{"id":2934,"date":"2024-09-05T09:18:52","date_gmt":"2024-09-05T12:18:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2934"},"modified":"2024-09-05T11:53:22","modified_gmt":"2024-09-05T14:53:22","slug":"a-razao-da-idade-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-razao-da-idade-2\/","title":{"rendered":"A raz\u00e3o da idade"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">As cont\u00ednuas pol\u00eamicas sobre etarismo desencadeadas nas redes sociais me reacenderam a lembran\u00e7a de uma memor\u00e1vel entrevista de Nelson Rodrigues concedida a Otto Lara Resende. Os dois eram muito amigos, mais Nelson de Otto do que Otto de Nelson. Existiam dois Ottos: o brincalh\u00e3o, sempre com uma blague na ponta da l\u00edngua; e o tr\u00e1gico dos magros, mas densos e dram\u00e1ticos contos de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Passaram para a posteridade uma s\u00e9rie de narrativas hil\u00e1rias, n\u00e3o se sabe at\u00e9 que ponto ver\u00eddicas, mas sempre saborosas. N\u00e3o \u00e9 para menos, Nelson Rodrigues inventava e incrementava situa\u00e7\u00f5es para l\u00e1 de ficcionais envolvendo o amigo. O nosso profeta do \u00f3bvio batizou uma de suas pe\u00e7as com o desconcertante t\u00edtulo de <em>Otto Lara Resende ou bonitinha mas ordin\u00e1ria<\/em>. Amigos do Otto ficaram indignados.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Carlos Drummond de Andrade foi o mais veemente, ligou para o Otto e exigiu: &#8220;Reaja!&#8221; Pressionado, Nelson ensaiou uma repara\u00e7\u00e3o, mas a emenda saiu pior do que o soneto. Segundo o nosso Freud de Madureira, Otto adorou a homenagem e,\u00a0 inclusive, se colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para colaborar com o t\u00edtulo luminoso da pe\u00e7a em um teatro no centro do Rio de Janeiro. De olho r\u00fatilo e l\u00e1bios tr\u00eamulos, teria proposto: &#8220;Eu pago o neon, eu pago o neon&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Se, porventura, o Otto faturasse o Nobel de Literatura, atravessaria o Oceano Atl\u00e2ntico a nado para receber a l\u00e1urea e, segundo Nelson, Carlos Drummond exigiria: &#8220;Reaja, reaja!&#8221; Otto era um brincalh\u00e3o impag\u00e1vel no cotidiano e, quando n\u00e3o queria ser incomodado, respondia ao interlocutor dessa maneira ao telefone: &#8220;N\u00e3o estou!&#8221;. E, pimba, desligava a liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Consta a vers\u00e3o de que, para sobreviver, trabalhava como editorialista de dois jornais concorrentes. De manh\u00e3, escrevia um artigo espica\u00e7ando determinado tema e, \u00e0 tarde, instalado em outro jornal, refutava tudo e polemizava consigo mesmo. O pr\u00f3prio Otto gostava de propagar a blague de que o chefe da reda\u00e7\u00e3o pediu a um editorialista para escrever um artigo sobre Jesus Cristo. Ao que o escriba teria respondido: &#8220;Contra ou a favor?&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Otto fazia, ao vivo, o programa de entrevista <em>Painel<\/em>, na Rede Globo, e resolveu entrevistar Nelson em agosto de 1977. Um dos melhores momentos \u00e9 o debate sobre a juventude e a velhice. Nelson afirmava que era o \u00fanico a defender a velhice como a maior das qualidades. E acrescentava que o jovem s\u00f3 podia ser levado a s\u00e9rio quando envelhecesse. Otto discordou inteiramente e citou os exemplos de Rimbaud, Bethoven, Pascal e Napole\u00e3o, brilhantes na juventude.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Nelson treplicou: &#8220;S\u00f3 Rimbaud, s\u00f3 Bethoven, s\u00f3 Pascal, s\u00f3 Napole\u00e3o. Eles eram exce\u00e7\u00f5es&#8221;. Ao que Otto esgrimiu um argumento que julgava definitivo: &#8220;Vou invocar um nome para quem voc\u00ea vai se prosternar em rever\u00eancia, Jesus Cristo, que morreu com 33 anos&#8221;. Todavia, Nelson n\u00e3o se rendeu: &#8220;Mas o Cristo \u00e9 o Cristo. Te dou v\u00e1rios anos de medita\u00e7\u00e3o para descobrir um Cristo de 15 anos\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Otto lembrou que Nelson come\u00e7ou a escrever nos jornais quando tinha 13 anos e provocou: &#8220;Voc\u00ea era um idiota?&#8221; Nelson n\u00e3o se intimidou e respondeu: &#8220;Sim, eu era um idiota. Quando tinha 18 anos, eu n\u00e3o sabia sequer dar bom dia a uma mulher. A raz\u00e3o da idade \u00e9 um embuste hediondo. Existem pulhas, canalhas e imbecis de todas as idades&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco As cont\u00ednuas pol\u00eamicas sobre etarismo desencadeadas nas redes sociais me reacenderam a lembran\u00e7a de uma memor\u00e1vel entrevista de Nelson Rodrigues concedida a Otto Lara Resende. Os dois eram muito amigos, mais Nelson de Otto do que Otto de Nelson. 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