{"id":3451,"date":"2026-05-12T13:17:06","date_gmt":"2026-05-12T16:17:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3451"},"modified":"2026-05-12T13:17:06","modified_gmt":"2026-05-12T16:17:06","slug":"bola-pro-mato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/bola-pro-mato\/","title":{"rendered":"Bola pro mato"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>A maneira como a gente torce por um clube \u00e9 uma das coisas mais misteriosas que existem. Tudo come\u00e7a em um lance do acaso e se transforma em um estilo, um modo de sentir, de ver e de viver a vida. Passei a torcer para o Corinthians nos tempos em que morei em S\u00e3o Paulo, de 1966 a 1970, quando o time ficou sem ganhar um t\u00edtulo 22 anos.<\/p>\n<p>Os donos dos botecos afixavam nas tabuletas: \u201cFiado, s\u00f3 quando o Corinthians for campe\u00e3o\u201d. E eis um claro enigma do Coring\u00e3o: neste \u00ednterim, a torcida do Corinthians s\u00f3 cresceu de maneira avassaladora.<\/p>\n<p>Corinthians \u00e9 amor incondicional, \u00e9 paix\u00e3o desmedida, \u00e9 loucura. Eu tenho a impress\u00e3o de que, se conhecesse o Tim\u00e3o, o poeta Maiak\u00f3vski seria um corinthiano doente: \u201cComigo a anatomia enlouqueceu\/Eu sou todo cora\u00e7\u00e3o\u201d, proclamou o poeta. S\u00f3 um corintiano ensandecido e febril poderia escrever um verso como esse.<\/p>\n<p>Ultimamente, evito assistir a jogos do Corinthians porque a sofr\u00eancia \u00e9 tamanha que torna-se quase insuport\u00e1vel. E, agora, a diretoria do clube acrescentou um elemento dram\u00e1tico: contratou o t\u00e9cnico Fernando Diniz, conhecido por incentivar os comandados a sa\u00edrem jogando, perigosamente, da baliza do goleiro corinthiano Hugo Souza, em meio a uma selva de botinadas dos jogadores inimigos.<\/p>\n<p>Diniz dirigiu o Corinthians em nove jogos e, em nenhum deles, houve nenhuma sa\u00edda temer\u00e1ria da turma de zaga do Tim\u00e3o. Eu pensei: Diniz tomou ju\u00edzo. Que nada, no jogo de domingo, contra o S\u00e3o Paulo, o meio-campista Ranieri recebeu a bola de Hugo Souza na pequena \u00e1rea, errou a passada para a esquerda, tentou dar um passe e colocou a bola nos p\u00e9s do atacante advers\u00e1rio, que fuzilou nas redes corinthianas, empatando um jogo que estava totalmente dominado pelo Coring\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o Corinthians virou o jogo e ganhou de 3&#215;2. Fez de tudo para perder, no entanto, felizmente, n\u00e3o conseguiu. Apesar da vit\u00f3ria, aquela jogada desastrosa est\u00e1 rodando em videotape em minha cabe\u00e7a. E me fez lembrar do craque G\u00e9rson, o Canhotinha de Ouro, regente do meio de campo do Brasil na conquista do Tricampeonato em 1970 no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Na Copa de 1966, G\u00e9rson e uma gera\u00e7\u00e3o de outros jogadores brilhantes, Tost\u00e3o, Jairzinho e Edu sucumbiram em meio \u00e0 bagun\u00e7a da CBF, que convocou quatro times. Mas, na Copa de 1970, G\u00e9rson foi um le\u00e3o. Defendeu, atacou e deu passes de 30 e 40 metros, com a bola girando no alto e caindo, milimetricamente, no peito de Pel\u00e9 e Jairzinho, cara a cara com o goleiro.<\/p>\n<p>G\u00e9rson foi um dos mais talentosos meio-campistas do futebol brasileiro e mundial. Quando ele recebia passes de virada pelo alto, a matada de bola no peito valia o ingresso. A bola vinha torta, era amortecida e morria lentamente na ponta da chuteira. Com toda essa classe, ao perceber que a bola rondava, perigosamente, a \u00e1rea do Brasil, ele n\u00e3o pensava duas vezes, dava um bico para fora do est\u00e1dio, sem o m\u00ednimo pudor.<\/p>\n<p>A Copa do Mundo de 2026 entrou em contagem regressiva. S\u00f3 faltam 30 dias. Causa-me calafrios pensar que, em algum momento, os beques brasileiros adotem o dinizismo e entreguem o jogo de bandeja para os alem\u00e3es, os espanh\u00f3is ou os franceses. Espero que se lembrem do craque G\u00e9rson nestas circunst\u00e2ncias e deem um bico para fora do est\u00e1dio de ganhar um leit\u00e3o. Como diria, Ary Barroso, flamenguista doente, ao narrar os jogos do rubro-negro: nem quero ver, nem quero ver&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco A maneira como a gente torce por um clube \u00e9 uma das coisas mais misteriosas que existem. Tudo come\u00e7a em um lance do acaso e se transforma em um estilo, um modo de sentir, de ver e de viver a vida. 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