{"id":3327,"date":"2025-08-08T00:37:41","date_gmt":"2025-08-08T03:37:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3327"},"modified":"2025-08-12T19:28:03","modified_gmt":"2025-08-12T22:28:03","slug":"uma-noite-memoravel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/uma-noite-memoravel\/","title":{"rendered":"Uma noite memor\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Estou at\u00e9 agora em estado de choque pela recep\u00e7\u00e3o calorosa ao livro <em>A profiss\u00e3o do sonho \u2013 Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio<\/em>, escrito por mim a partir de pesquisa de Dea Barbosa, lan\u00e7ado na noite de ter\u00e7a-feira, no Beirute. Cheguei 10 minutos atrasado e comecei a cumprimentar pessoas que deram depoimento para o livro. Mas, de repente, fui sequestrado por uma\u00a0 loira\u00e7a misteriosa, que me puxou pelo bra\u00e7o, rumo \u00e0 uma mesa do Beiras cheia de livros: &#8220;Vim com a miss\u00e3o de te carregar&#8221;, esclareceu, acelerando o passo e me arrastando.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Logo entendi o motivo da afli\u00e7\u00e3o, ela me conduziu de encontro a uma fila quilom\u00e9trica com livros nas m\u00e3os \u00e0 cata de aut\u00f3grafos. &#8220;Quem \u00e9 essa loira\u00e7a com estampa de atriz de filme de agente secreto que me sequestrou?&#8221;, perguntei. E responderam-me: &#8220;\u00c9 Val\u00e9ria Colela, ex-diretora do Canec\u00e3o, do Rio de Janeiro.&#8221; Ela \u00e9 f\u00e3 de Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio e veio a Bras\u00edlia s\u00f3 para o lan\u00e7amento do livro.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Uma das funcion\u00e1rias da casa me disse que nunca viu tanta gente no Beirute.\u00a0 N\u00e3o foi a primeira vez que autografei um livro. Uma colega de reda\u00e7\u00e3o\u00a0 esperou uma hora e meia na fila, comeu quibe, tomou cerveja e fez amigos. Enquanto isso, um vendedor de redes passou anunciando o produto. Sa\u00edam f\u00e3s dos irm\u00e3os Ferreira de todos os lados. E tamb\u00e9m ex-alunos de Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio. A fila n\u00e3o acabava. Autografei tantos livros que tive de fazer fisioterapia.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">E eis que aconteceu um dos momentos mais lindos da hist\u00f3ria do Beirute. Todos esperavam pela presen\u00e7a de Clim\u00e9rio e o nosso poeta fez um suspense de matar o Hitchcock, diria Moreira da Silva. No entanto, finalmente, aportou ao Beiras. Quando ele chegou, sem que ningu\u00e9m tivesse combinado nada, o Beirute ficou de p\u00e9 e aplaudiu o poeta.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Contei para uma amiga e ela disse: &#8220;Ainda bem que n\u00e3o fui, pois teria ca\u00eddo no choro&#8221;. S\u00f3 um poeta de aguda consci\u00eancia humanista poderia escrever esses versos: &#8220;Eu n\u00e3o sei matar, s\u00f3 sei morrer&#8221;. Clim\u00e9rio tamb\u00e9m teve de entrar na maratona de aut\u00f3grafos, de nada adiantou argumentar: &#8220;Mas eu n\u00e3o sou autor, sou apenas v\u00edtima da biografia&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Embora me multiplique por diversas fun\u00e7\u00f5es e of\u00edcios para sobreviver, eu me considero, fundamentalmente, um jornalista cultural. E, como se sabe, jornalista cultural n\u00e3o ganha Pr\u00eamio Esso; ganha Pr\u00eamio Osso. Quer dizer, \u00e9 agraciado com mais trabalho. Foi essa a sensa\u00e7\u00e3o que tive quando Athos Bulc\u00e3o me convidou para escrever a biografia dele.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A Funda\u00e7\u00e3o havia preparado um livro para homenage\u00e1-lo, mostraram ao mestre, ele gostou muito, no entanto, fez o seguinte pedido: &#8220;Est\u00e1 muito bom, mas eu gostaria que tivesse uma biografia minha escrita pelo Severino Francisco&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">De forma semelhante, senti-me honrado quando, ao recusar o convite para escrever a biografia de Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio, a jornalista e produtora Dea Barbosa me contra-argumentou que a indica\u00e7\u00e3o havia partido de Clodo Ferreira. Neste momento, o convite tornou-se um ultimato irrecus\u00e1vel. Mas tamb\u00e9m um desafio que me fez tremer embaixo dos p\u00e9s. De modo que j\u00e1 acumulo dois pr\u00eamios Ossos.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Escrevi esse livro para mostrar que os irm\u00e3os Ferreira n\u00e3o s\u00e3o apenas os autores de <em>Revela\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>Enquanto engoma a cal\u00e7a<\/em> ou <em>Ave cora\u00e7\u00e3o<\/em>. Eu criei um m\u00e9todo de avalia\u00e7\u00e3o particular da relev\u00e2ncia de um compositor para a hist\u00f3ria da m\u00fasica popular brasileira. \u00c9 o seguinte: se eu conseguir fazer uma set list de 20 can\u00e7\u00f5es ou mais, ele merece figurar em destaque no ranking dos melhores. E os irm\u00e3os Ferreira alcan\u00e7aram esse status.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Eu sugiro que, durante a leitura, os leitores ou\u00e7am as can\u00e7\u00f5es mencionadas, pois chegar\u00e3o, facilmente, a essa constata\u00e7\u00e3o da qualidade das cria\u00e7\u00f5es da trinca piauiense. Gostaria que o livro sobre Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio despertasse a consci\u00eancia do pertencimento. Quis contar uma hist\u00f3ria para que, ao ler, os brasilienses percebessem que fazem parte dessa hist\u00f3ria. E isso aconteceu. A cidade abra\u00e7ou os irm\u00e3os Ferreira. S\u00f3 tinha gente bacana, elegante e gentil. Foi uma noite memor\u00e1vel. Segundo informa\u00e7\u00f5es sigilosas, quase faltou quibe no Beirute.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco &nbsp; Estou at\u00e9 agora em estado de choque pela recep\u00e7\u00e3o calorosa ao livro A profiss\u00e3o do sonho \u2013 Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio, escrito por mim a partir de pesquisa de Dea Barbosa, lan\u00e7ado na noite de ter\u00e7a-feira, no Beirute. Cheguei 10 minutos atrasado e comecei a cumprimentar pessoas que deram depoimento para o livro. 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