{"id":3277,"date":"2025-05-23T15:36:24","date_gmt":"2025-05-23T18:36:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3277"},"modified":"2025-05-23T15:36:24","modified_gmt":"2025-05-23T18:36:24","slug":"maria-lucia-godoy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/maria-lucia-godoy\/","title":{"rendered":"Maria L\u00facia Godoy"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\nUma das interpreta\u00e7\u00f5es que me provoca mais enlevo \u00e9 a de Maria L\u00facia Godoy para a <em>Bachiana n\u00famero 5<\/em>, de Villa-Lobos. Eu sinto como se fosse uma das express\u00f5es mais sublimes da brasilidade, t\u00e3o leg\u00edtima, inclusive, porque nasceu da m\u00fasica de Bach. As minhas evoca\u00e7\u00f5es de Maria L\u00facia Godoy est\u00e3o ligadas a Glauber Rocha.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A primeira vez que eu a ouvi foi em cena antol\u00f3gica de <em>Deus e o Diabo na Terra do Sol<\/em>, mixada como trilha sonora. Corisco (Othon Bastos) e Maria, a mulher do vaqueiro (Yon\u00e1 Magalh\u00e3es) se encontram no meio da caatinga. Glauber pediu que a c\u00e2mera girasse em torno dos dois em um beijo selvagem sob o fundo da Bachiana n\u00famero 5 de Villa-Lobos com a voz de Maria L\u00facia Godoy soando como uma m\u00fasica dos anjos no meio do descampado in\u00f3spito.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Em entrevista ao <strong>Correio<\/strong>, o cineasta Walter Lima Jr. contou que quem levou Villa-Lobos para <em>Deus e o Diabo na Terra do Sol<\/em> foi ele. Glauber queria Brahms. Quando Walter leu o roteiro, indo para Salvador, ficou chocado e disse: &#8220;Glauber, colocar Brahms no meio desta caatinga aqui? O que tem a ver?&#8221; O acervo de Villa-Lobos foi montado na Europa. Com Paulo Gil Soares, Walter foi at\u00e9 a Alian\u00e7a Francesa, em Salvador, roubou os discos e deu para o Glauber ouvir. O cineasta baiano ficou em \u00eaxtase.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mais recentemente, em 1981, no enterro de Glauber, Maria L\u00facia Godoy entoa novamente de maneira sublime a <em>Bachiana n\u00famero 5<\/em>, a fot\u00f3grafa Paula Gaitan, escorre uma chuva de p\u00e9talas sobre o caix\u00e3o do cineasta. A voz de Maria L\u00facia ganhou um acento tr\u00e1gico pelas circunst\u00e2ncias, muito diferente do tom epif\u00e2nico do beijo de Othon Basttos (Corisco) e Maria (Yon\u00e1 Magalh\u00e3es).<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A outra refer\u00eancia liga Maria L\u00facia Godoy a Bras\u00edlia dos tempos pioneiros da constru\u00e7\u00e3o. Todo final do dia, JK encerrava o expediente no Rio e vinha para Bras\u00edlia de avi\u00e3o fiscalizar e dar est\u00edmulo aos engenheiros e oper\u00e1rios que erguiam a capital modernista. O ritmo Bras\u00edlia inaugurado por JK conseguia aliar, de maneira desconcertante, trabalho e divers\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O exemplo vinha do chefe, nascido e criado em Diamantina, cidade de Minas c\u00e9lebre pelo esp\u00edrito rom\u00e2ntico. Como bom diamantinense, ele era um p\u00e9 de valsa incorrig\u00edvel, apreciava fazer serenata, tocar viol\u00e3o e ver a Lua. Quando passou a frequentar Bras\u00edlia para acompanhar as obras de constru\u00e7\u00e3o, o gosto pela m\u00fasica se irradiou por toda a cidade. E come\u00e7ou pelo Catetinho, com as serestas marcadas para as reuni\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Os saraus aconteceram de maneira espont\u00e2nea, com a participa\u00e7\u00e3o dos amigos de JK: Dilermando Reis, C\u00e9sar Prates, Silvio Caldas, Altemar Dutra, Gl\u00f3ria Maria. Com menos frequ\u00eancia, apareciam Elizete Cardoso, Francisco Petr\u00f4nio e Maria L\u00facia Godoy, que vinha com integrantes de um madrigal de Belo Horizonte.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mas ela independe dessas rela\u00e7\u00f5es com o cinema ou com os tempos pioneiros da capital. Maria L\u00facia Godoy cantou do repert\u00f3rio erudito at\u00e9 as serestas. Ningu\u00e9m interpretou como ela a m\u00fasica de Villa-Lobos. \u00c9 algo de uma pung\u00eancia de nos fazer chorar as tais l\u00e1grimas de esguicho de que falava Nelson Rodrigues.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Com a sua morte, nesta semana, aos 100 anos, fiquei envergonhado de s\u00f3 conhec\u00ea-las por essas pequenas, mas tocantes e inesquec\u00edveis refer\u00eancias. No entanto, ainda \u00e9 tempo de ouvir os 16 discos que gravou essa mineira de Mesquita, evocada nesses versos de Carlos Drummond de Andrade. &#8221; Lembrar as serras de Minas,\/Demolidas, como d\u00f3i!\/Mas me consolo se escuto\/Maria L\u00facia Godoy.\/Foi-se o ferro de Itabira?\/Ouro n\u00e3o se destr\u00f3i!\/Est\u00e1 na voz da mineira\/ Maria L\u00facia Godoy.\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Uma das interpreta\u00e7\u00f5es que me provoca mais enlevo \u00e9 a de Maria L\u00facia Godoy para a Bachiana n\u00famero 5, de Villa-Lobos. 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