{"id":2859,"date":"2024-06-27T07:44:13","date_gmt":"2024-06-27T10:44:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2859"},"modified":"2024-06-27T07:55:24","modified_gmt":"2024-06-27T10:55:24","slug":"riqueza-de-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/riqueza-de-brasilia\/","title":{"rendered":"Riqueza de Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\" align=\"justify\">\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Severino Francisco<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"> <span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">O excelente document\u00e1rio <em>Mito e m\u00fasica: a mensagem de Fernando Pessoa<\/em>, codirigido por Andr\u00e9 Luiz Oliveira e Rama Oliveira, abre com uma sequ\u00eancia ficcional em que o poeta Fernando Pessoa erra entre os monumentos da Esplanada dos Minist\u00e9rios, sob o fundo da cidade espacial. Aquela imagem me marcou porque, muito antes de ver o filme, tinha a impress\u00e3o de que Pessoa se sentiria em casa na atmosfera metaf\u00edsica da cidade.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Imagino que, se visitasse Bras\u00edlia, talvez dissesse o mesmo que Clarice Lispector: reconhe\u00e7o esta cidade no fundo do meu sonho. A obra dele \u00e9 muito vasta. Mas, ao ler certos poemas de Pessoa, parece-me que a inquieta\u00e7\u00e3o existencial e o sentimento metaf\u00edsico est\u00e3o em sintonia com a solitude brasiliana.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Como percebe o leitor, estou devaneando com o objetivo de criar uma moldura para algo mais tang\u00edvel. \u00c9 que o professor de arquitetura da UnB, Frederico Holanda, me enviou um precioso presente: um poema de Alberto Caeiro, um dos heter\u00f4nimos de Pessoa.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">No texto, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o do poeta portugu\u00eas com Bras\u00edlia muito menos vaga e muito mais estreita. Indiretamente, o poema resvala em Bras\u00edlia ao falar da rela\u00e7\u00e3o do ato cotidiano de ver nas cidades.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">O ponto de vista do poeta \u00e9 o pico do monte em uma aldeia. Essa perspectiva descortina uma vis\u00e3o mais ampla e prop\u00f5e uma outra rela\u00e7\u00e3o com o nosso tamanho no mundo: \u201cDa minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo&#8230;\/Por isso a minha aldeia \u00e9 t\u00e3o grande como outra terra qualquer,\/Porque eu sou do tamanho do que vejo\/E n\u00e3o do tamanho da minha altura&#8230;\u201d<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Embora prometam a riqueza de experi\u00eancias, as cidades grandes empobrecem a vis\u00e3o com seu atulhamento desordenado, que cresce atabalhoadamente para todos os lados.\u201cNas cidades a vida \u00e9 mais pequena\/Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro\u201d.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Enquanto isso, nas cidades a vis\u00e3o \u00e9 impedida pela ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, restringido o ato essencial de contemplar: \u201cNa cidade as grandes casas fecham a vista \u00e0 chave,\/Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o c\u00e9u,\/Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,\/E tornam-nos pobres porque a nossa \u00fanica riqueza \u00e9 ver.\u201d<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"> <span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">O poema de Pessoa pode ser lido, indiretamente, como um elogio a Bras\u00edlia. \u00c9 uma capital com qualidades campestres. Moramos em um altiplano pertinho do c\u00e9u. A contempla\u00e7\u00e3o da ab\u00f3bada celeste \u00e9 uma das riquezas da cidade. Ela \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o urban\u00edstica. Quem nos concedeu esse privil\u00e9gio l\u00edrico e metaf\u00edsico foi Lucio Costa.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"> <span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">A escala buc\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 um vazio a ser ocupado, a\u00e7odadamente, por pr\u00e9dios. H\u00e1 algum tempo dois arquitetos apresentaram a proposi\u00e7\u00e3o de tombar o c\u00e9u de Bras\u00edlia. A proposta \u00e9 po\u00e9tica, mas n\u00e3o \u00e9 fact\u00edvel. Para preservar essa riqueza imaterial n\u00f3s temos de ficar atentos, a todo tempo, \u00e0 disputa do poder econ\u00f4mico em detrimento da preserva\u00e7\u00e3o da qualidade de vida dos brasilienses, que coloca em risco um aspecto crucial do Plano Piloto. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"> <span style=\"font-family: arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">\u00c9 uma riqueza coletiva imaterial que deveria ser partilhada e reverenciada, democraticamente, por todos e n\u00e3o pode ser perdida. N\u00e3o \u00e9 preciso pagar para contemplar o c\u00e9u de Bras\u00edlia. Como disse Clarice Lispector, os arquitetos de Bras\u00edlia fizeram pr\u00e9dios com espa\u00e7o para nuvens. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\" align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco O excelente document\u00e1rio Mito e m\u00fasica: a mensagem de Fernando Pessoa, codirigido por Andr\u00e9 Luiz Oliveira e Rama Oliveira, abre com uma sequ\u00eancia ficcional em que o poeta Fernando Pessoa erra entre os monumentos da Esplanada dos Minist\u00e9rios, sob o fundo da cidade espacial. 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