{"id":2705,"date":"2024-02-29T16:00:18","date_gmt":"2024-02-29T19:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2705"},"modified":"2024-02-29T16:04:02","modified_gmt":"2024-02-29T19:04:02","slug":"otto-e-o-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/otto-e-o-golpe\/","title":{"rendered":"Otto e o golpe"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">O mineiro Otto Lara Resende \u00e9 um grande escritor, mas o personagem sempre rivalizou e, algumas vezes, superou o escriba. Nelson Rodrigues exaltava tanto o brilho das frases do amigo que dizia ser necess\u00e1rio a presen\u00e7a de um taqu\u00edgrafo acompanhando o Otto 24 horas por dia para registrar at\u00e9 os seus suspiros: &#8220;O mineiro s\u00f3 \u00e9 solid\u00e1rio no c\u00e2ncer&#8221;, \u00e9 a mais c\u00e9lebre frase atribu\u00edda ao Otto por Nelson Rodrigues.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mas existem muitas outras cintilantes de humor. Quando ocupou o cargo de adido do Brasil em Portugal, costumava descrever a fun\u00e7\u00e3o dessa maneira: &#8220;Estou adido e mal pago&#8221;. Se estivesse em casa e n\u00e3o quisesse conversa, atendia o telefone da seguinte maneira: &#8220;N\u00e3o estou&#8221;. E pimba: desligava o aparelho na cara do interlocutor. Contudo, era extremamente gentil e se recebesse um &#8220;bom dia&#8221;, tomava o cumprimento como a senha para uma conversa pra l\u00e1 de marrakeshi.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Dizia que entrou para o jornalismo como um cachorro que encontra a porta da igreja aberta e vai em frente. Reza a lenda que ele trabalhou como editorialista em dois jornais concorrentes, \u00e0 tarde, descia o sarrafo em um e, \u00e0 noite, respondia com veem\u00eancia a provoca\u00e7\u00e3o no outro, polemizando consigo mesmo.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O Otto morreu em 1992, mas deixou um assessor atento, obsessivo e risonhante para cuidar do seu legado. \u00c9 Francisco de Souza, o Chiquinho do Cedoc do correio. Todos os dias, ele espana, tira o p\u00f3 e lustra as frases do mestre para que elas mantenham o fulgor original. Do outro lado da vida, felic\u00edssimo com a badala\u00e7\u00e3o, acompanhado pelos amigos Rubem Braga e Fernando Sabino, o Otto finge descontentamento: &#8220;Afinal de contas, Chiquinho, por que voc\u00ea me persegue?&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Pois bem, o Chiquinho me repassou uma hist\u00f3ria muito interessante sobre as rela\u00e7\u00f5es escorregadias do Otto com o golpe militar de 1964. O epis\u00f3dio \u00e9 evocado em uma nota escrita pelo colunista social Ibraim Sued. Segundo ele, em um dia particularmente azedo, para estupefa\u00e7\u00e3o geral, o matreiro Otto tomou uns pileques e come\u00e7ou a espinafrar o governo do regime militar. Ficou t\u00e3o entusiasmado com a flama ret\u00f3rica que passou a dirigir a pontaria das cr\u00edticas ao ent\u00e3o presidente Castelo Branco.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A certa altura, um amigo cutucou o Otto e pediu: &#8220;Fala mais baixo porque est\u00e1 todo mundo olhando&#8221;. Naquela \u00e9poca, era perigoso se expor dessa maneira, pois nos bares sempre poderia estar infiltrado algum agente do SNI, o famigerado Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o. Mas, para o assombro de todos, o Otto n\u00e3o se intimidou.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Pelo contr\u00e1rio: encarou a plateia, olho no olho, e berrou de maneira ainda mais enf\u00e1tica: &#8220;\u00c9, meus amigos, voc\u00eas est\u00e3o admirados. \u00c9 isso mesmo. Eu sou um homem corajoso e digo o que penso. N\u00e3o tenho medo de nada e muito menos de militares. E querem saber o meu nome? Eu me chamo Jos\u00e9 Aparecido&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Jos\u00e9 Aparecido era um grande amigo do Otto e, mais tarde, seria governador do Distrito Federal. Dito isso, o Otto saiu de fininho do restaurante e sumiu na noite sem deixar rastros nas ruas do Rio de Janeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco O mineiro Otto Lara Resende \u00e9 um grande escritor, mas o personagem sempre rivalizou e, algumas vezes, superou o escriba. 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