{"id":3241,"date":"2025-04-29T12:32:46","date_gmt":"2025-04-29T15:32:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3241"},"modified":"2025-04-29T13:30:46","modified_gmt":"2025-04-29T16:30:46","slug":"sangrando-a-seta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/sangrando-a-seta\/","title":{"rendered":"Sangrando a seta"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>Gosto conversar com os motoristas de t\u00e1xi, eles circulam muito, captam informa\u00e7\u00f5es privilegiadas, sabem o que acontece na cidade. Com sorte, pesco algum assunto para a cr\u00f4nica. Prefiro mais ouvir do que falar. Tento apenas suscitar as hist\u00f3rias. No entanto, um dos motoristas n\u00e3o escondeu o elogio: &#8220;L\u00e1, no ponto, a turma diz que com voc\u00ea a prosa \u00e9 boa&#8221;.<\/p>\n<p>Certa vez, tomei um uber, comecei a conversar com a motorista. Ela contou que recebeu uma corrida para Taguatinga, mas, na verdade, era para Sol Nascente. A mo\u00e7a que pediu o carro ficou com medo de a motorista n\u00e3o atender quanto soubesse o destino.<\/p>\n<p>Embrenharam por vielas escuras at\u00e9 a passageira desembarcar. A noite havia ca\u00eddo sobre a cidade. L\u00e1, a motorista teve a n\u00edtida impress\u00e3o de estar em uma favela do Rio de Janeiro. Rolava um funk fren\u00e9tico, homens passeavam nas ruas armados com os rev\u00f3lveres na cintura, os becos se multiplicavam.<\/p>\n<p>A motorista se perdeu no labirinto de ruas esburacadas e teve de pedir ajuda a um colega para sair de l\u00e1. Tomou uma tremenda bronca. Perguntei a ela qual era o esquema de seguran\u00e7a que dispunha e ela respondeu: &#8220;\u00c9 Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Na semana passada, tomei um t\u00e1xi rumo ao Jardim Bot\u00e2nico, mas\u00a0 a prosa nos levou\u00a0 para o Rio de Janeiro. O motorista falou que, se tivesse oportunidade, gostaria de conhecer, mas sem esconder certo receio por causa da seguran\u00e7a. Contei que eu tinha v\u00e1rios amigos por l\u00e1, mas tamb\u00e9m evitava e argumentava: &#8220;S\u00f3 vou ao Rio com colete \u00e0 prova de bala e se voc\u00eas forem me buscar no aeroporto&#8221;.<\/p>\n<p>Quando esteve em Bras\u00edlia para uma palestra no CCBB, o poeta Armando Freitas Filho, que nos deixou no ano passado,\u00a0 ao ver que eu adentrava o audit\u00f3rio, comentou: &#8220;Sou carioca da gema, assim como existe brasiliense que s\u00f3 vai ao Rio com colete \u00e0 prova de bala e se forem busc\u00e1-lo no aeroporto&#8221;.<br \/>\nEu tratava Armando na condi\u00e7\u00e3o de nosso correspondente de guerra no Rio de Janeiro: &#8220;Cada dia \u00e9 uma bala de roleta russa&#8221;, escreveu em um poema. Armando considerava o Rio uma cidade-assaltante, onde a viol\u00eancia poderia irromper da maneira mais abrupta e imprevista, enquanto se caminhava pela rua ou mesmo\u00a0 repousava em casa, irrompendo pela janela.<\/p>\n<p>A certa altura do trajeto, o motorista explicou que daria seta para a esquerda, pois precisaria fazer o bal\u00e3o e pegar a via que nos levaria a nosso destino. Armando tamb\u00e9m gostava muito de puxar papo com os motoristas de t\u00e1xi e extraiu deles a frase &#8220;sangrando a seta do lado esquerdo&#8221;, utilizada em um poema que nos joga no ambiente dram\u00e1tico do Rio de Janeiro.<br \/>\nMeu pai era repentista, tenho mem\u00f3ria de cantor de embolada, recordei o poema e, em um \u00e1timo,\u00a0 tive a aud\u00e1cia de recit\u00e1-lo no calor da hora at\u00e9 para avaliar a capacidade de recep\u00e7\u00e3o: &#8220;furo o sinal vermelho\/que n\u00e3o me estanca\/sangrando a seta do lado esquerdo\/me enfio por agulhas\/gargalos\/gargantas\/o mar est\u00e1 \u00e0 margem\/tem pressa mas n\u00e3o sai de lugar\/engarrafado\/enquanto rodo o Rio todo\/o corpo n\u00e3o tem f\u00e9rias\/passa do ponto\/sempre ao alcance de balas al\u00e9m&#8221;.<br \/>\nO motorista me levou at\u00e9 o meu destino e disse que, a partir de agora, adotaria a g\u00edria carioca, sempre que fosse dar a seta: &#8220;Agora, vou sangrar a seta do lado esquerdo&#8221;. Armando, que gostava de conversar com os taxistas e adorava jornal impresso, ficaria feliz se soubesse da hist\u00f3ria e, mais, se lesse a hist\u00f3ria em um alto de p\u00e1gina. E reivindicaria bravo: &#8220;N\u00e3o esquece de me mandar o jornal!&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco Gosto conversar com os motoristas de t\u00e1xi, eles circulam muito, captam informa\u00e7\u00f5es privilegiadas, sabem o que acontece na cidade. Com sorte, pesco algum assunto para a cr\u00f4nica. Prefiro mais ouvir do que falar. Tento apenas suscitar as hist\u00f3rias. No entanto, um dos motoristas n\u00e3o escondeu o elogio: &#8220;L\u00e1, no ponto, a turma diz que com voc\u00ea a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":73,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-3241","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/users\/73"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3241"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3241\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3248,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3241\/revisions\/3248"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}