{"id":2390,"date":"2023-03-16T14:36:13","date_gmt":"2023-03-16T17:36:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2390"},"modified":"2023-03-16T14:36:13","modified_gmt":"2023-03-16T17:36:13","slug":"a-morte-de-nelson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-morte-de-nelson\/","title":{"rendered":"A morte  de Nelson"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nelson Rodrigues nunca teve problemas em falar sobre a morte. Ela sempre esteve colada em seu corpo e ele jamais se esquivou de encar\u00e1-la em cr\u00f4nicas, contos, pe\u00e7as ou entrevistas: \u201cA morte \u00e9 anterior a si mesma. Come\u00e7a antes, muito antes. \u00c9 todo um lento, suave, maravilhoso processo. O sujeito j\u00e1 come\u00e7ou a morrer e n\u00e3o sabe\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O amor e a morte eram os grandes temas de sua vida: \u201cMorrer significa, em \u00faltima an\u00e1lise, um pouco de voca\u00e7\u00e3o. H\u00e1 vivos t\u00e3o pouco militantes que temos vontade de lhes enviar coroas ou de lhes atirar na cara a \u00faltima p\u00e1 de cal. Esses, sim, t\u00eam a voca\u00e7\u00e3o da morte\u201d. Apesar da obsess\u00e3o, Nelson tinha uma enorme e visceral voca\u00e7\u00e3o para a vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A \u00faltima cr\u00f4nica que escreveu n\u00e3o poderia ser mais dram\u00e1tica, \u00e9pica e comovente. Nelson estava muito doente, debilitado desde os anos 1930, quando sobreviveu a uma tuberculose. A doen\u00e7a no pulm\u00e3o se irradiou pelo corpo e fragilizou, especialmente, o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no in\u00edcio<span id=\"OBJ_PREFIX_DWT311_com_zimbra_date\" class=\"Object\" role=\"link\"> de dezembro<\/span> de 1980. Disputavam a final do campeonato carioca o Vasco da Gama e o Fluminense, time de cora\u00e7\u00e3o de Nelson h\u00e1 60 mil anos antes do para\u00edso. O m\u00e9dico e amigo do cronista, doutor Stand Murad, recomendou expressamente evitar qualquer emo\u00e7\u00e3o forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nelsinho Filho proibiu que o pai ligasse o radinho de pilha e prometeu relatar todos os lances com detalhes. Ambos estavam com 200 megavolts de tens\u00e3o. E se o Vasco fizesse um gol? E se o Flu empatasse e virasse o jogo? E se o Vasco revertesse o resultado? N\u00e3o importava, qualquer acontecimento ou placar eram perigosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nelsinho tremia de emo\u00e7\u00e3o, mas desconversava: \u201cO Flu est\u00e1 bem\u201d. A partida virou 0x0. E logo no in\u00edcio do segundo tempo, o zagueiro Edinho cobrou uma falta e fez o gol que daria o t\u00edtulo ao Fluminense. Nelsinho chorou l\u00e1grimas de esguicho, mas segurou a not\u00edcia. E se o Vasco virasse? Ufa, finalmente, o drama acabou. Contudo, havia ainda o mais dif\u00edcil: como contar a Nelson sem desencadear uma violenta emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com habilidade, Nelsinho declarou de maneira contida: o Fluminense era campe\u00e3o. Nelson n\u00e3o tinha for\u00e7as, mas arrancou um grito: \u201cPreciso escrever\u201d. N\u00e3o conseguia ordenar as palavras. Resolveu ditar para Nelsinho a \u00faltima cr\u00f4nica: \u201cAmigos, em futebol, nunca houve uma vit\u00f3ria improvisada. Tem sido assim atrav\u00e9s dos tempos. Tudo come\u00e7ou 6 mil anos atr\u00e1s. Voc\u00eas compreenderam?\u201d.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica foi publicada em <span id=\"OBJ_PREFIX_DWT312_com_zimbra_date\" class=\"Object\" role=\"link\">2 de dezembro<\/span> e, 18 dias depois, Nelson morreria: \u201cA maior dignidade da morte \u00e9 f\u00edsica. Nunca o homem \u00e9 t\u00e3o belo como quando est\u00e1 morto\u201d, escreveu Nelson: \u201cPorque tem ent\u00e3o assegurada a eternidade, \u00e9 na morte que o homem tem o seu rosto verdadeiro. Na vida, usamos m\u00e1scaras sucessivas e contradit\u00f3rias. S\u00f3 a morte revela a nossa verdadeira face\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em uma entrevista a Otto Lara Resende, ao ser perguntado sobre quais seriam as \u00faltimas palavras no leito de morte, Nelson respondeu: \u201cO Marx \u00e9 uma besta. Que boa besta \u00e9 o Marx!\u201d. Nelson ficava indignado com o fato de o fil\u00f3sofo alem\u00e3o nunca <span id=\"OBJ_PREFIX_DWT313_com_zimbra_date\" class=\"Object\" role=\"link\">ter<\/span> escrito nenhuma linha sobre o tema essencial. Mas Nelson partiu feliz, no \u00eaxtase do campeonato do Fluminense: \u201cA morte \u00e9 um grande despertar\u201d, intuiu o nosso profeta do \u00f3bvio.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Nelson Rodrigues nunca teve problemas em falar sobre a morte. Ela sempre esteve colada em seu corpo e ele jamais se esquivou de encar\u00e1-la em cr\u00f4nicas, contos, pe\u00e7as ou entrevistas: \u201cA morte \u00e9 anterior a si mesma. Come\u00e7a antes, muito antes. \u00c9 todo um lento, suave, maravilhoso processo. 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