{"id":3139,"date":"2025-01-18T10:07:56","date_gmt":"2025-01-18T13:07:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3139"},"modified":"2025-01-18T10:11:18","modified_gmt":"2025-01-18T13:11:18","slug":"fernanda-polifonica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/fernanda-polifonica\/","title":{"rendered":"Fernanda polif\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\"><strong><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-family: Calibri\">Severino Francisco<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-family: Calibri\"><span style=\"font-size: medium\">Finalmente, assisti <em>Ainda estou aqui.<\/em> As imagens do filme ainda ressoam mixadas \u00e0 can\u00e7\u00e3o de Erasmo Carlos e Roberto Carlos: &#8220;Estou envergonhado\/Com as coisas que eu vi\/Mas n\u00e3o vou ficar calado\/No conforto, acomodado\/Como tantos por a\u00ed&#8221;. \u00c9 uma hist\u00f3ria dilacerante sobre democracia e regime de exce\u00e7\u00e3o, sem que ambos sejam nomeados explicitamente. A mestria de Walter Salles est\u00e1 em confrontar a vulnerabilidade de uma t\u00edpica fam\u00edlia brasileira de classe m\u00e9dia com a viol\u00eancia, a brutalidade e o arb\u00edtrio de uma ditadura. <\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-family: Calibri\"><span style=\"font-size: medium\">E o espantoso \u00e9 que ele mostra tudo isso sem derrapar em nenhum momento no panfletarismo. Voc\u00ea n\u00e3o precisa de atestado ideol\u00f3gico para entender e para se sensibilizar com o drama que se narra. A aus\u00eancia da pol\u00edtica \u00e9 a dimens\u00e3o pol\u00edtica do filme. Ningu\u00e9m sabe direito porque Rubens Paiva foi preso. O que s\u00f3 aumenta a voltagem dram\u00e1tica. E, neste sentido, \u00e9 um filme sobre a aliena\u00e7\u00e3o e a desinforma\u00e7\u00e3o a que induz um regime de exce\u00e7\u00e3o. <\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-family: Calibri\"><span style=\"font-size: medium\">Um cr\u00edtico franc\u00eas do <em>Le Monde<\/em> espica\u00e7ou a interpreta\u00e7\u00e3o de Fernanda Torres em<em> Ainda estou aqui<\/em>. Permitam-me discrepar. N\u00e3o me parece que o referido cr\u00edtico franc\u00eas viu o mesmo filme que eu e muitos outros viram. Em primeiro lugar, na sequ\u00eancia da narrativa, depois que Rubem Paiva \u00e9 preso, qual o tom o ilustre analista gostaria que Fernanda adotasse para interpretar a situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica em que se viu envolvida, com o marido desaparecido, sem not\u00edcias, pressionada pelo desafio de cuidar de cinco filhos? <\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-family: Calibri\"><span style=\"font-size: medium\">O de euforia de quem dan\u00e7a em um show de ax\u00e9-music? Mas, mesmo se consideramos a linha tr\u00e1gica da interpreta\u00e7\u00e3o de Fernanda, percebermos que ela \u00e9 cheia de nuances, matizes e sutilezas. Por exemplo, na cena em que visita uma sorveteria, se depara com v\u00e1rias mesas ocupadas por fam\u00edlias com a presen\u00e7a dos pais. Ela n\u00e3o diz nada, s\u00f3 contempla em sil\u00eancio, mas a cena tem um enorme peso dram\u00e1tico. <\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-family: Calibri\"><span style=\"font-size: medium\">Apesar de ser baseado em um livro, Ainda estou aqui \u00e9 um filme nada liter\u00e1rio. Tudo ganha uma vers\u00e3o cinematizada. A narrativa \u00e9 sustentada pela tens\u00e3o de Fernanda Torres na pele da m\u00e3e, dividida entre o desespero e a necessidade de manter o \u00e2nimo e de proteger os cinco filhos desamparados pela aus\u00eancia do pai. A mestria com que Fernanda expressa a situa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica em suas grada\u00e7\u00f5es, tonalidades e sutilezas, de maneira precisa, sem derramamentos in\u00fateis, caracteriza, na verdade, n\u00e3o um tom monoc\u00f3rdio, mas, sim, uma interpreta\u00e7\u00e3o polif\u00f4nica. Diz tudo com olhares, esgares, express\u00f5es faciais, contra\u00e7\u00f5es e retesamentos do corpo.<\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-family: Calibri\"><span style=\"font-size: medium\">A arte consegue tocar aonde nenhum discurso pol\u00edtico pode chegar. \u00c9 o filme certo para a hora certa. Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro e a fita ainda concorre ao Oscar. Eunice Paiva emerge na condi\u00e7\u00e3o de mulher-coragem de uma for\u00e7a tr\u00e1gica extraordin\u00e1ria. Independentemente da disputa na selva selvagem da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, o filme cumpriu uma sina vitoriosa, interferiu, inclusive, no destino da fam\u00edlia Paiva. \u00c9 uma repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica poss\u00edvel para um acontecimento terr\u00edvel da nossa hist\u00f3ria. A fam\u00edlia Paiva poderia ser qualquer fam\u00edlia. \u00c9 uma trag\u00e9dia pol\u00edtica tocada pela luz do humanismo.<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Finalmente, assisti Ainda estou aqui. As imagens do filme ainda ressoam mixadas \u00e0 can\u00e7\u00e3o de Erasmo Carlos e Roberto Carlos: &#8220;Estou envergonhado\/Com as coisas que eu vi\/Mas n\u00e3o vou ficar calado\/No conforto, acomodado\/Como tantos por a\u00ed&#8221;. \u00c9 uma hist\u00f3ria dilacerante sobre democracia e regime de exce\u00e7\u00e3o, sem que ambos sejam nomeados explicitamente. 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