{"id":3310,"date":"2025-07-17T08:42:01","date_gmt":"2025-07-17T11:42:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3310"},"modified":"2025-07-17T08:42:01","modified_gmt":"2025-07-17T11:42:01","slug":"doi-so-quando-eu-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/doi-so-quando-eu-rio\/","title":{"rendered":"D\u00f3i s\u00f3 quando eu rio"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">&#8220;Sente-se, leitura flu\u00edda\/agrad\u00e1vel\/sem anteparos ou\/escolhos\/\u00e9 para ler de uma\/sentada&#8221;, escreve o poeta Francisco Alvim em um dos poemas de <em>O metro nenhum<\/em> (Ed. Cia das Letras). O poema n\u00e3o est\u00e1 no in\u00edcio, mas bem que poderia funcionar, a um s\u00f3 tempo, como roteiro e senha, mas ir\u00f4nicos. Eles prop\u00f5em ao leitor um jogo com os sentidos. \u00c9 preciso ler al\u00e9m do que est\u00e1 escrito.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Vejam s\u00f3 como \u00e9 misteriosa a poesia. Ganhei o livro na \u00e9poca do lan\u00e7amento, em 2011, n\u00e3o me tocou ou, melhor, n\u00e3o me toquei. No entanto, em 2019, ele caiu-me nas m\u00e3os, pedindo ou ordenando que eu o lesse. O pr\u00f3prio Chico disse que \u00e9 poss\u00edvel aplicar plenamente \u00e0 poesia aquela defini\u00e7\u00e3o dada por Magalh\u00e3es Pinto \u00e0 pol\u00edtica: \u00e9 uma nuvem, cada vez que voc\u00ea olha, ela est\u00e1 diferente e sopra em outra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Todavia, voltemos ao livrinho magro, de poemas quase sempre curtos, mas contundentes. Chico parece um Dalton Trevisan do Lago Norte a destilar ironia, farsa e dramas de R$ 1,99 em sua antilira, em sua antipoesia: &#8220;Mas se todos fazem&#8221;, escreve no poema <em>Argumento<\/em>. Mirou em um alvo de circunst\u00e2ncia, por\u00e9m acertou em tantas atrocidades que se fazem em nome do princ\u00edpio \u00e9tico partilhado por muitos em outros tempos.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Algumas vezes, os poemas de Chico s\u00e3o muito engra\u00e7ados, chegam a produzir um efeito hilariante, como \u00e9 o caso do intitulado <em>Hist\u00f3ria de neto<\/em>:&#8221;S\u00e3o muito chatas\/mas esta vale a pena\/a bab\u00e1\/mocinha de treze catorze anos\/resistiu o quanto p\u00f4de\/mas acabou que confessou tudo\/s\u00f3 que tudo era outra coisa\/muito pouco\/quase nada\/cinco reais um len\u00e7ol um quilo de arroz\/o Cartier negou&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Corte godardiano da cena para o neto: &#8220;Ele tr\u00eas aninhos s\u00f3 ouvindo\/e\/de repente:\/(nunca vi crian\u00e7a t\u00e3o inteligente)\/mas que perigo\/podiam ter roubado a minha chupeta&#8221;. Chico inventou o falso poema-piada, sua poesia \u00e9 carregada de segundas e terceiras inten\u00e7\u00f5es. O n\u00e3o dito, o apenas insinuado, \u00e9 sempre o essencial. \u00c9 o que se l\u00ea em <em>Um churrasco<\/em>: &#8220;N\u00e3o foi desmarcado\/ela estava muito velhinha\/muito doentinha&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Os poemas n\u00e3o se esgotam na piada diluidora. Doem s\u00f3 quando voc\u00ea ri. Contrabandeiam inquieta\u00e7\u00e3o a cada blague. Em <em>Ter\u00e7o<\/em>, ele diz: &#8220;Foi dela\/era tida como uma santa\/com quem fica?&#8221; Chico \u00e9 mineiro, exercita uma consci\u00eancia moral atormentada, cr\u00edtica e implac\u00e1vel com as ridicularias humanas.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mas tamb\u00e9m exerce a veia l\u00edrica. Em <em>Sonoro<\/em>, possivelmente inspirado na luz brasiliana, ele sa\u00fada a alvorada: &#8220;Voz que dan\u00e7a\/na luz que brilha nesta linha\/branca\/do horizonte\/Luz, luz\/que cresce\/no espa\u00e7o que se abre\/da aurora&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A antilira radical, feita de pequenos nadas, ou de &#8220;cacos de ar&#8221;, pode levar muitos a questionarem se seus versos s\u00e3o, de fato, poesia. Ele arrisca uma resposta no poema <em>Metro<\/em>, que discute a pendenga sobre quem seria o maior poeta brasileiro. Drummond saiu fora, negando que algu\u00e9m o tenha medido com fita m\u00e9trica para saber.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Chico emenda: &#8220;Estava certo\/pois a poesia\/quando ocorre\/tem mesmo a perfei\u00e7\u00e3o do metro\/nem mais\/nem menos\/s\u00f3 que de metro nenhum\/um metro ningu\u00e9m\/um metro de nadas&#8221;. A mensura\u00e7\u00e3o da poesia n\u00e3o \u00e9 cient\u00edfica nem matem\u00e1tica. Os poemas de Chico transcendem a piada que se apaga; eles permanecem em nossa cabe\u00e7a, provocando inquieta\u00e7\u00e3o depois da leitura: &#8220;Mas se todos fazem&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco &#8220;Sente-se, leitura flu\u00edda\/agrad\u00e1vel\/sem anteparos ou\/escolhos\/\u00e9 para ler de uma\/sentada&#8221;, escreve o poeta Francisco Alvim em um dos poemas de O metro nenhum (Ed. Cia das Letras). O poema n\u00e3o est\u00e1 no in\u00edcio, mas bem que poderia funcionar, a um s\u00f3 tempo, como roteiro e senha, mas ir\u00f4nicos. 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