{"id":3458,"date":"2026-06-04T17:55:53","date_gmt":"2026-06-04T20:55:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3458"},"modified":"2026-06-04T17:55:53","modified_gmt":"2026-06-04T20:55:53","slug":"as-coisas-mais-belas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/as-coisas-mais-belas\/","title":{"rendered":"As coisas mais belas"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pandemia do Coronav\u00edrus estabeleceu uma cultura do confinamento e deixou a muitos em casa mais tempo. Ent\u00e3o, uma boa alternativa foi entregar-se \u00e0 leitura de livros. Uma das leituras que me marcaram durante esse per\u00edodo foi a de\u00a0<i>As coisas mais belas do mundo<\/i>, de Valter Hugo M\u00e3e (Biblioteca Azul). Hugo \u00e9 um dos mais importantes escritores de l\u00edngua portuguesa vivo.<\/p>\n<p>Ele tem o dom de dizer as palavras essenciais para cada momento. Costuma repetir que \u00e9 desajeitado para escrever narrativas dirigidas \u00e0s crian\u00e7as. Bem, ele pode ser desajeitado no sentido gauche de Carlos Drummond de Andrade ou exc\u00eantrico de Clarice Lispector.<\/p>\n<p>Mas, esse tra\u00e7o n\u00e3o o desqualifica; pelo contr\u00e1rio, o eleva em humanidade. \u00c9 o que vemos em\u00a0<i>As coisas mais belas do mundo<\/i>, livrinho escrito para crian\u00e7as, mas, como ocorre com toda obra liter\u00e1ria de qualidade, rico em encanto e sabedoria para pessoas de qualquer idade.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Valter registra em uma nota que a narrativa evoca e celebra a sua rela\u00e7\u00e3o com o av\u00f4 materno, Ant\u00f4nio Alves. Sempre lhe pedia que explicasse as coisas mais complexas: \u201cEu soube sempre que meu mundo era afetivo. Quer dizer, o que eu sabia era sobretudo gostar de algu\u00e9m. Era o que o meu av\u00f4 valorizava em mim, o empenho colocado em gostar de algu\u00e9m. Toda a sabedoria devia resultar na pura capacidade de amar e cuidar de algu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o, o garoto narrador apresenta o av\u00f4 como um detetive de interiores, que inspecionava os sentimentos: \u201cQuando perguntei porqu\u00ea, ele respondeu que s\u00f3 assim se fala verdadeiramente da felicidade. Para estudar o cora\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e9 preciso um cuidado cir\u00fargico\u201d. O av\u00f4 tinha cuidado para evitar que ele se desiludisse: \u201cQuem se desilude morre por dentro. Dizia: \u00e9 urgente viver encantado. O encanto \u00e9 a \u00fanica cura poss\u00edvel para a inevit\u00e1vel tristeza\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, a quest\u00e3o mais importante que permeia o di\u00e1logo entre o garoto e o av\u00f4 \u00e9 a beleza. Certo dia, o av\u00f4 lhe pergunta: quais s\u00e3o as coisas mais belas do mundo? E o garoto imagina muitas possibilidades: dos filhotes de c\u00e3o aos gatos, passando pelo ver\u00e3o, o comportamento dos cristais, os lobos ou as nuvens vistas do avi\u00e3o: \u201cPensei que as mais belas coisas do mundo haveriam de ser as amarelas e as vermelhas\u201d.<\/p>\n<p>Todavia, o av\u00f4 desconversa e prop\u00f5e outra quest\u00e3o em forma de pergunta: \u201cEle sorriu e quis saber se n\u00e3o haviam de ser a amizade, o amor, a honestidade e a generosidade, o ser-se-fiel, educado, o ter-se respeito por cada pessoa. Ponderou se o mais belo do mundo n\u00e3o seria fazer-se o que se sabe e pode para que a vida de todos seja melhor\u201d.<\/p>\n<p>Ao fim, percebemos que o interlocutor do garoto \u00e9 uma esp\u00e9cie de fil\u00f3sofo disfar\u00e7ado de av\u00f4. \u00c9 como se um S\u00f3crates mais afetuoso se reencarnasse para um di\u00e1logo com uma crian\u00e7a: \u201cExplicava que aprender \u00e9 mudar de conduta, fazer melhor. Quem sabe melhor e continua a cometer o mesmo erro n\u00e3o aprendeu nada, apenas acedeu \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Ele pensava que dispomos de informa\u00e7\u00e3o suficiente para termos uma conduta mais cuidada. Elogiava insistentemente o cuidado\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; &nbsp; A pandemia do Coronav\u00edrus estabeleceu uma cultura do confinamento e deixou a muitos em casa mais tempo. Ent\u00e3o, uma boa alternativa foi entregar-se \u00e0 leitura de livros. 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