{"id":3419,"date":"2026-02-03T12:35:53","date_gmt":"2026-02-03T15:35:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3419"},"modified":"2026-02-03T12:35:53","modified_gmt":"2026-02-03T15:35:53","slug":"claudio-valentinetti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/claudio-valentinetti\/","title":{"rendered":"Claudio Valentinetti"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo ficava mais agitado, barulhento, dram\u00e1tico, divertido e pol\u00eamico quando Claudio Valentinetti chegava. N\u00e3o me lembro como ficamos amigos, mas sei que desde o primeiro instante, ele passou a me chamar de \u201ccangaceiro\u201d e, eu, a ele, de \u201cpossesso\u201d porque sempre tinha uma diatribe engatilhada na ponta da l\u00edngua. Ele nos deixou na segunda-feira aos 76 anos, depois de enfrentar diabetes, vulnerabilidades no pulm\u00e3o e problemas na coluna.<\/p>\n<p>Valentinetti era um brilhante cr\u00edtico de cinema e tradutor. \u00c9 autor de Glauber \u2013 Um olhar europeu, um dos melhores livros sobre o cineasta baiano. O fato de ser sobrinho da arquiteta Lina Bo Bardi n\u00e3o \u00e9 fortuito. Lina, uma das l\u00edderes da revolucion\u00e1ria universidade da Bahia, dirigida pelo reitor Edgar Santos, apresentou o cineasta baiano a Valentinetti nas visitas \u00e0 fam\u00edlia em Mil\u00e3o: \u201cum rapaz com os cabelos cacheados, de olhar ardente e aveludado, como o de uma on\u00e7a, poeta e jornalista, animador cultural (que palavra feia!) e catalisador de toda uma gera\u00e7\u00e3o\u201d, como lembra Valentinetti no livro sobre Glauber.<\/p>\n<p>Se Glauber influiu em Lina, ela tamb\u00e9m influenciou Glauber. Lina n\u00e3o era uma arquiteta convencional. Em 1958, <em>A \u00f3pera dos vint\u00e9ns,<\/em> de Berthold Bretch, em montagem de Martim Gon\u00e7alves, seria apresentada no Teatro Castro Alves, em Salvador. Ocorre que o teatro pegou fogo. Mas, durante a reconstru\u00e7\u00e3o, em uma atitude de arrojo, Lina criou o cen\u00e1rio dos destro\u00e7os e a pe\u00e7a foi encenada em cima das ru\u00ednas. Com certeza, experi\u00eancias como essa impactaram Glauber.<\/p>\n<p>O contato com a obra de Glauber abriu as portas para conhecimento do cinema brasileiro. Para Valentinetti, o Cinema Novo foi, \u201centre as correntes cinematogr\u00e1ficas que se desenvolveram durante os anos 1960, talvez a mais viva, a mais interessante\u201d. Mas Valentinetti escreveu tamb\u00e9m obras importantes sobre Orson Welles, Eduardo Coutinho, Othon Bastos, Joaquim Pedro Andrade e Rita Hayworth. Al\u00e9m disso, traduziu para o italiano Gabriel Garc\u00eda Marquez, Jorge Amado, Carlos Fuentes, Fernando Savater, Fernando Pessoa, entre outros.<\/p>\n<p>De maneira semelhante \u00e0 tia Lina Bo Bardi, Valentinetti se abrasileirou, sem deixar de ser italiano. A indigna\u00e7\u00e3o contra as injusti\u00e7as sociais, o obscurantismo pol\u00edtico e a mediocridade cultural era seu estado natural. Valentinetti tinha quatro tra\u00e7os inconfund\u00edveis: a intelig\u00eancia cintilante, o anarquismo, a afetuosidade e certo mau-humor sempre bem-humorado, que n\u00e3o poupava a ningu\u00e9m, nem a si mesmo. Era um humanista, da cabe\u00e7a aos sapatos.<\/p>\n<p>Valentinetti tinha uma vis\u00e3o de mundo completamente marcada pelo cinema. Durante o vel\u00f3rio, no Campo da Esperan\u00e7a, apareceu Humphrey Bogart, em carne e osso, quer dizer, Ariel, o gar\u00e7on do Dom Giovanni, no Lago Sul, restaurante preferido de Valentinetti. L\u00e1, conheceu o poeta e jornalista piauiense Paulo Jos\u00e9 Cunha, que teve de aprender rudimentos de italiano para conviver com a turma. Valentinetti e Paulo ideavam escrever uma biografia de Vladimir Carvalho.<\/p>\n<p>A sa\u00fade de Valentinetti ficou inst\u00e1vel nos \u00faltimos dois anos e a companheira Erika foi uma guerreira e uma anja da guarda no amparo em momento t\u00e3o dram\u00e1tico. Durante an\u00e1lise, perguntaram\u00a0 \u00a0porque havia se apaixonado por Valentinetti e ela n\u00e3o soube responder na hora. No entanto, em casa, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que ele era o homem que idealizava: bonito, inteligente, culto e irreverente.<\/p>\n<p>Ele era uma pessoa preciosa, que far\u00e1 muita falta. Que o Don Giovanni crie, com urg\u00eancia, a pizza Valentinetti.<\/p>\n<p>PS: Fui informado de que a pizza Claudio j\u00e1 existe no Don Giovanni e \u00e9 a mais requisitada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Tudo ficava mais agitado, barulhento, dram\u00e1tico, divertido e pol\u00eamico quando Claudio Valentinetti chegava. N\u00e3o me lembro como ficamos amigos, mas sei que desde o primeiro instante, ele passou a me chamar de \u201ccangaceiro\u201d e, eu, a ele, de \u201cpossesso\u201d porque sempre tinha uma diatribe engatilhada na ponta da l\u00edngua. 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