{"id":3216,"date":"2025-03-24T14:05:06","date_gmt":"2025-03-24T17:05:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3216"},"modified":"2025-03-24T14:05:06","modified_gmt":"2025-03-24T17:05:06","slug":"forro-e-destino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/forro-e-destino\/","title":{"rendered":"Forr\u00f3 \u00e9 destino"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Ao comprei um novo carro, uma das exig\u00eancias era que ele tivesse aparelho para tocar CD. Reconhe\u00e7o as inova\u00e7\u00f5es da tecnologia, mas gosto da materialidade do CD e do livro f\u00edsico. Eu acho muito bom ouvir m\u00fasica no carro que, em Bras\u00edlia, sempre tem o seu momento de espa\u00e7onave, segundo o poeta Francisco Alvim.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">H\u00e1 algumas semanas, fiquei com vontade de escutar uma antologia de Elba Ramalho. Fui a uma rara discoteca, mas n\u00e3o encontrei. Ent\u00e3o, levei um mais recente. Logo de cara, gostei muito da faixa que abre o disco, Olhando o cora\u00e7\u00e3o, que empurra a gente com o som da sanfona.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Era um forr\u00f3 cl\u00e1ssico, mas com uma poesia mais requintada, que me chamou a aten\u00e7\u00e3o: \u201cO meu andar pelo mundo\/\u00c9 um andar bem profundo\/vai onde tem um forr\u00f3\/uma alegria uma dan\u00e7a\/meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se cansa\/de uma festa encontrar\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Elba Ramalho, a um s\u00f3 tempo, moderniza e imprime uma marca ancestral nordestina em suas interpreta\u00e7\u00f5es. Mas eis que ao folhear o encarte me deparo com a surpresa: o autor da linda can\u00e7\u00e3o \u00e9 brasiliense, \u00e9 Clim\u00e9rio Ferreira em parceria com Dominguinhos. O interessante na letra de Clim\u00e9rio \u00e9 que o forr\u00f3 \u00e9 apresentado quase como uma utopia de felicidade e como um destino brasileiro ou nordestino. Sem premeditar, Clim\u00e9rio fez uma can\u00e7\u00e3o para celebrar o reconhecimento do forr\u00f3 como patrim\u00f4nio cultural brasileiro pelo Iphan.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Ele \u00e9 um poeta que tira de letra. E, na voz de Elba, as suas palavras ganham sopro, relevo e dramaticidade: \u201cMas por enquanto nem tento\/apreciar as estrelas\/olhar pro c\u00e9u \u00e9 v\u00ea-las\/piscarem luzes no ch\u00e3o\/eu c\u00e1 por mim me contento\/e sem querer ofend\u00ea-las\/Em vez de olhar estrelas\/olho pro meu cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Os irm\u00e3os piauienses Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio sempre me pareceram \u00edndios yanomamis. Cl\u00e9sio e Clodo j\u00e1 nos deixaram, mas legaram tamb\u00e9m lindas can\u00e7\u00f5es. Eles n\u00e3o s\u00e3o de briga; s\u00e3o de festa. N\u00e3o \u00e9 por acaso que quando se encontraram com Nara Le\u00e3o se tornaram grandes amigos. A ponto de Nara ter composto a \u00fanica can\u00e7\u00e3o em homenagem aos amigos piauienses.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Clim\u00e9rio chegou a Bras\u00edlia em 1962, aos 18 anos, para morar na Cidade Livre, futuro N\u00facleo Bandeirante, na 4a Avenida, uma esp\u00e9cie de cidade cenogr\u00e1fica de filmes de faroeste, erguida a toque de caixa para abrigar o com\u00e9rcio, os hot\u00e9is e outros servi\u00e7os. Veio com uma carga muito forte de cultura nordestina. Em Teresina, assistiu a autos populares, festas de s\u00e3o-jo\u00e3o, forr\u00f3s, shows de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Levou um susto ao ver Gonzag\u00e3o metido numa roupa encourada de cangaceiro misturada com vaqueiro, em um show promovido pelo Col\u00edrio Moura Brasil. Ficou maravilhado com a indument\u00e1ria, a sanfona, a performance teatral e o sotaque. Pela idade e pela viv\u00eancia, tinha tudo para ser roqueiro, acompanhava o movimento, ouvia os discos, mas o rock n\u00e3o pegou em sua pele como ocorreu com a maioria das pessoas de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">A sanfona lhe diz muita coisa, o rock n\u00e3o. Ele n\u00e3o se jacta de nada, considera at\u00e9 um defeito n\u00e3o ter sido contaminado pela energia do rock. Em Bras\u00edlia, reencontrou um peda\u00e7o desgarrado do nordeste e um espa\u00e7o para ser piauiense\/brasiliense. Tornou-se professor da Universidade de Bras\u00edlia, fez doutorado no Canad\u00e1, mas n\u00e3o perde o despojamento de \u00edndio piauiense.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Olhando o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das 60 m\u00fasicas que os irm\u00e3os piauienses compuseram com Dominguinhos, a quem conheceram em Bras\u00edlia, em 1979. \u00c9 um hino ao forr\u00f3 e aos poderes de imanta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica: \u201cO meu andar pela vida\/\u00e9 sem controle errante\/\u00e9 como um sonho de amante\/que acredita no amor\/e nessa trilha perdida\/no rumo desconhecido\/o meu andar atrevido\/cura a ferida e a dor\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Ao comprei um novo carro, uma das exig\u00eancias era que ele tivesse aparelho para tocar CD. Reconhe\u00e7o as inova\u00e7\u00f5es da tecnologia, mas gosto da materialidade do CD e do livro f\u00edsico. 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