{"id":2688,"date":"2024-02-18T17:51:11","date_gmt":"2024-02-18T20:51:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2688"},"modified":"2024-02-20T11:39:51","modified_gmt":"2024-02-20T14:39:51","slug":"a-polemica-do-samba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-polemica-do-samba\/","title":{"rendered":"A pol\u00eamica do samba"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\"><strong><span style=\"font-size: medium\">Severino Francisco<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">Depois que li not\u00edcia da forma\u00e7\u00e3o do Bloco Em Rosa, dedicado a cantar o repert\u00f3rio de Noel Rosa, entrei no embalo do compositor de Vila Isabel. E, como ainda n\u00e3o sa\u00ed, gostaria de evocar a c\u00e9lebre pol\u00eamica de Noel Rosa com Wilson Batista, em 1933 e 1934, que rendeu nove sambas. <\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">Noel j\u00e1 era famoso, com tal magreza que, segundo ele pr\u00f3prio, se andasse de lado todos pensariam que estava ausente. Wilson n\u00e3o passava de um rapazola de 20 anos a assediar outros cantores mais conhecidos em busca de emplacar alguma de suas composi\u00e7\u00f5es nas emissoras de r\u00e1dio do Rio de Janeiro. <\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">Tudo come\u00e7ou com um samba de Wilson Batista que fazia a apologia da figura cl\u00e1ssica do malandro, intitulado <em>Len\u00e7o no pesco\u00e7o<\/em>: &#8220;Meu chap\u00e9u de lado\/Tamanco arrastando\/Len\u00e7o no pesco\u00e7o\/Navalha no bolso\/Eu passo gingando\/Provoco e desafio\/Eu tenho orgulho em ser vadio&#8221;.<\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">Noel n\u00e3o gostou e replicou em alto estilo, implodindo verso a verso com a mitologia do malandro desenhada por Wilson: &#8220;Deixa de arrastar o teu tamanco\/Pois tamanco nunca foi sand\u00e1lia\/E tira do pesco\u00e7o o len\u00e7o branco\/Joga fora essa navalha que te atrapalha\/Com chap\u00e9u do lado deste rata\/Da pol\u00edcia quero que escapes\/Fazendo samba-can\u00e7\u00e3o\/J\u00e1 te dei papel e l\u00e1pis\/Arranja um amor e um viol\u00e3o&#8221;.<\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">O arremate de Noel \u00e9 sensacional ao estabelecer uma dist\u00e2ncia cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao culto da esperteza carioca e \u00e0 capacidade de resolver tudo com um jeitinho. Noel inverte e subverte a aura da vadiagem, propondo um corte no mito e uma sa\u00edda bem-humorada para os tempos civilizados: &#8220;Malandro \u00e9 palavra derrotista\/Que s\u00f3 serve pra tirar\/Todo valor do sambista\/Proponho ao povo civilizado\/N\u00e3o chamar de malandro\/E sim de rapaz folgado&#8221;.<\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">Wilson Batista n\u00e3o poderia deixar em branco a provoca\u00e7\u00e3o e revidou com <em>Mocinho da Vila<\/em>: &#8220;Voc\u00ea que \u00e9 mocinho da Vila\/Fala muito em viol\u00e3o\/Barrac\u00e3o e outras coisas mais\/Se n\u00e3o quiser perder o nome\/Cuide de seu microfone\/E deixe quem \u00e9 malandro em paz&#8221;. Na segunda parte, Wilson retoma o embate entre as figuras do malandro e do ot\u00e1rio: &#8220;Injusto \u00e9 seu coment\u00e1rio\/Fala de malandro quem \u00e9 ot\u00e1rio\/Mas falando n\u00e3o se faz\/Eu de len\u00e7o no pesco\u00e7o\/Desacato e tamb\u00e9m tenho o meu cartaz&#8221;.<\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">Os desdobramentos da pol\u00eamica est\u00e3o registrados em um precioso CD produzido pela Funarte. Houve uma tr\u00e9gua, mas quando Noel lan\u00e7ou o bel\u00edssimo <em>Feiti\u00e7o da Vila<\/em>, em 1934, cantando as excel\u00eancias do bairro,\u00a0 Wilson vislumbrou a chance de revidar. Wilson contra-atacava Noel com muita verve, no samba <em>Conversa fiada<\/em>: &#8220;\u00c9 conversa fiada\/Dizer que a Vila tem feiti\u00e7o\/Eu fui ver para crer\/E n\u00e3o vi nada disso\/A Vila \u00e9 tranquila\/Mas cuidado\/Antes de dormir\/D\u00ea duas voltas no cadeado&#8221;.<\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">Na segunda parte, Batista continua a desmontagem po\u00e9tica dos versos de Noel: &#8220;Eu fui \u00e0 Vila ver o arvoredo mexer\/E conhecer o ber\u00e7o dos folgados\/A Lua nesta noite demorou tanto\/Me assassinaram um samba\/Veio da\u00ed o meu pranto&#8221;. <\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">O samba de Wilson era muito bom na melodia e na letra. Mas, independentemente dos m\u00e9ritos pr\u00f3prios, ele entrou para a hist\u00f3ria pelo fato de ter suscitado <em>Palpite infeliz<\/em>, uma das mais inspiradas can\u00e7\u00f5es de Noel: &#8220;Quem \u00e9 voc\u00ea que n\u00e3o sabe o que diz\/Meu Deus do c\u00e9u, que palpite infeliz&#8221;, desfechava o poeta de Vila Isabel, que propunha uma malandragem iluminista: &#8220;A Vila tem um feiti\u00e7o sem farofa,\/Sem vela e sem vint\u00e9m\/Que nos faz bem&#8221;.<\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">A resposta foi t\u00e3o brilhante que Wilson apelou e jogou pesado com o samba Frankstein da Vila, referindo-se \u00e0 deforma\u00e7\u00e3o do queixo do poeta da Vila, nascido de um parto a f\u00f3rceps, que o magoava e humilhava: &#8220;Boa impress\u00e3o nunca se tem\/Quando se encontra um certo algu\u00e9m\/Que parece o Frankstein&#8230;&#8221; <\/span><\/p>\n<p lang=\"zxx\"><span style=\"font-size: medium\">O mais surpreendente \u00e9 que a causa da pol\u00eamica, na verdade, n\u00e3o era a imagem do malandro; era mulher. Wilson arrebatara uma cabrocha de Noel. Ao apresentar a pol\u00eamica para alunos, no come\u00e7o de 2010, um deles comentou: &#8220;Se fosse hoje, a pol\u00eamica n\u00e3o renderia sambas; renderia cabe\u00e7adas e socos, como ocorreu na pol\u00eamica entre Chor\u00e3o e Marcelo Camelo&#8221;.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Depois que li not\u00edcia da forma\u00e7\u00e3o do Bloco Em Rosa, dedicado a cantar o repert\u00f3rio de Noel Rosa, entrei no embalo do compositor de Vila Isabel. E, como ainda n\u00e3o sa\u00ed, gostaria de evocar a c\u00e9lebre pol\u00eamica de Noel Rosa com Wilson Batista, em 1933 e 1934, que rendeu nove sambas. Noel j\u00e1 era famoso, com tal magreza [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":73,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-2688","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/users\/73"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2688"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2688\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2690,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2688\/revisions\/2690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}