{"id":3303,"date":"2025-06-29T08:29:38","date_gmt":"2025-06-29T11:29:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3303"},"modified":"2025-06-29T09:24:59","modified_gmt":"2025-06-29T12:24:59","slug":"climerio-e-vladimir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/climerio-e-vladimir\/","title":{"rendered":"Clim\u00e9rio e Vladimir"},"content":{"rendered":"<hr \/>\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">A amizade cultural entre Clim\u00e9rio e Vladimir Carvalho suscitou uma pequena obra-prima: a can\u00e7\u00e3o <em>Conterr\u00e2neos<\/em>, com letra de Cli e m\u00fasica de Clodo e Cl\u00e9sio. Quando era aluno da UnB, Clim\u00e9rio topou com Vladimir, nos corredores do Minhoc\u00e3o, quando o cineasta paraibano filmava o document\u00e1rio <em>Vestibular 70<\/em>, premiado no festival de curtas promovido pelo <em>Jornal do Brasil<\/em>.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Come\u00e7aram a conversar, eram nordestinos, tinham afinidades tel\u00faricas e logo ficaram amigos. Os la\u00e7os afetivos se estreitaram quando Clim\u00e9rio se matriculou no curso de cinema ministrado por Vladimir, quando teve a oportunidade de conhecer o cinema russo de Vertov, Eisenstein e Pudovkin, mas tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio brasileiro. N\u00e3o por acaso, a poesia de Clim\u00e9rio \u00e9 permeada por cortes e montagens cinematogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">E, nesta conex\u00e3o com o cinema, merece destaque a bela can\u00e7\u00e3o <em>Conterr\u00e2neos,<\/em> do \u00e1lbum Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio, mas tamb\u00e9m gravada por Dominguinhos e Guadalupe. <em>Conterr\u00e2neos<\/em> \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o diretamente inspirada no filme <em>Conterr\u00e2neos velhos de guerra<\/em>, de Vladimir Carvalho, que documenta o drama dos nordestinos que ergueram Bras\u00edlia. Clim\u00e9rio escreveu os versos com a inten\u00e7\u00e3o de que fossem musicados.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Ficou profundamente tocado com a realidade humana projetada pelo document\u00e1rio. Queria fazer uma homenagem ao filme, a Vladimir e ao Nordeste, mas sem elogiar o filme ou o diretor de maneira direta. Desejava falar da luta dos que constroem os edif\u00edcios e n\u00e3o tem onde morar. \u00c9 o que aconteceu com os candangos expulsos das ocupa\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas ao N\u00facleo Bandeirante e transferidos para a Ceil\u00e2ndia, cujo nome deriva da sigla CEI \u2013 Comiss\u00e3o de Erradica\u00e7\u00e3o das Invas\u00f5es.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A letra nasceu do contato com o filme, mas tamb\u00e9m das conversas de Clim\u00e9rio com Vladimir, nos tempos em que ambos eram professores da Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da UnB. A poesia de Clim\u00e9rio se fundiu maravilhosamente com a melodia de Clodo e Cl\u00e9sio para construir uma das mais belas e pungentes can\u00e7\u00f5es sobre a migra\u00e7\u00e3o nordestina.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">N\u00e3o \u00e9 uma poesia \u00e1gua com a\u00e7\u00facar. Logo no primeiro verso, Clim\u00e9rio avisa, nordestinamente, sobre a situa\u00e7\u00e3o da partida: &#8220;O amor tamb\u00e9m tem aspereza\/Faz chorar\/Toda brisa que me beija\/Vem de l\u00e1\/Quando se parte de um lugar\/Sem querer\/Parte-se um pouco de tudo\/Fica-se um pouco por l\u00e1&#8221;. Em seguida, Clim\u00e9rio\u00a0 exp\u00f5e o drama popular nordestino de construir casas e cidades e n\u00e3o ter onde morar, com versos concisos e contundentes: &#8220;T\u00e3o nordestino \u00e9 o desatino\/De sonhar\/De construir casa e destino\/Sem morar\/T\u00e3o carregado de esperan\u00e7a\/Ao partir\/Pensando que a hora da volta\/J\u00e1 est\u00e1 pra chegar&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">E, quase como se percorresse um ciclo, embora os versos sejam estruturados em uma montagem cinematogr\u00e1fica n\u00e3o linear, Clim\u00e9rio faz a epifania da saudade, do nordestino dividido entre a condi\u00e7\u00e3o de migrante e os apelos da terra de origem: &#8220;Saudade chega no cheiro da mo\u00e7a chegada recente\/Saudade chega na fala do mo\u00e7o chegado de l\u00e1\/Saudade chega no pingo da chuva que cai de repente\/Saudade chega no claro do dia de qualquer lugar&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Na \u00e9poca, Vladimir Carvalho escreveu: \u201cOs meus &#8216;irm\u00e3os\u201d Ferreira dizem na m\u00fasica muito do que eu gostaria de dizer no cinema e nem sempre consigo. Ouvindo-os fa\u00e7o com eles uma fabulosa viagem de volta \u00e0s minhas pr\u00f3prias ra\u00edzes, nas asas de um doce sentimento\u201d. E, realmente,\u00a0<em> Conterr\u00e2neos<\/em> \u00e9 uma das mais belas can\u00e7\u00f5es sobre a migra\u00e7\u00e3o nordestina. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa, pois inscreve Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio em uma tradi\u00e7\u00e3o que tem Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Dominguinhos e Jo\u00e3o do Vale.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco A amizade cultural entre Clim\u00e9rio e Vladimir Carvalho suscitou uma pequena obra-prima: a can\u00e7\u00e3o Conterr\u00e2neos, com letra de Cli e m\u00fasica de Clodo e Cl\u00e9sio. Quando era aluno da UnB, Clim\u00e9rio topou com Vladimir, nos corredores do Minhoc\u00e3o, quando o cineasta paraibano filmava o document\u00e1rio Vestibular 70, premiado no festival de curtas promovido pelo Jornal do Brasil. 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