{"id":3296,"date":"2025-06-15T19:19:55","date_gmt":"2025-06-15T22:19:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3296"},"modified":"2025-06-15T19:19:55","modified_gmt":"2025-06-15T22:19:55","slug":"mae-coragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/mae-coragem\/","title":{"rendered":"M\u00e3e coragem"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Como se sabe, eu sou um usu\u00e1rio; n\u00e3o disso que voc\u00eas est\u00e3o pensando, mas do transporte p\u00fablico do DF. Todos os dias, tomava \u00f4nibus bem cedo. Quando a alvorada brasiliense despontava no horizonte, me deparava com uma senhora vendendo caf\u00e9 e bolo na parada. No in\u00edcio, ela passou desapercebida, como se fizesse parte da paisagem urbana.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">No entanto, um detalhe despertou a minha aten\u00e7\u00e3o. Ela montou uma extens\u00e3o da mesa onde servia lanches para que as duas filhas, uma talvez de 6 anos e outra de 8, fizessem os deveres da escola. As meninas garatujavam nos cadernos sob a vista exigente da senhora. A m\u00e3e era uma mulher do povo, na faixa dos 40 anos, mesti\u00e7a, austera, empertigada, elegante, altiva, mas serena.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Estava vestida de maneira impec\u00e1vel, imaculadamente branca, portava luvas e turbante para prender os cabelos. Imaginei que teria feito cursos de forma\u00e7\u00e3o profissional, pois, apesar de vender quitutes em uma banca improvisada, fazia tudo com extremo esmero. Servia caf\u00e9 e bolo para os clientes com presteza, sem jogar conversa fora.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Era concentrada, n\u00e3o desperdi\u00e7ava palavras ou gestos. Ficava atenta, simultaneamente, ao movimento dos chegantes e ao das filhas que escreviam em cadernos na mesa ao lado. Fiscalizava cada detalhes com um olhar severo. De vez em quando, dava alguma bronca concisa nas meninas, conclamando-as \u00e0 seriedade nas tarefas escolares. Encarnava autoridade e dignidade em cada gesto.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Acompanhei a cena durante alguns dias. Tive o impulso de conversar com ela e manifestar a minha admira\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, considerei despropositada a inten\u00e7\u00e3o e permaneci em meu canto. Mas, de repente, aquela senhora sumiu e outra ocupou a parada.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Prezada senhora, n\u00e3o sei o seu nome, nada conhe\u00e7o de sua vida, onde morava. No entanto, gostaria de lhe dizer algumas palavras. Fiquei profundamente comovido com a sua iniciativa de conceber uma extens\u00e3o da mesa para que as suas filhas estudassem em frente \u00e0 parada de \u00f4nibus.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A senhora tem inteira raz\u00e3o na atitude; s\u00f3 a educa\u00e7\u00e3o pode superar o estado de mis\u00e9ria econ\u00f4mica, pol\u00edtica, cultural, moral e espiritual em que estamos mergulhados. Apenas os governantes n\u00e3o sabem ou fingem n\u00e3o saber dessa obviedade. A sua bravura \u00e9 admir\u00e1vel. Para mim, a senhora \u00e9 muito mais valente do que uma lutadora de MMA. Mata um le\u00e3o por dia, enquanto muitas t\u00eam tudo e ainda reclamam da vida.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A sua tenacidade \u00e9 capaz de mover montanhas de empecilhos. Talvez n\u00e3o saiba, mas a senhora \u00e9 uma pessoa verdadeiramente nobre, segundo a insuspeita escala do padre Antonio Vieira, para quem a leg\u00edtima fidalguia s\u00e3o as nossas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A senhora tem raz\u00e3o em ser brava, uma bondade boazinha n\u00e3o sobrevive nesse mundo c\u00e3o. Nunca mais a vi. A senhora esvaiu-se no vazio de Bras\u00edlia. No entanto, jamais a esqueci. A bondade me estra\u00e7alha.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Como se sabe, eu sou um usu\u00e1rio; n\u00e3o disso que voc\u00eas est\u00e3o pensando, mas do transporte p\u00fablico do DF. Todos os dias, tomava \u00f4nibus bem cedo. Quando a alvorada brasiliense despontava no horizonte, me deparava com uma senhora vendendo caf\u00e9 e bolo na parada. No in\u00edcio, ela passou desapercebida, como se fizesse parte da paisagem urbana. 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