{"id":3494,"date":"2026-08-05T15:46:46","date_gmt":"2026-08-05T18:46:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3494"},"modified":"2026-08-05T15:46:46","modified_gmt":"2026-08-05T18:46:46","slug":"nelson-e-rosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/nelson-e-rosa\/","title":{"rendered":"Nelson e Rosa"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>A passagem dos 70 anos de publica\u00e7\u00e3o de Grande Sert\u00e3o: Veredas n\u00e3o \u00e9 apenas uma data chapa-branca est\u00e9ril, ela enseja leituras,\u00a0 releituras e revis\u00f5es. Nelson Rodrigues, o nosso profeta do \u00f3bvio, viveu uma rela\u00e7\u00e3o tensa e contradit\u00f3ria com Guimar\u00e3es Rosa. O criador do <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em> recomendava aos escritores que fizesse pir\u00e2mides e n\u00e3o biscoitos. Enquanto isso, Nelson fabricava os biscoitos finos na cozinha dos jornais, trabalhava mais do que remador de Ben Hur, como ele mesmo dizia. Chegava a escrever tr\u00eas cr\u00f4nicas por dia: uma de costumes, outra de cultura e uma terceira sobre futebol.<\/p>\n<p>Por isso, quando o dileto amigo Otto Lara Resende afirmou que Rosa era um g\u00eanio, Nelson sentiu-se humilhado e ofendido, e revirou-se de inveja. \u201cUma besta esse Otto\u201d, defendeu-se. Permaneceu alguns dias indignado com o Otto: \u201cNunca me chamou de g\u00eanio\u201d, admitiu com a coragem extrema de sempre.<\/p>\n<p>Mas a morte abrupta de Rosa, tr\u00eas dias depois de tomar posse de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, provocou a perturba\u00e7\u00e3o em Nelson, que vazou para as cr\u00f4nicas: \u201cJustamente a morte de Rosa tocou meu \u00edntimo e confesso p\u00e2ntano.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte de Guimar\u00e3es Rosa, Nelson come\u00e7ou a ficar inquieto pelas d\u00favidas que o escritor suscitava. E foi conversar no boteco Garoto do Papai com Carlos Heitor Cony e com meu amigo Reynaldo Jardim, que trabalhou na reda\u00e7\u00e3o do <strong>Correio<\/strong>. Claro que o assunto era Guimar\u00e3es Rosa. Nelson atribu\u00eda a Carlos Heitor Cony a defini\u00e7\u00e3o de Rosa como \u201cum novo Coelho Neto\u201d, escritor parnasiano marcado pela ret\u00f3rica vazia, alvo preferencial do modernismo. Oswald de Andrade o chamava de \u201cCoelho Av\u00f4\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, ao mencionar Rosa, Cony teria abandonado Coelho Neto e comparado o inventor de Grande Sert\u00e3o: Veredas com o Conselheiro Ac\u00e1cio, personagem de E\u00e7a de Queiroz, que s\u00f3 repete lugares comuns. \u201cAquele sujeito que morre para provar que viveu \u00e9 Ac\u00e1cio. Tenha santa paci\u00eancia. Mas \u00e9 Ac\u00e1cio\u201d. No esc\u00e2ndalo, Nelson balbuciou: \u201cE <em>A terceira margem do Rio<\/em> tamb\u00e9m \u00e9 Ac\u00e1cio?\u201d O outro fez a concess\u00e3o: \u201cA terceira margem \u00e9 bom!\u201d,<\/p>\n<p>Quando Nelson avistou Reynaldo, perguntou o que achava de Guimar\u00e3es Rosa, e o poeta disparou: \u201cUm bolha!\u201d Nelson protestou, argumentando com a inven\u00e7\u00e3o da linguagem, mas Reynaldo refutou com veem\u00eancia pol\u00eamica: \u201cUm fals\u00e1rio! Um fals\u00e1rio!\u201d<\/p>\n<p>Em cr\u00f4nica para a <em>Folha de S. Paulo<\/em>, Cony conta uma vers\u00e3o diferente dos fatos e reveladora do processo de cria\u00e7\u00e3o de Nelson. O nosso profeta do \u00f3bvio perguntou a Jardim o que achava do Rosa. Com a franqueza habitual, o poeta disse que n\u00e3o gostava. No dia seguinte, Nelson escreveu que Jardim achava Rosa \u201cuma besta\u201d. A Cony, o nosso Freud de Madureira pediu opini\u00e3o sobre uma frase que ganhou destaque nos jornais com a morte de Rosa: \u201cA gente morre para provar que viveu\u201d. Cony foi suscinto: \u201cTem um bafio acaciano\u201d. Foi o pretexto para Nelson escrever uma s\u00e9rie de cinco cr\u00f4nicas, com pequenas varia\u00e7\u00f5es, nas quais Cony aparecia de dedo em riste, fazendo uma revis\u00e3o cr\u00edtica de cal\u00e7ada, dando pulos de indigna\u00e7\u00e3o: \u201cAc\u00e1cio! Ac\u00e1cio!\u201d.<\/p>\n<p>Cony acreditava que Nelson testava as pr\u00f3prias ideias que n\u00e3o tinha coragem de expressar. E, em seguida, colocava tudo que queria dizer na boca dos amigos. No entanto, depois daquele embate com Cony e com Reynaldo, nos quais confrontou suas d\u00favidas, Nelson deu um desfecho dram\u00e1tico e fulminante para a cr\u00f4nica: \u201cComecei a beber meu copo de leite (a \u00falcera tinha contra\u00e7\u00f5es de v\u00edbora moribunda). E, s\u00fabito, fui varado por uma dessas certezas inapel\u00e1veis: Guimar\u00e3es Rosa era o \u00fanico g\u00eanio de nossa literatura.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco A passagem dos 70 anos de publica\u00e7\u00e3o de Grande Sert\u00e3o: Veredas n\u00e3o \u00e9 apenas uma data chapa-branca est\u00e9ril, ela enseja leituras,\u00a0 releituras e revis\u00f5es. Nelson Rodrigues, o nosso profeta do \u00f3bvio, viveu uma rela\u00e7\u00e3o tensa e contradit\u00f3ria com Guimar\u00e3es Rosa. 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