{"id":3167,"date":"2025-02-17T05:53:03","date_gmt":"2025-02-17T08:53:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3167"},"modified":"2025-02-17T05:53:03","modified_gmt":"2025-02-17T08:53:03","slug":"caca-diegues-e-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/caca-diegues-e-brasilia\/","title":{"rendered":"Cac\u00e1 Diegues e Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">Cac\u00e1, que nos deixou nesta semana, desvelou a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e estrat\u00e9gica do Cinema Novo com a Bras\u00edlia ut\u00f3pica. N\u00e3o \u00e9 um depoimento isolado. Os l\u00edderes do movimento tiveram conex\u00f5es fortes com a cidade. Com cinco anos de exist\u00eancia, Bras\u00edlia se dava ao luxo de ter um curso de cinema, criado por Paulo Em\u00edlio Sales Gomes e por Nelson Pereira dos Santos.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">A nascente do Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro foi a Semana do Cinema Brasileiro, atividade de extens\u00e3o do curso de cinema da UnB, em que Paulo Em\u00edlio esgrimia a erudi\u00e7\u00e3o e o brilho nas apresenta\u00e7\u00f5es dos filmes na defesa cerrada de um cinema nacional moderno, que apenas ensaiava os primeiros passos. O Festival de Bras\u00edlia impulsionou as carreiras de Menino de engenho, de Walter Lima Jr, A falecida, de Leon Hizschman, e Opini\u00e3o p\u00fablica, de Arnaldo Jabor. A proje\u00e7\u00e3o nacional do Cinema Novo come\u00e7ou em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Glauber Rocha registrou o impacto da cria\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia sobre o Cinema Novo. Os economistas diziam que Bras\u00edlia seria o colapso econ\u00f4mico do Brasil. E, de fato, a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda provocou uma crise de longo alcance. No entanto, para Glauber, Bras\u00edlia foi uma revolu\u00e7\u00e3o cultural do Brasil; com sua constru\u00e7\u00e3o, o Brasil p\u00f4de se livrar do complexo de vira-lata diante do colonialismo. O despertar pol\u00edtico e a consci\u00eancia do subdesenvolvimento datam da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. E isso estimulou o Cinema Novo a inventar uma linguagem moderna para que o Brasil olhasse para as suas mazelas com toda a coragem.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Cac\u00e1 pertencia a uma gera\u00e7\u00e3o que entendia que o Brasil seria muito importante para a civiliza\u00e7\u00e3o humana. O Brasil entraria com um elemento de humaniza\u00e7\u00e3o, disse Cac\u00e1 em entrevista a Ricardo Dahen, publicada no Correio: &#8220;O que simbolizava tudo isso, para a gente, era Bras\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A nova capital modernista estava em constru\u00e7\u00e3o. Em 1959, Cac\u00e1 desembarcou com o pai, o antrop\u00f3logo Manuel Diegues, no Cerrado. Juscelino apontava. Aqui \u00e9 o Pal\u00e1cio da Alvorada. Ali, \u00e9 o Congresso Nacional. Com olhar vision\u00e1rio, vislumbrava a cidade inteira funcionando, mas n\u00e3o havia nada. \u00c9 como se ele presidisse uma cidade-fantasma. Mas Bras\u00edlia foi um s\u00edmbolo, uma s\u00edntese da cultura que a gera\u00e7\u00e3o de Cac\u00e1 preconizava.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A conex\u00e3o n\u00e3o foi apenas simb\u00f3lica. Gra\u00e7as ao apoio de Ferreira Gullar, ent\u00e3o diretor da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do DF, no in\u00edcio de Bras\u00edlia, na d\u00e9cada de 1960, Cac\u00e1 p\u00f4de rodar o document\u00e1rio Tr\u00eas vezes favela, um dos marcos do Cinema Novo, que retirou as filmagens dos est\u00fadios e foi para a rua captar a realidade brasileira com uma c\u00e2mera nervosa na m\u00e3o e muitas ideias na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A transforma\u00e7\u00e3o com que essa gera\u00e7\u00e3o sonhava n\u00e3o aconteceu. Como disse Glauber: &#8220;Bras\u00edlia \u00e9 uma met\u00e1fora que n\u00e3o se realiza na hist\u00f3ria, mas preenche um sentimento de grandeza&#8221;. \u00c9 importante evocar a Bras\u00edlia ut\u00f3pica no momento em que ela se tornou uma cidade dist\u00f3pica. O Cinema Novo deixou um legado: o cinema brasileiro, que, em alguns momentos, agoniza, mas n\u00e3o morre.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Todavia, no momento, ganhou destaque mundial com a presen\u00e7a de Ainda estou aqui nos festivais e \u00e9, a um s\u00f3 tempo, um filme de arte, um filme pol\u00edtico e um filme de mercado. \u00c9 a prova mais cabal de que, apesar de todos os atropelos da hist\u00f3ria, esse legado da gera\u00e7\u00e3o de Cac\u00e1 Diegues permanece vivo. \u00c9 muito bom quando o Brasil \u00e9 Brasil.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Cac\u00e1, que nos deixou nesta semana, desvelou a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e estrat\u00e9gica do Cinema Novo com a Bras\u00edlia ut\u00f3pica. N\u00e3o \u00e9 um depoimento isolado. Os l\u00edderes do movimento tiveram conex\u00f5es fortes com a cidade. 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