{"id":3151,"date":"2025-01-29T09:24:48","date_gmt":"2025-01-29T12:24:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3151"},"modified":"2025-01-29T09:24:48","modified_gmt":"2025-01-29T12:24:48","slug":"poeta-do-cotidiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/poeta-do-cotidiano\/","title":{"rendered":"Poeta do cotidiano"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">Acompanhei o trabalho e as a\u00e7\u00f5es culturais de Vicente S\u00e1 de longe. Eles nos deixou na sexta-feira, aos 67 anos. Publicou nove livros de poesia, dois romances, um de cr\u00f4nica e uma obra dirigida ao p\u00fablico infantil.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Confesso que um dos tra\u00e7os que mais me impressionava nele era a capacidade de conquistar amigos, uma legi\u00e3o de amigos. De todos os lados, eles dizem a mesma coisa: era uma pessoa criativa, afetuosa, elegante, bem-humorada, gentil e solid\u00e1ria. E posso dizer que, embora a dist\u00e2ncia, fui brindado com um desses gestos de gentileza.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Vestia a aura do poeta rom\u00e2ntico, o bo\u00eamio da Lua, o fil\u00f3sofo da Asa Norte, mas com o toque de ironia e autoironia modernas. Falava, fazia e vivia a poesia em todos os instantes. No autorretrato po\u00e9tico Assim sou, ele se define assim: &#8220;Ningu\u00e9m sabe o que eu passo\/Nem se encontro em meus enganos\/sou assim\/Pernas e bra\u00e7os\/Apenas um\/Talvez humano\/Ningu\u00e9m tem o que me falta\/Nem entende o que eu digo\/Avoador repentino\/Sou assim\/quem sabe as asas que persigo&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Vicente nasceu em Pedreiras, a mesma cidade de Jo\u00e3o do Vale, e chegou a Bras\u00edlia com 12 anos. Faz parte de uma gera\u00e7\u00e3o que cresceu na d\u00e9cada de 1980, sob os ventos da redemocratiza\u00e7\u00e3o e os fantasmas da ditadura. Abra\u00e7ou e foi abra\u00e7ado por Bras\u00edlia. Depois de d\u00e9cadas de cerceamento imposto pelo regime de exce\u00e7\u00e3o instalado a partir de 1964, na d\u00e9cada de 1980 a cidade seria efervescente, audaciosa, prazerosa, solar e feliz. Era um tempo de grandes esperan\u00e7as.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Aquela gera\u00e7\u00e3o ocupou a cidade com m\u00fasica, poesia, teatro, artes c\u00eanicas e artes pl\u00e1sticas. A plataforma de lan\u00e7amento eram Os Concertos Cabe\u00e7as, quando, pela primeira vez, os gramados das superquadras e, mais tarde, o Parque da Cidade, foram tomados pela arte. Vicente emergiu do movimento da poesia marginal e escreveu muitos poemas r\u00e1pidos, em que a verve de humor se funde \u00e0 veia l\u00edrica: &#8220;Sorria\/Voc\u00ea est\u00e1 sendo\/Transformado em poesia&#8221;, escreve em C\u00e2mera do poeta.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Conhecia as qualidades e os defeitos da cidade, com a qual interagiu, intensamente. Estava sempre com o radar ligado para a poesia. Arrancou poemas delicados diretamente das ruas: &#8220;O nome de meu pai \u00e9 Ti\u00e3o\/Mas eu chamo mesmo \u00e9 de pai\/Paizinho o meu nome \u00e9 crian\u00e7a\/E a minha brincadeira \u00e9 crescer\/Ser gente grande\/Para poder andar por a\u00ed\/A minha m\u00e3e sumiu no mundo\/Um dia, de tarde\/O nome dela \u00e9 aus\u00eancia,\/Mas eu chamo mesmo \u00e9 de saudade.&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O Fil\u00f3sofo da Asa Norte, personagem das cr\u00f4nicas, era uma esp\u00e9cie de alterego de Vicente, introduzindo o tempo da poesia na rotina vertiginosa do cotidiano: \u201cDe outra feita, me explicou que n\u00e3o se deve abordar as pessoas para conversar quando elas est\u00e3o caminhando. Elas acham que est\u00e3o perdendo tempo. \u2018Como se o tempo pudesse ser de algu\u00e9m e que este algu\u00e9m o pudesse perder\u2019, afirmava (o Fil\u00f3sofo), olhando-me nos olhos.&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Vicente pertence a uma gera\u00e7\u00e3o que ensinou a viver e a amar Bras\u00edlia. A sua despedida foi um ritual de celebra\u00e7\u00e3o das coisas que amava: a amizade, o afeto, a m\u00fasica, os rituais e a poesia. E fecho com trechos do texto de Maria Maia em homenagem a Vicente: &#8220;O Fil\u00f3sofo da Asa Norte se foi\/Deixou um vazio nos domingos quentes\/Se foi e nos deixou \u00f3rf\u00e3os, sofrentes\/Orf\u00e3os de poemas, cr\u00f4nicas, romances, inoc\u00eancias\/\u00f3rf\u00e3os do bom humor e da fina ironia\/da sua descarada intelig\u00eancia&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Acompanhei o trabalho e as a\u00e7\u00f5es culturais de Vicente S\u00e1 de longe. Eles nos deixou na sexta-feira, aos 67 anos. 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