{"id":3149,"date":"2025-01-27T13:54:36","date_gmt":"2025-01-27T16:54:36","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3149"},"modified":"2025-01-27T13:54:36","modified_gmt":"2025-01-27T16:54:36","slug":"museu-do-inconsciente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/museu-do-inconsciente\/","title":{"rendered":"Museu do inconsciente"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">Conhecia a pesquisa e o acervo de livros e filmes do Museu do Inconsciente, mas ver as obras dos pacientes-artistas sem intermedi\u00e1rios \u00e9 ainda mais impactante. Elas est\u00e3o exposta em mostra magn\u00edfica no CCBB. A pintura de Emydio Barros corresponde, efetivamente, ao que escreveu Ferreira Gullar: &#8220;Emydio \u00e9 um dos g\u00eanios da arte brasileira. N\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel a nenhum outro artista, n\u00e3o \u00e9 pior nem melhor. Fulgura solitariamente&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Ao trocar os eletrochoques pelos pinc\u00e9is, a insulina pela modelagem, a viol\u00eancia pelos animais-terapeutas, as verdades esclerosadas da psiquiatria pela pesquisa, Nise realizou uma pequena revolu\u00e7\u00e3o no tratamento da esquizofrenia. Em tudo, essa mulher alagoana de poderosos radares de sensibilidade foi guiada pelo afeto.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A rebeli\u00e3o contra a psiquiatria come\u00e7ou no dia em que ela ia aprender a aplicar choque el\u00e9trico com outro m\u00e9dico. S\u00f3 de assistir a convuls\u00e3o do paciente, sentiu horror e se recusou a apertar os bot\u00f5es. Estava comprada a briga contra a psiquiatria oficial.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Ela sempre enxergou pessoas onde os m\u00e9dicos viam pacientes. O \u00fanico espa\u00e7o que sobrou para Nise trabalhar foi o de Terap\u00eautica Ocupacional. Na \u00e9poca, era um local t\u00e3o desprestigiado que nenhum m\u00e9dico se dignava a aparecer por l\u00e1. O setor era administrado pelos serventes do hospital.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mas foi l\u00e1 que a doutora Nise ensaiou uma revolu\u00e7\u00e3o humanizadora nos m\u00e9todos da psiquiatria, muito antes da emerg\u00eancia do movimento da antipsiquiatria irromper na d\u00e9cada de 1960, sob o comando do italiano Franco Basaglia e do ingl\u00eas Ronald David Laing.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Esse trabalho convergiu para a cria\u00e7\u00e3o do Museu do Inconsciente, centro de estudos e pesquisas que se tornou refer\u00eancia internacional. Al\u00e9m do interesse cient\u00edfico, Nise revelou artistas muito talentosos: Emygdio de Barros, Rafael ou Fernando Diniz. Oct\u00e1vio, um um dos pacientes de Nise, disse: \u201cA esquizofrenia \u00e9 uma doen\u00e7a em que o cora\u00e7\u00e3o fica sofrendo mais do que os outros \u00f3rg\u00e3os. Ent\u00e3o ele fica maior e estoura.\u201d Muito pr\u00f3ximo do que escreveu o poeta russo Maiak\u00f3vski: \u201cComigo a anatomia enlouqueceu\/Eu sou todo cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Impossibilitados de se comunicarem com as palavras, os pacientes se expressaram com as imagens e com as modelagens. A doutora Nise interpretou esses sinais do inconsciente de maneira magistral em muitos livros e document\u00e1rios.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A exposi\u00e7\u00e3o \u00e9, a um s\u00f3 tempo, uma experi\u00eancia did\u00e1tica e sens\u00edvel, pois a arte dos pacientes est\u00e1 dividida em tr\u00eas segmentos: a abstra\u00e7\u00e3o, as mandalas e as imagens m\u00edticas. Em vez de falta de sentido, a doutora Nise mostra que a abstra\u00e7\u00e3o e as mandalas s\u00e3o formas da busca de serenidade e de cura. E as imagens m\u00edticas expressam dramas ps\u00edquicos vivenciados pelos pacientes:&#8221;N\u00e3o sou uma senhorinha filantr\u00f3pica, tenho curiosidade pelos abismos&#8221;, disse a doutora.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Para Nise, a rela\u00e7\u00e3o afetiva era tudo. Tive o privil\u00e9gio de entrevist\u00e1-la. Perguntei a ela porque, apesar de tantas pesquisas, a psiquiatria oficial permanecia t\u00e3o desumana. Ela respondeu que a psiquiatria oficial era um muro s\u00f3lido e ainda seria preciso muita luta para humaniz\u00e1-la. A doutora Nise \u00e9 uma leg\u00edtima hero\u00edna do povo brasileiro: &#8220;Se eu n\u00e3o tivesse Lampi\u00e3o embaixo da pele, eu seria esmagada&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O que a doutora Nise fala sobre os pacientes esquizofr\u00eanicos vale para todos n\u00f3s. Uma mente e um corpo n\u00e3o criativos adoecem: &#8220;O que cura \u00e9 a alegria e a conviv\u00eancia com outras pessoas&#8221;. Essa mulher brava, agreste, verdadeira e delicada \u00e9 uma grande brasileira, uma brasileira cidad\u00e3 do mundo, que nos comove, nos inspira e nos engrandece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Conhecia a pesquisa e o acervo de livros e filmes do Museu do Inconsciente, mas ver as obras dos pacientes-artistas sem intermedi\u00e1rios \u00e9 ainda mais impactante. Elas est\u00e3o exposta em mostra magn\u00edfica no CCBB. A pintura de Emydio Barros corresponde, efetivamente, ao que escreveu Ferreira Gullar: &#8220;Emydio \u00e9 um dos g\u00eanios da arte brasileira. 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