{"id":3047,"date":"2025-01-04T12:35:20","date_gmt":"2025-01-04T15:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3047"},"modified":"2025-01-04T12:35:20","modified_gmt":"2025-01-04T15:35:20","slug":"show-de-joao-no-teatro-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/show-de-joao-no-teatro-nacional\/","title":{"rendered":"Show de Jo\u00e3o no Teatro Nacional"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">A reabertura da Sala Martins Pena me reacendeu as mem\u00f3rias sobre grandes momentos vividos no Teatro Nacional. E um dos mais memor\u00e1veis foi o show de Jo\u00e3o Gilberto em 1995. Mas, claro que a lembran\u00e7a dele desencadeia uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias lidas ou ouvidas.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A nossa colunista do <em>CBPoder<\/em> Ana Maria Campos contou que os pais dela eram vizinhos de Jo\u00e3o Gilberto no Rio de Janeiro. Certo dia, o porteiro do pr\u00e9dio insinuou ao cantor baiano que estava fazendo anivers\u00e1rio, certamente, na expectativa de receber alguma grana de presente. Talvez o funcion\u00e1rio imaginasse que, por ser famoso, o ilustre m\u00fasico era rico. Pois bem, ao ouvir a not\u00edcia sobre o anivers\u00e1rio, Jo\u00e3o pediu um tempo, subiu ao apartamento, voltou empunhando o viol\u00e3o, dedilhou o instrumento e entoou em compasso de bossa nova: &#8220;Parab\u00e9ns pra voc\u00ea\/Nessa data querida&#8230;&#8221; \u00c9 poss\u00edvel inferir que talvez o funcion\u00e1rio tenha ficado frustrado com o presente.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Miucha, a irm\u00e3 mais velha de Chico Buarque, era f\u00e3 de Jo\u00e3o Gilberto. Em 1960, aos 23 anos, ela partiu rumo a Paris, levando o viol\u00e3o e os discos de bossa nova. Entre eles, havia dois de Jo\u00e3o Gilberto. Al\u00e9m disso, ela alimentava fantasias mirabolantes sobre o cantor baiano. E, entre elas, segundo o bi\u00f3grafo Ruy Castro, o de casar-se com Jo\u00e3o. Por um daqueles lances jogado pelos deuses, depois de um show que fazia na boate La Candel\u00e1ria, com Violeta Parra e o conjunto Los Incas, Miucha foi procurada por uma pessoa dizendo que um brasileiro assistira ao show e queria conhec\u00ea-la.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Logo, ela o reconheceu pela voz. Era Jo\u00e3o Gilberto. Depois do show, todos se atulharem em um carro e sa\u00edram para aproveitar a noite em outros lugares. Jo\u00e3o soprou no ouvido de Miucha para que se sentasse na outra extremidade do banco traseiro perto da porta onde ele ficaria.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A criatividade extra-musical de Jo\u00e3o Gilberto revelou-se pouco depois para Miucha, quando os dois foram convidados a entrar num autom\u00f3vel apinhado, com Violeta e os v\u00e1rios incas, para esticarem em outros lugares pela noite. Jo\u00e3o sussurrou para Miucha que ela se sentasse perto da porta no banco traseiro. No primeiro sinal vermelho, o carro parou e os dois sa\u00edram correndo, sumiram na noite de Paris e iniciaram um namoro.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Em 1995, assisti na Sala Villa-Lobos a um memor\u00e1vel show de Jo\u00e3o Gilberto. Mas nem tudo come\u00e7ou bem. O espet\u00e1culo estava marcado para as 20h, mas na hora exata nada de Jo\u00e3o aparecer. Passaram-se 10 minutos, 20 minutos, 30 minutos, 1 hora, 1 hora e 30, 1 hora e meia. A plateia j\u00e1 havia ficado irritada, passou a vaiar e a exigir a presen\u00e7a do cantor. Ningu\u00e9m queria a devolu\u00e7\u00e3o do ingresso, ningu\u00e9m abria m\u00e3o de ver o toque genial do viol\u00e3o e o canto sussurrado do menestrel baiano.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mas eis que, depois do atraso de 1h30, Jo\u00e3o Gilberto, em carne e osso, aparece no palco e senta-se em um banquinho para metade de aplausos e metade de vaias dos mais impacientes e, \u00e0quela altura, indignados espectadores. De sua parte, Jo\u00e3o foi humilde e explicou: &#8220;Me desculpem, eu estava no hotel assistindo ao jogo do Botafogo&#8221;. Detalhe: na verdade, consta que Jo\u00e3o torcia para o Vasco.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A indigna\u00e7\u00e3o ainda estava solta no ar. No entanto, logo ele come\u00e7ou a dedilhar no viol\u00e3o, extrair sons ritmados como se fosse de uma batucada e a sussurrar os versos de Bahia com H: &#8220;D\u00e1 licen\u00e7a, d\u00e1 licen\u00e7a meu senhor\/D\u00e1 licen\u00e7a, d\u00e1 licen\u00e7a pra io\u00ee\u00f4\/Eu sou amante da gostosa Bahia, por\u00e9m\/Pra saber seus segredos serei baiano tamb\u00e9m\/D\u00e1 licen\u00e7a de gostar um pouquinho s\u00f3\/A Bahia eu n\u00e3o vou roubar, tem dom&#8230;&#8221; A raiva foi embora em dois minutos e se transformou em \u00eaxtase por quase duas horas de show memor\u00e1vel na Sala Villa-Lobos, apesar da ac\u00fastica longe sofr\u00edvel, que precisa ser reparada de vez com a nova reforma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco A reabertura da Sala Martins Pena me reacendeu as mem\u00f3rias sobre grandes momentos vividos no Teatro Nacional. E um dos mais memor\u00e1veis foi o show de Jo\u00e3o Gilberto em 1995. 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