{"id":2375,"date":"2023-01-12T07:39:59","date_gmt":"2023-01-12T10:39:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2375"},"modified":"2023-01-12T07:47:38","modified_gmt":"2023-01-12T10:47:38","slug":"balada-para-di-cavalcanti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/balada-para-di-cavalcanti\/","title":{"rendered":"Balada para Di Cavalcanti"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">Escrevo ainda sob o choque do ataque b\u00e1rbaro contra a tela <em>As mulatas<\/em>, de Di Cavalcanti, pelos v\u00e2ndalos no Pal\u00e1cio do Planalto. O pintor que elevou as mesti\u00e7as brasileiras \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de madonas tropicais tem conex\u00f5es com Bras\u00edlia. \u00c9 autor de uma tape\u00e7aria para o Pal\u00e1cio da Alvorada, um painel para o Congresso Nacional e pinturas da Via Sacra na Catedral Metropolitana. Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma inesperada rela\u00e7\u00e3o com o Planalto Central e com o <b>Correio Brasiliense<\/b>.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00c9 que no per\u00edodo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, Glauber Rocha (sim, o cineasta baiano genial) deixou a \u00fanica c\u00f3pia do filme Di\/Glauber, premiado no Festival de Cannes, com Oliveira Bastos, na \u00e9poca, diretor de reda\u00e7\u00e3o do <b>Correio<\/b>. Paranoico, o cineasta temia que o filme fosse recolhido pelos militares.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Glauber optou por usar o poema <i>Balada para Di<\/i>, de Vinicius de Moraes, como fio narrativo do filme. O ataque inomin\u00e1vel ao quadro de Di me fez lembrar do filme e do poema de Vinicius para o amigo. Evoca um Brasil afetuoso, generoso, c\u00e1lido e elegante, que amava a cultura. Esse Brasil que tenta renascer contra as for\u00e7as de um anti-Brasil atrasado. Ent\u00e3o resolvi reler o poema para voc\u00eas.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Fala, Vinicius! \u201cAmigo Di Cavalcanti\/\u00c9 com a maior emo\u00e7\u00e3o\/Que este tamb\u00e9m carioca\/Te traz esta sauda\u00e7\u00e3o.\/\u00c9 de todo cora\u00e7\u00e3o\/Poeta Di Cavalcanti\/Que este tamb\u00e9m poetante\/Te faz essa sagra\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Na sequ\u00eancia, Vinicius celebra os porres memor\u00e1veis que tomou com Di: \u201cAmigo Di Cavalcanti\/Amigo de muito instante\/De alegria e de afli\u00e7\u00e3o\/Nos teus treze lustros idos\/Cinco foram bem vividos\/Bem vividos e bebidos\/Na companhia constante\/Deste tamb\u00e9m teu irm\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Na sagra\u00e7\u00e3o do amigo, Vinicius desdenha at\u00e9 do tempo, que encaneceu Di: \u201cQuantos amigos j\u00e1 idos!\/Quantos ainda partir\u00e3o!\/Mestre pintor Emiliano\/Augusto Cavalcanti\/De Albuquerque: ou melhor Di\/Um ano segue a outro ano\/Diz o vulgo por a\u00ed\/E da\u00ed? Se mais humano\/Fica um homem (igual a ti)!\/Mesmo entrando pelo cano\/Se pode dizer: vivi? Mais de setenta luas\/coroam a tua cabe\u00e7a\/que <span id=\"OBJ_PREFIX_DWT93_com_zimbra_date\" class=\"Object\" role=\"link\">hoje<\/span> \u00e9 branca como a lua\/mas continua travessa&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Est\u00e1vamos nos dram\u00e1ticos momentos finais do per\u00edodo militar e Vinicius constata com um sentimento muito pr\u00f3ximo ao da maioria dos brasileiros agora: \u201cAmigo Di Cavalcanti\/A hora \u00e9 grave e inconstante.\/Tudo aquilo que prezamos\/O povo, a arte, a cultura\/Vemos sendo desfigurados\/pelos homens do passado\/Que por terror do futuro\/Optaram pela tortura.\/Poeta Di Cavalcanti\/nossas coisas bem-amadas\/Neste mesmo exato instante\/Est\u00e3o sendo desfiguradas.\/Hai que luchar, Cavalcanti\/Como diria Neruda\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A resist\u00eancia que Vinicius recomenda n\u00e3o \u00e9 a da luta armada; \u00e9 a resist\u00eancia pac\u00edfica da arte, em um ato de amor pelo Brasil e sua gente: \u201cPor isso, pinta, pintor\/Pinta, pinta, pinta, pinta\/Pinta o \u00f3dio e pinta o amor\/Com o sangue de sua tinta\/Pinta as mulheres de cor\/Na sua desgra\u00e7a distinta\/pinta o fruto e pinta a flor\/Pinta tudo que n\u00e3o minta\/Pinta o riso e pinta a dor\/Pinta sem abstracionismo\/Pinta a vida, pintador\/No seu m\u00e1gico realismo.\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">E, parafraseando Glauber, no filme: &#8220;Di por Di, as vozes do t\u00famulo: \u00e9 para isso que voc\u00eas querem tomar o poder,\u00a0 seus falsos patriotas fascist\u00f3ides? Respeitem a arte brasileira, respeitem o povo brasileiro, respeitem a democracia, respeitem o Brasil, sou um g\u00eanio, uma gl\u00f3ria nacional, n\u00e3o encham meu sacooooooooo!!!\u201d<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Escrevo ainda sob o choque do ataque b\u00e1rbaro contra a tela As mulatas, de Di Cavalcanti, pelos v\u00e2ndalos no Pal\u00e1cio do Planalto. 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