{"id":2360,"date":"2022-12-15T15:07:09","date_gmt":"2022-12-15T18:07:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2360"},"modified":"2022-12-15T15:33:30","modified_gmt":"2022-12-15T18:33:30","slug":"a-descoberta-de-clarice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-descoberta-de-clarice\/","title":{"rendered":"A descoberta de Clarice"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">Assisti ao document\u00e1rio <i>A descoberta do mundo<\/i>, sobre Clarice Lispector, dirigido por Taciana Oliveira, como quem folheia um \u00e1lbum de fam\u00edlia ou a uma fotobiografia em movimento, mas com a din\u00e2mica e a capacidade que o cinema tem de promover a converg\u00eancia de linguagens. Antes de tudo, o filme \u00e9 Clarice por Clarice, a sua voz e o seu ponto de vista ocupam o primeiro plano.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A narrativa \u00e9 constru\u00edda a partir de trechos de cr\u00f4nicas lidos por leitores dela e por depoimentos da pr\u00f3pria Clarice de viva voz: &#8220;H\u00e1 tr\u00eas coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O \u2018amar os outros\u2019 \u00e9 t\u00e3o vasto que inclui at\u00e9 perd\u00e3o para mim mesma, com o que sobra.&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Clarice concedeu poucos depoimentos para a televis\u00e3o e o que ficou mais c\u00e9lebre \u00e9 o de uma entrevista a J\u00falio Lerner, para a Tev\u00ea Cultura, em que ela aparece sorumb\u00e1tica e pessimista. Mas Taciana utiliza um depoimento mais leve ao Museu da Imagem e do Som, gra\u00e7as possivelmente \u00e0 media\u00e7\u00e3o dos amigos Afonso Romano Sant&#8217;Anna e Marina Colasanti.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">As hist\u00f3rias delineiam um retrato contradit\u00f3rio, delicado e bem-humorado de Clarice, uma t\u00edmida audaz, a um s\u00f3 tempo, simples e enigm\u00e1tica. Na vida cotidiana era simples; na vida da literatura deixava a imagina\u00e7\u00e3o voar livremente. Ela precisava da ilumina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica para se desvelar, mas, ciente de que a revela\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio era sempre outro mist\u00e9rio.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O document\u00e1rio nos brinda com hist\u00f3rias deliciosas e n\u00e3o resistirei em antecipar algumas. Certa vez, Clarice foi assistir, com a amiga N\u00e9lida Pinon, a um evento sobre literatura, no qual os cr\u00edticos Jos\u00e9 Guilherme Merquior e Luiz Costa Lima travaram um acirrado debate sobre a quest\u00e3o da m\u00edmese na literatura. Para N\u00e9lida, a discuss\u00e3o foi brilhante; mas, para Clarice, foi insuport\u00e1vel. A certa altura, irritada, Clarice pediu para ir embora.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Fora da sala, ela pediu a N\u00e9lida para voltar e dizer aos palestrantes que, se entendesse 10% do que eles falaram, n\u00e3o escreveria nenhum livro. N\u00e9lida refugou, argumentou que n\u00e3o valia a pena se indispor com intelectuais importantes de maneira gratuita. Mas se, de qualquer maneira, Clarice fizesse quest\u00e3o, que retornasse \u00e0 sala e assumisse a posi\u00e7\u00e3o pessoalmente. Clarice desistiu e contra-argumentou: &#8220;Olha, quer saber, vou \u00e9 para casa comer um peda\u00e7o de frango com farofa que sobrou&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O document\u00e1rio desmistifica certa imagem de soberba associada \u00e0 Clarice e a revela de corpo inteiro na ang\u00fastia, na tristeza, no senso de humor, no instinto de m\u00e3e, na felicidade clandestina e no desejo de transcend\u00eancia. Ao filho aflito, ela diz de maneira pungente: &#8220;Se Deus cuida at\u00e9 dos passarinhos por qu\u00ea n\u00e3o cuidaria de voc\u00ea?&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Do ponto de vista do cinema, um dos aspectos mais interessantes \u00e9 que o \u00e1lbum de fam\u00edlia interage em uma montagem de choque com as imagens das ondas do mar,\u00a0 t\u00e3o presente na fic\u00e7\u00e3o e na vida de Clarice, com as resson\u00e2ncias simb\u00f3licas do inconsciente, do feminino, do indom\u00e1vel e da eternidade.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O que confere uma dimens\u00e3o po\u00e9tica ao document\u00e1rio. \u00c9 um filme comovente, a um s\u00f3 tempo, desmistificador e revelador, que capta Clarice em toda a grandeza humana, demasiado humana.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">PS: A descoberta do mundo est\u00e1 em cartaz no CineIta\u00fa no CasaPark.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Assisti ao document\u00e1rio A descoberta do mundo, sobre Clarice Lispector, dirigido por Taciana Oliveira, como quem folheia um \u00e1lbum de fam\u00edlia ou a uma fotobiografia em movimento, mas com a din\u00e2mica e a capacidade que o cinema tem de promover a converg\u00eancia de linguagens. 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