{"id":2712,"date":"2024-03-01T20:08:13","date_gmt":"2024-03-01T23:08:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2712"},"modified":"2024-03-01T20:08:13","modified_gmt":"2024-03-01T23:08:13","slug":"sangue-de-coca-cola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/sangue-de-coca-cola\/","title":{"rendered":"Sangue de Coca-Cola"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\nA nostalgia de alguns desinformados com a ditadura militar me reavivou a mem\u00f3ria sobre o romance Sangue de Coca-Cola, do mineiro Roberto Drummond, uma das melhores fic\u00e7\u00f5es sobre o regime militar de 1964, per\u00edodo dram\u00e1tico do pa\u00eds, quando, segundo o autor, &#8220;um general Francisco Franco instalou-se no cora\u00e7\u00e3o de cada brasileiros&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">H\u00e1 um trecho que considero particularmente memor\u00e1vel e nunca citado nos balan\u00e7os e antologias liter\u00e1rios sobre o regime militar. Durante a Copoa do Mundo de Futebol de 1970, jogada no M\u00e9xico, em pleno horror do per\u00edodo mais truculento da ditadrua, o Brasil montou o mais espetacular time de futebol que j\u00e1 pisou nos gramados do planeta, com Pel\u00e9, Tost\u00e3o, G\u00e9rson, Rivellino e Jairzinho, entre outras feras. Todo brasileiro decente se deparou com o dilema: tor\u00e7o ou n\u00e3o tor\u00e7o para o Brasil?<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Drummond explora precisamente a rela\u00e7\u00e3o entre futebol e viol\u00eancia pol\u00edtica, futebol e aliena\u00e7\u00e3o, com um olhar lis\u00e9rgico, numa par\u00f3dia do estilo \u00e9pico do famoso locutor Waldir Amaral, da R\u00e1dio Globo: &#8220;L\u00e1 vai Pel\u00e9, pelo cora\u00e7\u00e3o do Brasil, l\u00e1 vai ele, Pel\u00e9, com a bola, passa pelo guerrilheiro urbano morto no Rio de Janeiro com saudade de Minas, passa pelo soneto de Cam\u00f5es &#8216;Alma gentil que te partiste\/t\u00e3o cedo desta vida descontente\/repousa l\u00e1 no c\u00e9u eternamente\/e viva eu c\u00e1 na terra&#8217;, publicado no Estado de S. Paulo no lugar da not\u00edcia sobre o guerrilheiro rubano morto no Rio de Janeiro com saudades de Minas, l\u00e1 vai Pel\u00e9, camisa 10 \u00e0s costas, pelo cora\u00e7\u00e3o do Brasil passa pela menina de 1 anos e 8 meses, torturada na Oban em S\u00e3o Paulo para a m\u00e3e denunciar o pai da menina&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">E esse Pel\u00e9 m\u00edtico continua fintando as atrocidades cometidas pelos militares de um regime de exce\u00e7\u00e3o: &#8220;L\u00e1 vai Pel\u00e9, o Rei, dribla a guerrilheira com rosto de menina morta no Araguaia, passa pelo deputado Rubens Paiva, que foi atirado ao mar e \u00e9 por isso que est\u00e1 assim: os olhos, os peixes do mar comeram, os cabelos cheios de alga, l\u00e1 vai Pel\u00e9, soberbo, com a bola, passa pelo cad\u00e1ver molhado cheirando a maresia, tocam sirenes, gritam os gritos abafados&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Pel\u00e9 prossegue em seu desvario de dribles, denunciando um gigantesco aparato da censura e da aliena\u00e7\u00e3o em que o pa\u00eds estava mergulhado, culminando em uma celebra\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, dram\u00e1tica e dilacerada: &#8220;L\u00e1 vai Pel\u00e9, camisa 10 \u00e0s costas, l\u00e1 vai ele, indiv\u00edduo competente, pelo cora\u00e7\u00e3o do Brasil, para a alegria do Presidente, gente como a gente, l\u00e1 vai Pel\u00e9, passa pelo medo, faz tabelinha com a tortura, dribla a morte, l\u00e1 vai ele, Pel\u00e9, camisa 10 \u00e0s costas, passa pela novela proibida, pelo ex-presidente confinado, pelo ex-presidente exilado, l\u00e1 vai Pel\u00e9, atira: \u00e9 gol, gol, goooooooooooooool do Brasillllll&#8230;&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco A nostalgia de alguns desinformados com a ditadura militar me reavivou a mem\u00f3ria sobre o romance Sangue de Coca-Cola, do mineiro Roberto Drummond, uma das melhores fic\u00e7\u00f5es sobre o regime militar de 1964, per\u00edodo dram\u00e1tico do pa\u00eds, quando, segundo o autor, &#8220;um general Francisco Franco instalou-se no cora\u00e7\u00e3o de cada brasileiros&#8221;. 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