{"id":2584,"date":"2023-12-14T07:18:28","date_gmt":"2023-12-14T10:18:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2584"},"modified":"2023-12-14T07:18:28","modified_gmt":"2023-12-14T10:18:28","slug":"a-nobreza-de-vladimir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-nobreza-de-vladimir\/","title":{"rendered":"A nobreza de Vladimir"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Severino Francisco<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">Vladimir Carvalho \u00e9 \u00e9pico, nervoso, inconformado e inflam\u00e1vel; n\u00e3o pertence \u00e0 fam\u00edlia dos mornos da par\u00e1bola b\u00edblica, com passaporte carimbado para o inferno. Tem v\u00e1rios defeitos que o humanizam, mas \u00e9 uma pessoa de rara nobreza. Sempre toma partido. Se jogarem Fluminense e Bonsucesso, ele n\u00e3o ter\u00e1 d\u00favidas em torcer para o mais fraco. Pois vivi uma noite de Bonsussa. Vamos ao caso.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">H\u00e1 alguns anos, recebi um convite para quatro pessoas e fui com meus dois filhos assistir ao document\u00e1rio A m\u00fasica segundo Tom Jobim, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, no shopping CasaPark. Todavia, sou um alienado incur\u00e1vel de etiquetas sociais e n\u00e3o me dei conta de que precisava confirmar a presen\u00e7a pelas iniciais da senha r.s.v.p., em letra mi\u00fada. Reponse si vous plait (&#8220;Responda por favor&#8221;, em franc\u00eas). <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">Fiquei bravo e cobrei: &#8220;Voc\u00eas est\u00e3o cometendo uma deseleg\u00e2ncia e uma burrice. Me convidaram e est\u00e3o me desconvidando. Estou trabalhando, sou jornalista e vim para ver e escrever sobre o filme&#8221;.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">Quando avistou o bafaf\u00e1, Vladimir chegou perto, e eu expliquei o que ocorria. Neste \u00ednteirim, uma outra mo\u00e7a da produ\u00e7\u00e3o do evento veio aflita de dentro da sala: &#8220;Senhor Vladimir, o Nelson Pereira est\u00e1 esperando s\u00f3 o senhor para iniciar a exibi\u00e7\u00e3o do filme&#8221;. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">A esta altura, o sangue paraibano j\u00e1 havia subido, o cangaceiro baixado e Vladimir fervia de indigna\u00e7\u00e3o, com olhos chispantes: &#8220;Se o Severino n\u00e3o entrar, eu n\u00e3o entro!!!&#8221;, disparou em tom \u00e9pico. A partir da\u00ed, deixei de me preocupar comigo e passei a ficar angustiado com um estremecimento no alto escal\u00e3o do Cinema Novo por causa de uma suscetibilidade minha que havia se tornado rid\u00edcula em face dos acontecimentos. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">Apreensivo, tentei convenc\u00ea-lo a entrar no cinema, mas a sua companheira, a escritora Luc\u00edlia Garcez, interveio com realismo de quem sabe o que fala: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o conhece Vladimir, n\u00e3o adianta, ele n\u00e3o vai entrar&#8221;. N\u00e3o era uma a\u00e7\u00e3o de compadrio; Vladimir estava solid\u00e1rio ao jornalista cultural que ele foi um dia. No entanto, em um \u00e1timo, bateu-me uma intui\u00e7\u00e3o fulminante, irrespons\u00e1vel e gratuita, e eu a obedeci. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">De chofre, rasguei os quatro convites, os transformei em confetes, enchi as m\u00e3os espalmadas e joguei para o alto. A chuva de papel picado caiu em minha cabe\u00e7a e nas das recepcionistas. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">Elas ficaram assustadas em um primeiro momento, mas, em seguida, sorriram, enquanto desembara\u00e7avam papeis nos cabelos. Os que n\u00e3o conseguiram ver o filme aplaudiram a performance de maneira estrepitosa, liderados por Jos\u00e9 Damata, o comandante do Cinema Voador. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">Meus filhos aprovaram plenamente o protesto. Sentia-me um pierr\u00f4 de condom\u00ednio do Jardim Bot\u00e2nico. Embora tivesse origem em um gesto brusco, era uma vingan\u00e7a delicada, meio chapliniana, meio cinematogr\u00e1fica, meio l\u00edrica contra a burocracia cultural. Reponse, si vous plait. Estava chateado, mas, em um \u00e1timo, sa\u00ed feliz de volta para casa, com aquele chuvisco desajeitado de papel, e, sobretudo, com a solidariedade absurda e insensata do Vladimir. No dia seguinte, liguei para a Luc\u00edlia e ela informou que Vladimir se recusou a assistir ao filme, no entanto, ficaram bem, conversando em um restaurante no pr\u00f3prio shopping. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: small\">Por essas e por outras, brindemos Vladimir, nosso defensor p\u00fablico do Bonsucesso, nosso l\u00edder das causas vencidas, nosso her\u00f3i das causas perdidas. Brindemos nosso Dom Quixote paraibano, que nos engrandece com seu idealismo e nos ensina, com sua vida, o que \u00e9 a verdadeira nobreza. <\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco Vladimir Carvalho \u00e9 \u00e9pico, nervoso, inconformado e inflam\u00e1vel; n\u00e3o pertence \u00e0 fam\u00edlia dos mornos da par\u00e1bola b\u00edblica, com passaporte carimbado para o inferno. Tem v\u00e1rios defeitos que o humanizam, mas \u00e9 uma pessoa de rara nobreza. Sempre toma partido. Se jogarem Fluminense e Bonsucesso, ele n\u00e3o ter\u00e1 d\u00favidas em torcer para o mais fraco. 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