{"id":2965,"date":"2024-10-20T11:24:28","date_gmt":"2024-10-20T14:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2965"},"modified":"2024-10-20T11:24:28","modified_gmt":"2024-10-20T14:24:28","slug":"aventuras-da-chuva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/aventuras-da-chuva\/","title":{"rendered":"Aventuras da chuva"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">A chuva limpou o ar, mobilizou os p\u00e1ssaros, reverdeceu as plantas e, parece, foi embora. Sumiu, mas reavivou-me a mem\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o da casa no condom\u00ednio em que moro. Vivi algumas aventuras dram\u00e1ticas. Passei um per\u00edodo de sufoco, tive de vender o carro, voltava de \u00f4nibus, descia no ponto do com\u00e9rcio e caminhava 3km at\u00e9 a minha casa.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Certo dia, fazia a marcha, quando, de repente, o tempo fechou abruptamente e tudo se precipitou com velocidade. Em um \u00e1timo, come\u00e7ou a cair um temporal que transformou a estrada de barro em rio corrente.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Subi em um barranco para fugir do fluxo da \u00e1gua. Mas, est\u00e1vamos no entardecer, a luz se apagou. Os trov\u00f5es ribombavam e os raios riscavam o espa\u00e7o com sinais el\u00e9tricos. De repente, levei um susto, tropecei em algo enroscado e ca\u00ed de boca no barro. Levantei-me, outro rel\u00e2mpago faiscou e percebi que havia trombado com um rolo de arame farpado.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mais adiante, em um trecho escarpado, o rio da estrada cruzou com a enxurrada de uma vala, a \u00e1gua engrossou e batia na cintura. Era fazer a travessia ou retomar todo o trajeto. Tirei a carteira, coloquei em uma bolsa, suspendi os bra\u00e7os e atravessei o aguaceiro, como se fosse um Indiana Jones do Cerrado.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A certa altura, eu havia tomado tanta chuva que estava com a roupa, os cabelos, os sapatos, a bolsa e a alma encharcados. N\u00e3o adiantava me proteger. Tudo bem, sou imperme\u00e1vel. Continuava a caminhar entregue \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, sem me preocupar com a chuva, deixando que os pingos escorressem pelo corpo inteiro.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Vinha aceso pela luta, mas, ao mesmo tempo, desalentado, humilhado e ofendido pela pen\u00faria da minha vida. Sempre passava em frente \u00e0 casa do meu amigo americano Everett Lee, que j\u00e1 nos deixou. Ele se distinguia por tr\u00eas caracter\u00edsticas marcantes: a defesa brava do meio ambiente, o culto da amizade e o uso dos mais cabeludos voc\u00e1bulos da l\u00edngua portuguesa, temperados pelo sotaque americano.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Soube por terceiros que, certa vez, ele conversava com o s\u00edndico do condom\u00ednio que, comentou, enquanto eu passava ensopado pela chuva torrencial: \u201cEst\u00e1 devendo seis meses de condom\u00ednio, vou mover uma a\u00e7\u00e3o para receber o dinheiro\u201d. Prontamente, Lee respondeu ao s\u00edndico: \u201cPQP! Depois que construir, ele paga. Nenhum de n\u00f3s tem a coragem de fazer o que ele faz. Esse cara \u00e9 her\u00f3i do condom\u00ednio. N\u00e3o enche o saco, #@&amp;*!\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">E, de fato, pouco tempo depois, terminei de erguer a casa e paguei o condom\u00ednio atrasado. Como \u00e9 bom a gente ter amigo, como \u00e9 bom a gente ser olhado pelo que temos de melhor, como \u00e9 bom a gente ser alvo de uma mirada generosa. Que velocidade de instinto, que sensibilidade, que humanidade. Valeu, Lee! PQP!!!<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco A chuva limpou o ar, mobilizou os p\u00e1ssaros, reverdeceu as plantas e, parece, foi embora. Sumiu, mas reavivou-me a mem\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o da casa no condom\u00ednio em que moro. Vivi algumas aventuras dram\u00e1ticas. Passei um per\u00edodo de sufoco, tive de vender o carro, voltava de \u00f4nibus, descia no ponto do com\u00e9rcio e caminhava 3km at\u00e9 a minha casa. 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