{"id":3483,"date":"2026-07-12T20:46:38","date_gmt":"2026-07-12T23:46:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3483"},"modified":"2026-07-12T20:48:16","modified_gmt":"2026-07-12T23:48:16","slug":"os-bajuladores-da-copa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/os-bajuladores-da-copa\/","title":{"rendered":"Os bajuladores da Copa"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a elimina\u00e7\u00e3o do Brasil da Copa do Mundo, o n\u00edvel de bajula\u00e7\u00e3o de sele\u00e7\u00f5es e de jogadores estrangeiros chegou a um ponto da indignidade. N\u00e3o consigo assistir mais a nenhum jogo sem sentir repulsa. Voc\u00ea nunca viu a um jornalista argentino bater palmas para os jogadores brasileiros em nenhuma \u00e9poca. Pelo contr\u00e1rio: nos Jogos Ol\u00edmpicos de 1986, enquanto aguardava a partida entre Brasil e Nig\u00e9ria para saber qual advers\u00e1rio a Argentina enfrentaria na final, o jornal esportivo <em>Ol\u00e9<\/em> estampou a manchete: \u201cQue vegan los macacos\u201d.<\/p>\n<p>Los macacos a que se referiam os jornalistas argentinos eram os brasileiros, favoritos para a peleja contra os africanos. Pois bem, desafiando todos os progn\u00f3sticos, a Nig\u00e9ria venceu e eliminou o Brasil. No entanto, os argentinos n\u00e3o tiveram melhor sorte contra os nigerianos e tamb\u00e9m foram derrotados.<\/p>\n<p>Messi \u00e9 um excepcional jogador, um dos maiores da hist\u00f3ria do futebol, acima de Maradona, abaixo somente talvez de Pel\u00e9 e de Garrincha. No entanto, n\u00e3o vejo motivo para endeusar e gastar tantos adjetivos com algu\u00e9m que nunca usou o prest\u00edgio internacional para se insurgir contra o racismo at\u00e1vico dos argentinos. Seria um dos poucos com autoridade para recusar essa viol\u00eancia, do jeito e na medida em que quisesse, mas permanece completamente omisso.<\/p>\n<p>Assisti a um v\u00eddeo em que um brasileiro pergunta a um argentino se ele torceria para o Brasil e a resposta \u00e9 o deboche. Ele toma a indaga\u00e7\u00e3o como uma piada, responde que jamais e que preferiria torcer para o Uruguai ou para qualquer outra sele\u00e7\u00e3o. Um profissional da informa\u00e7\u00e3o tem a obriga\u00e7\u00e3o de conhecer a hist\u00f3ria, n\u00e3o pode se dar ao luxo de ser um ignaro.<\/p>\n<p>Est\u00e1 certo que o Brasil deu um vexame contra a Noruega, n\u00e3o por perder, mas, sim, pelo fato de ser eliminado de uma maneira t\u00e3o ap\u00e1tica, desfigurada e covarde. Claro que a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira vive uma terr\u00edvel crise de identidade. Mas isso n\u00e3o justifica assumir a postura mais servil, subserviente e bajuladora em rela\u00e7\u00e3o a outros times e jogadores que est\u00e3o no \u00e1pice.<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, a pessoa cai no rid\u00edculo. Que disse eu, parece que esse limite foi abolido na cobertura esportiva. Existe um locutor que, quando se depara com uma jogada excepcional, se esgoela, a plenos pulm\u00f5es, para o autor da fa\u00e7anha: \u201cVoc\u00ea \u00e9 rid\u00edculo!\u201d Trata-se de uma express\u00e3o absolutamente tola, destitu\u00edda de qualquer inven\u00e7\u00e3o, verve ou gra\u00e7a. \u00c9 a perda total de sentido da linguagem. As tiradas populares s\u00e3o testadas, passam por uma decanta\u00e7\u00e3o e uma depura\u00e7\u00e3o nas ruas.<\/p>\n<p>Veja-se, por exemplo, \u201cme erra\u201d, inven\u00e7\u00e3o carioca que condensa humor e poesia. Mas, agora, qualquer asnice pronunciada ao microfone corre o risco de viralizar nas bolhas da rede social e se propagar sem o menor senso cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o de que se essas pessoas conhecessem futebol por meio de Nelson Rodrigues, Mario Rodrigues, Jo\u00e3o Saldanha n\u00e3o se rebaixariam a tal ponto. N\u00e3o baterei palmas para racistas ou para os que se omitem ante o racismo. Eu bato palmas para o investimento em educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica da pr\u00e9-escola ao ensino superior, a distribui\u00e7\u00e3o de renda, o estado do bem-estar social, a consci\u00eancia ambiental e o est\u00e1gio de transi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica da Noruega.<\/p>\n<p>Ao assistir a certas narra\u00e7\u00f5es de jogos ou rodas de debate esportivo fico com vontade de botar uma folha de parreira na cara de vergonha, diria Nelson Rodrigues. Para elogiar n\u00e3o \u00e9 preciso perder a dignidade. Eu acho que at\u00e9 para enaltecer \u00e9 necess\u00e1rio ter alguma compostura. \u00c9 poss\u00edvel perder sem perder a dignidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Com a elimina\u00e7\u00e3o do Brasil da Copa do Mundo, o n\u00edvel de bajula\u00e7\u00e3o de sele\u00e7\u00f5es e de jogadores estrangeiros chegou a um ponto da indignidade. N\u00e3o consigo assistir mais a nenhum jogo sem sentir repulsa. Voc\u00ea nunca viu a um jornalista argentino bater palmas para os jogadores brasileiros em nenhuma \u00e9poca. 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