{"id":326,"date":"2017-08-04T21:10:51","date_gmt":"2017-08-05T00:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=326"},"modified":"2017-08-04T21:12:07","modified_gmt":"2017-08-05T00:12:07","slug":"perfume-imprevisto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/perfume-imprevisto\/","title":{"rendered":"Perfume imprevisto"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_327\" aria-describedby=\"caption-attachment-327\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-327\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836.jpg\" alt=\"Cr\u00e9dito: EDUSP\/Reprodu\u00e7\u00e3o. Clarice Lispector, imagem do livro Clarice: Uma vida que se conta; de N\u00e1dia Battella Gotlib.\" width=\"800\" height=\"1171\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-205x300.jpg 205w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-768x1124.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-700x1024.jpg 700w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-550x805.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170836-230x337.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-327\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: EDUSP\/Reprodu\u00e7\u00e3o. Clarice Lispector, imagem do livro Clarice: Uma vida que se conta; de N\u00e1dia Battella Gotlib.<\/figcaption><\/figure>\n<h4>Severino Francisco<\/h4>\n<p>Clarice Lispector era armada de radares poderosos de intui\u00e7\u00e3o. Em 11 de dezembro de 1970, ela conheceu a escritora Olga Borelli, de quem se tornaria amiga para sempre. O encontro est\u00e1 registrado na biografia <i>Clarice \u2013 Uma vida que se conta <\/i>(Edusp), de N\u00e1dia Battella Gotlib. Mas, um detalhe chama a aten\u00e7\u00e3o: na terceira vez em que elas se viram, Clarice convidou Olga para uma visita a seu apartamento. L\u00e1, Olga se surpreendeu: Clarice havia escrito uma carta para propor a amizade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E exigiu que fosse lida ali mesmo: \u201cN\u00e3o era uma amizade, era uma proposta de vida\u201d, comenta Olga em depoimento para o livro: \u201cDe certas pessoas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aproximar-se de uma forma superficial, h\u00e1 que submergir profundamente e isso nos aconteceu: me submergi em Clarice e Clarice se submergiu em mim\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na carta, a argumenta\u00e7\u00e3o de Clarice assustaria a muitas pessoas. Ela declara a certeza fulminante de ter descoberto uma amiga. No entanto, pondera com uma franqueza de estarrecer: \u201c Mas voc\u00ea sai perdendo. Sou uma pessoa indecisa, insegura, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade, n\u00e3o sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais grav\u00edssimos que depois lhe contarei\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_328\" aria-describedby=\"caption-attachment-328\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-328\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838.jpg\" alt=\"Cr\u00e9dito: EDUSP\/Reprodu\u00e7\u00e3o. Retrato de Clarice Lispector em Cabo Frio em 1972 feito por Carlos Scliar, imagem do livro Clarice: Uma vida que se conta; de N\u00e1dia Battella Gotlib.\" width=\"800\" height=\"1083\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-222x300.jpg 222w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-768x1040.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-756x1024.jpg 756w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-550x745.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2017\/08\/CBNFOT040820170838-230x311.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-328\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: EDUSP\/Reprodu\u00e7\u00e3o. Retrato de Clarice Lispector em Cabo Frio em 1972 feito por Carlos Scliar, imagem do livro Clarice: Uma vida que se conta; de N\u00e1dia Battella Gotlib.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ap\u00f3s enumerar, minuciosamente, os pr\u00f3prios defeitos, sem se jactar de nenhuma qualidade, Clarice indaga: \u201cVoc\u00ea me quer como amiga mesmo assim? Se quer, n\u00e3o me diga que n\u00e3o lhe avisei. N\u00e3o tenho qualidades, s\u00f3 tenho fragilidades. Mas \u00e0s vezes (\u2026) tenho esperan\u00e7a. A passagem da vida para a morte me assusta: \u00e9 igual como passar do \u00f3dio, que tem um objetivo e \u00e9 limitado, para o amor que \u00e9 ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que voc\u00ea esteja perto. Voc\u00ea me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Clarice conheceu Olga em uma quinta-feira, dia 10, data do anivers\u00e1rio, e considerou esse o grande presente que recebeu, numa hora dif\u00edcil, de grande solid\u00e3o: \u201cAcontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Ent\u00e3o vi um an\u00fancio de uma \u00e1gua de col\u00f4nia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume \u00e9 barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom tamb\u00e9m acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me d\u00e1 sorte. Voc\u00ea, por exemplo, n\u00e3o era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de aut\u00f3grafos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Clarice morreu em 9 de dezembro de 1977, numa sexta-feira. As palavras da carta se confirmaram de maneira prof\u00e9tica. Expirou amparada por Olga Borelly. Para al\u00e9m das circunst\u00e2ncias, a nossa vida tem um enredo \u00edntimo, um enredo espiritual, que se cumpre inapelavelmente, de maneira tortuosa ou caprichosa. \u00c9 isso mesmo, com ou sem perfume Imprevisto, o inesperado bom tamb\u00e9m pode acontecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clarice Lispector era armada de radares poderosos de intui\u00e7\u00e3o. Em 11 de dezembro de 1970, ela conheceu a escritora Olga Borelli, de quem se tornaria amiga para sempre. O encontro est\u00e1 registrado na biografia Clarice \u2013 Uma vida que se conta (Edusp), de N\u00e1dia Battella Gotlib. Mas, um detalhe chama a aten\u00e7\u00e3o: na terceira vez em que elas se viram, Clarice convidou Olga para uma visita a seu apartamento. 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