{"id":3038,"date":"2024-12-27T08:49:49","date_gmt":"2024-12-27T11:49:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3038"},"modified":"2024-12-27T08:49:49","modified_gmt":"2024-12-27T11:49:49","slug":"tesouro-natterer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/tesouro-natterer\/","title":{"rendered":"Tesouro Natterer"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">O Museu do Mundo da \u00c1ustria abriga a maior cole\u00e7\u00e3o de artefatos ind\u00edgenas brasileiros. Em depoimento para o document\u00e1rio<em> Tesouro Natterer<\/em>, do brasiliense Renato Barbieri, a antrop\u00f3loga cultural austr\u00edaca Claudia Augustat, afirma que a cole\u00e7\u00e3o de objetos arqueol\u00f3gicos da institui\u00e7\u00e3o abre um portal para o passado. No entanto, na verdade, o belo filme de Barbieri abre um portal para o passado, para o presente e para o futuro.<\/p>\n<p lang=\"zxx\"><em>Tesouro Natterer<\/em> ganhou o pr\u00eamio principal do Festival Internacional \u00c9 Tudo Verdade, o Pr\u00eamio da C\u00e2mara Legislativa do DF e foi o primeiro document\u00e1rio brasileiro a ser qualificado para o Oscar, embora n\u00e3o tenha \u00e0 fase seguinte para indica\u00e7\u00e3o. Barbieri transforma o museu est\u00e1tico em museu vivo ao convocar os personagens envolvidos na hist\u00f3ria daquelas pe\u00e7as arqueol\u00f3gicas.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O professor ind\u00edgena Hans Kaba Munduruku viaja at\u00e9 a \u00c1ustria para conhecer o museu e reconhece as marcas da ancestralidade naqueles artefatos: &#8220;Eu sou ind\u00edgena, sou sangue do Brasil. Se fosse no Brasil, esse acervo n\u00e3o existiria mais. &#8221; Corte para a imagem do inc\u00eandio no Museu Nacional: &#8220;Meu av\u00f4 tocou esse instrumento. Esse acervo deveria voltar para o Brasil, mas n\u00e3o para os museus, mas para as nossas tribos, para a gente ver e voltar a fazer novamente essas pe\u00e7as&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Johann Naterrer veio ao Brasil em 1817 chefiando uma expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, que tinha entre os colaboradores o desenhista Thomas Ender. A ideia inicial era a de que ficasse tr\u00eas anos, mas ele permaneceu 18 anos, quando a maioria dos outros cientistas viajantes s\u00f3 ficou de 1 a 3 anos. Ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de Indiana Jones austr\u00edaco.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Naquele tempo, viajar ao Brasil e pelo Brasil era uma saga permeada de perigos. Com recursos de anima\u00e7\u00e3o, Barbieri reconstitui a travessia pelo mar em meio a uma tempestade. J\u00e1 as expedi\u00e7\u00f5es internas dependiam, segundo v\u00e1rios relatos dos cientistas, do humor da mulas, que, algumas vezes, se revoltavam contra o peso da carga e empacavam ou jogavam tudo fora. As cole\u00e7\u00f5es eram acondicionadas em caixotes calafetados com piche e demoravam um ano para chegar \u00e0 \u00c1ustria.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Zo\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o, para Naterrer, as matas tinha mais import\u00e2ncia do que as cidades. Ele ca\u00e7ou e empalhou 12 mil exemplares de p\u00e1ssaros, uma de suas paix\u00f5es. Recolheu 1.309 pe\u00e7as de 68 etnias ind\u00edgenas trocadas por outros objetos. O olhar de Natterer fica registrado pela presen\u00e7a do seu bi\u00f3grafo Kurt Schmutzer, que refez o roteiro do cientista no Brasil, do Rio de Janeiro at\u00e9 Bel\u00e9m do Par\u00e1. A um s\u00f3 tempo, Kurt representa e marca uma dist\u00e2ncia cr\u00edtica com o biografado. Natterer chegou com toda a soberba euroc\u00eantrica da ci\u00eancia, mas foi se abrasileirando e, por fim, casou-se com uma ind\u00edgena, com quem teve tr\u00eas filhos.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O Tesouro de Naterrer \u00e9 uma aula de hist\u00f3ria e de fazer hist\u00f3ria com o cinema. O filme levanta a possibilidade de repatriamento das pe\u00e7as do acervo reunido por Natterer. O document\u00e1rio de Barbieri confronta a beleza da arte ind\u00edgena com o envenenamento dos rios, as invas\u00f5es e a degrada\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios dos mundurukus. Para os ind\u00edgenas, sem matas n\u00e3o h\u00e1 arte, n\u00e3o h\u00e1 alimento e n\u00e3o h\u00e1 vida. Ao longo do filme, a trama nos lan\u00e7a no centro mais vivo e dram\u00e1tico da hist\u00f3ria brasileira. De repente, descobrimos que esse document\u00e1rio \u00e9 sobre o nosso futuro. \u00c9 a vida de todos n\u00f3s brasileiros que est\u00e1 em jogo na amea\u00e7a de destrui\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco O Museu do Mundo da \u00c1ustria abriga a maior cole\u00e7\u00e3o de artefatos ind\u00edgenas brasileiros. 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