{"id":3050,"date":"2025-01-06T11:58:51","date_gmt":"2025-01-06T14:58:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3050"},"modified":"2025-01-06T11:58:51","modified_gmt":"2025-01-06T14:58:51","slug":"reconcavo-e-reconvexo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/reconcavo-e-reconvexo\/","title":{"rendered":"Rec\u00f4ncavo e reconvexo"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">\u00c9 muito bom escutar m\u00fasica circulando de carro pela cidade, pois em alguns instantes a gente tem a sensa\u00e7\u00e3o de flutuar, perdido no espa\u00e7o. N\u00f3s est\u00e1vamos ouvindo <em>Reconvexo<\/em>, uma das can\u00e7\u00f5es preferidas de Caetano Veloso, quando fui lembrado de que a inspira\u00e7\u00e3o ou a provoca\u00e7\u00e3o teria sido uma pol\u00eamica com Paulo Francis. Corri atr\u00e1s da g\u00eanese da can\u00e7\u00e3o, tentando atar os fios e ela se tornou ainda mais interessante.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Em 1983, o jornalista Roberto D&#8217;\u00c1vila levou Caetano Veloso para uma entrevista com Mick Jagger, o vocalista dos Rolling Stones. Ao assistir \u00e0 conversa, Francis escreveu, na coluna que mantinha na <em>Folha de S. Paulo<\/em>, o artigo <em>Paj\u00e9 doce e maltrapilho<\/em>, em que desancava Caetano. Segundo Francis, Caetano teve uma postura embasbacada e servil ante Jagger. Ao ser perguntado sobre se havia se tornado uma pessoa mais tolerante, o vocalista dos Rolling Stones, brincando, que n\u00e3o era, batia at\u00e9 em crian\u00e7as. E, ainda, que tentava ser mais tolerante com os latino-americanos. Seria uma humilha\u00e7\u00e3o para o &#8220;nosso representante no v\u00eddeo&#8221;, segundo Francis.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Francis espica\u00e7a Caetano tamb\u00e9m por ter perguntado qual o lugar do rock na m\u00fasica. Segundo o jornalista, era uma quest\u00e3o de um amadorismo total, servia apenas para semin\u00e1rios de &#8220;comunica\u00e7\u00e3o&#8221; no interior da Bahia. No entanto, ao assistir o v\u00eddeo do programa <em>Conex\u00e3o Internacional<\/em>, \u00e9 poss\u00edvel constatar, facilmente, o erro de Francis. Quem fez a pergunta sobre a toler\u00e2ncia foi D&#8217;\u00c1vila e n\u00e3o Caetano Veloso.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Na verdade, era Francis quem gania de humildade vira-lata pelos Estados Unidos e ditava c\u00e1tedra sobre o Brasil, diretamente de Nova York, sem espa\u00e7o para escrever em nenhum jornal americano. Ele era um jornalista talentoso, mas se perdeu quando se desligou do Brasil.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">E quanto a indaga\u00e7\u00e3o sobre o rock, Francis tinha um preconceito total ao pop e desqualificava, imediatamente, qualquer manifesta\u00e7\u00e3o popular. Alguns meses depois, ao participar de uma entrevista coletiva sobre um show e ao ser interpelado sobre a rea\u00e7\u00e3o de Francis, Caetano deu uma resposta que, nos dias de hoje, seria considerada homof\u00f3bica. Chamou Francis de &#8220;bicha enrustida&#8221;, &#8220;boneca travada&#8221; e &#8220;direitista. N\u00e3o foi a melhor r\u00e9plica.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Como o pr\u00f3prio Caetano disse em <em>L\u00edngua<\/em>: &#8220;Se voc\u00ea tem uma ideia incr\u00edvel\/\u00c9 melhor fazer uma can\u00e7\u00e3o\/Est\u00e1 provado que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel filosofar em alem\u00e3o&#8221;. E foi o que ele fez em <em>Reconvexo<\/em>. A inspira\u00e7\u00e3o inicial foi uma situa\u00e7\u00e3o vivida em Roma. Certo dia, Caetano acordou e se surpreendeu com os carros empoeirados. Alguns amigos esclareceram: &#8220;Isso \u00e9 areia, que vem do deserto do Saara, que o vento traz&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Na letra, Caetano assume aspectos tocantes de sua forma\u00e7\u00e3o de baiano e de tra\u00e7os culturais brasileiros como se fosse um eu coletivo e contrap\u00f5e \u00e0 figura do &#8220;careta&#8221; que despreza o Brasil, personificado por Francis. &#8220;Quem n\u00e3o rezou a novena de Dona Can\u00f4\/Quem n\u00e3o seguiu o mendigo Beija-Flor\/Quem n\u00e3o sentiu a eleg\u00e2ncia sutil de Bob\u00f4&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mas o interessante \u00e9 que ele n\u00e3o faz uma defesa xen\u00f3foba do Brasil. A letra \u00e9 permeada de refer\u00eancias ao universo internacional pop. A risada de Andy Warhol, os brincos do homem negro americano, o swing sutil de Henri Salvador: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o me pega\/Voc\u00ea nem chega a me ver\/Meu som te cega, careta, quem \u00e9 voc\u00ea?\/Quem \u00e9 voc\u00ea que n\u00e3o seguiu o Olodum balan\u00e7ando o Pel\u00f4&#8221;. Caetano inventou a palavra reconvexo para se contrapor a rec\u00f4ncavo. &#8220;Quem n\u00e3o \u00e9 rec\u00f4ncavo, nem pode ser reconvexo&#8221;. N\u00e3o poderia haver resposta melhor, mais inventiva, mais po\u00e9tica, mais elegante e contundente a Paulo Francis e a todos que pensam como ele: &#8220;N\u00e3o tenho escolha careta, vou te descartar&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco \u00c9 muito bom escutar m\u00fasica circulando de carro pela cidade, pois em alguns instantes a gente tem a sensa\u00e7\u00e3o de flutuar, perdido no espa\u00e7o. 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