{"id":2673,"date":"2024-02-09T12:50:50","date_gmt":"2024-02-09T15:50:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2673"},"modified":"2024-02-09T12:54:56","modified_gmt":"2024-02-09T15:54:56","slug":"a-vinganca-delicada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-vinganca-delicada\/","title":{"rendered":"A vingan\u00e7a delicada"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">Beth Ernest Dias vem de uma fam\u00edlia que \u00e9 quase uma orquestra sinf\u00f4nica: a m\u00e3e \u00e9 a magn\u00edfica flautista Odeth Ernest Dias. E os irm\u00e3os foram pela mesma trilha: Andr\u00e9ia (flauta), Carlos (obo\u00e9) e Jaime (viol\u00e3o).<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Durante quatro d\u00e9cadas, Beth parecia estar em todos os lugares. Tocava na Orquestra Sinf\u00f4nica Claudio Santoro, na Escola de M\u00fasica de Bras\u00edlia, nos bares, em vernissages, recitais, grava\u00e7\u00f5es e shows de m\u00fasica popular. Cultivava a flauta com devo\u00e7\u00e3o, o instrumento era quase uma extens\u00e3o do seu corpo.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Participou de uma parte muito importante da hist\u00f3ria recente da m\u00fasica popular brasileira. Integrou o conjunto Fina Flor do Samba, um dos marcos para a retomada do chorinho no pa\u00eds, na virada da d\u00e9cada de 1970, no Rio de Janeiro. Tocou com Beth Carvalho, Jards Macal\u00e9 e Moreira da Silva, entre outros craques.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Como se n\u00e3o bastasse contribuir, decisivamente, para a forma\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de flautistas, esteve na linha de frente das principais lutas pela dignidade dos m\u00fasicos e da m\u00fasica de Bras\u00edlia. Ela \u00e9 delicadamente brava, mas sem perder a ternura jamais. Basta uma blague espirituosa para que abra um sorriso solar e se derrame em uma gargalhada de alegria.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Esse retrato rel\u00e2mpago da Beth tem como objetivo evocar uma historia dos tempos de adolesc\u00eancia, quando tinha 14 anos e estudava em um col\u00e9gio tradicional do Rio de Janeiro. A atra\u00e7\u00e3o principal do curso era o semin\u00e1rio de literatura, sob a orienta\u00e7\u00e3o de uma professora muito rigorosa. E, naquela \u00e9poca, n\u00e3o havia nenhum bot\u00e3o do Google para enganar os incautos. Era preciso pesquisar e estudar duramente.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A literatura moderna estava no \u00e1pice, a meninada disputava e levava para a sala de aula entrevistas exclusivas com Carlos Drummond de Andrade, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e outros artistas da palavra. Nesta \u00e9poca, Beth se encantou com um volume de contos de Dalton Trevisan, intitulado O vampiro de Curitiba. Ficou fascinada e resolveu entrevistar o arredio autor.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Enfim, depois de \u00e1rdua pesquisa, descobriu o endere\u00e7o de Dalton, preparou um question\u00e1rio com perguntas meticulosas e enviou ao Vampiro de Curitiba. E nenhum sinal de Trevisan. No entanto, \u00e0s v\u00e9speras do semin\u00e1rio, recebeu dos Correios um pacote massudo e ficou tr\u00eamula.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Sim, o remetente era ele. Contudo, quando abriu a correspond\u00eancia, percebeu que Dalton Trevisan n\u00e3o respondera a seu escrupuloso inqu\u00e9rito. Na verdade, compilou in\u00fameras mat\u00e9rias e sublinhou com um marca-texto os trechos em que se destacava o fato de &#8220;Dalton Trevisan odiar conceder entrevistas&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Em face da gravidade dos fatos, Beth decidiu escancarar a situa\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio. Trevisan foi execrado pelos colegas da escola, com argumentos t\u00e3o convincentes e provas t\u00e3o contundentes que, do outro lado da vida, o pr\u00f3prio Dante Alighieri, autor de A divina com\u00e9dia, resolveu criar uma sess\u00e3o de tormentos, no espa\u00e7o inferno, especialmente para escritores que se recusam a conceder entrevista a colegiais inocentes.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00d3, vampiro de Curitiba, saiba que aquela garotinha a quem voc\u00ea sonegou, sadicamente, m\u00edseras palavras de um depoimento, se tornou uma flautista sublime. Se ela toca, o mundo fica mais leve. E, nas noites de lua cheia, quando voc\u00ea busca apaziguar a alma com um chorinho brejeiro, saiba, \u00f3 ser de escurid\u00e3o e rutil\u00e2ncia, que aquela flauta maviosa que voc\u00ea ouve e cai em seu esp\u00edrito como um b\u00e1lsamo \u00e9 daquela garotinha. Aposto que voc\u00ea n\u00e3o imaginava uma vingan\u00e7a t\u00e3o mortalmente delicada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Beth Ernest Dias vem de uma fam\u00edlia que \u00e9 quase uma orquestra sinf\u00f4nica: a m\u00e3e \u00e9 a magn\u00edfica flautista Odeth Ernest Dias. E os irm\u00e3os foram pela mesma trilha: Andr\u00e9ia (flauta), Carlos (obo\u00e9) e Jaime (viol\u00e3o). Durante quatro d\u00e9cadas, Beth parecia estar em todos os lugares. 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