00:26:19","slug":"zuca-sardan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/zuca-sardan\/","title":{"rendered":"Zuca Sardan"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante muito tempo, o vate Zuca Sardan se tornou uma figura t\u00e3o enigm\u00e1tica que os desavisados desconfiavam de que era um pseud\u00f4nimo, qui\u00e7a, um heter\u00f4nomio do tamb\u00e9m poeta Francisco Alvim. Na verdade, o amigo Chico sempre teve a carteirinha n\u00famero 1 do f\u00e3 clube de Zuca, que, desde o in\u00edcio dos anos 1950, fazia livrinhos mimeografados, contendo f\u00e1bulas hilariantes, irreverentes e an\u00e1rquicas. \u201cTentemos de novo&#8230;\/A Economia \u00e9 o estudo dos homens\/em suas atividades ordin\u00e1rias\/segundo se ganham e gastam\/uns meios de vida:\/uns pra melhor, uns pra pior. Ou seja\/gentil Leitora, distinto Leitor:\/bem sabeis, cada qual\/se vira como pode.\u201d<\/p>\n<p>Chico repassou os pasquins po\u00e9ticos de Zuca aos integrantes da chamada gera\u00e7\u00e3o da Poesia Marginal, que, imediatamente, o identificaram e reconheceram na condi\u00e7\u00e3o de precursor do movimento. Zuca nos deixou, na quinta-feira, aos 93 anos, em Hamburgo, na Alemanha, onde residia, depois de uma queda e de sofrer complica\u00e7\u00f5es de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Com o tempo e o reconhecimento, os poetas costumam assumir um tom mais grave. No entanto, isso n\u00e3o ocorreu com Zuca. N\u00e3o importava a idade que tivesse, sempre foi um adolescente de 17 anos, animado pelo desejo de demolir as certezas com uma poesia temperada pelo humor, como se v\u00ea no poema Calote Metaphysico: \u201cA vida \u00e9 curta\/e a salva\u00e7\u00e3o dif\u00edcil&#8230;\/Al\u00e9m de que a salva\u00e7\u00e3o pessoal\/parece um neg\u00f3cio dos mais duvidosos&#8230;\/conviria primeiro saber\/se a salva\u00e7\u00e3o existe.\/E se n\u00e3o existe&#8230;\/ent\u00e3o aquela for\u00e7a\/e os sacrif\u00edcios\/s\u00f3 pra no fim levar\/o calote metaf\u00edsico!\u2026\u201d<\/p>\n<p>O Conde Lotrak, o professor Fumegas, o Capit\u00e3o Busto, o Anjo Turbolev, o Cardeal Sacamuelas, os cataplasmas scaravelhos e os morcegos esparadrapos. A poesia de Zuca se tornou palco de uma furiosa metamorfose de seres e palavras-seres. Ele me passava a impress\u00e3o de ser, ao mesmo tempo, desenhista, trapezista, dramaturgo, maestro e diretor de circo por causa do teatro fren\u00e9tico que colocava em cena. Era preciso que a poesia de Zuca fosse encenada no teatro, pois \u00e9 um permanente di\u00e1logo ca\u00f3tico.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar que o autor de tantas diatribes e diabruras tenha sido o diplomata de carreira Carlos Felipe Saldanha. Ele \u00e9 filho do arquiteto e pintor Firmino Saldanha, parceiro de Oscar Niemeyer e Lucio Costa nos primeiros esbo\u00e7os da arquitetura moderna no Brasil. Estudou arquitetura, ingressou na carreira diplom\u00e1tica no Itamaraty, come\u00e7ou com a pintura, mas, segundo suas palavras, depois de ver o filme Orfeu, de Jean Cocteau, decidiu ser \u201cum famoso poeta surrealista desconhecido\u201d.<\/p>\n<p>Na poesia brasileira n\u00e3o lhe restou outro caminho sen\u00e3o o de ser original. Assimilou Oswald de Andrade, Lewis Carrol e Alfred Jarry para fazer uma poesia pataf\u00edsica, surreal, dada\u00edsta e delirante: \u201cPor qu\u00ea, \u00f3 Vener\u00e1vel, existe o mal\u201d\/ indaga o ressentido Bacamarte.\/\u201dEu \u00e9 que sei?\u201d, brada Malaquias\/\u201dPorque n\u00e3o \u00e9 o mundo em forma de livro,\/com ilustra\u00e7\u00f5es sem s\u00e9pia,\/ou hachurado grosso,\/ou escrito em papel arroz?\/Enfim, vamos parar\/com perguntas tolas\/e v\u00e1 me buscar uma cerveja\u201d.<\/p>\n<p>O melhor de Zuca est\u00e1 nos livros Osso do cora\u00e7\u00e3o, \u00c0s de colete (Ed. Unicamp) e Ximerix (Cosac e Naif). Zuca era um marginal \u00e0 margem da margem. Quer dizer, n\u00e3o se encaixava sequer no movimento da poeisa da d\u00e9cada de 1970. Por temperamento e voca\u00e7\u00e3o, ele trilhou um caminho singular \u00e0 revelia de qualquer voga ou moda: \u201cSe poesia fosse t\u00e1xi\/j\u00e1 arrancava\/com o leitor pagando bandeira 2\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Durante muito tempo, o vate Zuca Sardan se tornou uma figura t\u00e3o enigm\u00e1tica que os desavisados desconfiavam de que era um pseud\u00f4nimo, qui\u00e7a, um heter\u00f4nomio do tamb\u00e9m poeta Francisco Alvim. 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