{"id":2341,"date":"2022-11-18T15:06:58","date_gmt":"2022-11-18T18:06:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2341"},"modified":"2022-11-18T15:06:58","modified_gmt":"2022-11-18T18:06:58","slug":"minha-copa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/minha-copa\/","title":{"rendered":"Minha Copa"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Estou h\u00e1 semanas em dram\u00e1tica contagem regressiva. Embora tenha muitas cr\u00edticas \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o monstruosa de nossos jogadores, a verdade \u00e9 que tor\u00e7o e me retor\u00e7o quando a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira joga. N\u00e3o posso reclamar, tive a sorte de assistir ao Brasil ser campe\u00e3o em tr\u00eas copas, em 1970, em 1994 e em 2002.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">A mais marcante foi a de 1970 e gostaria de evoc\u00e1-la porque, depois da vit\u00f3ria, os acontecimentos se envolvem em uma aura mitol\u00f3gica, que esconde a dura realidade dos fatos. A defesa do nosso escrete era um teste para card\u00edaco. Antes da Copa, a Sele\u00e7\u00e3o foi vaiada muitas vezes, apesar de ser formada por uma constela\u00e7\u00e3o de craques.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">A maioria era de uma gera\u00e7\u00e3o que havia fracassado clamorosamente na Copa de 1966 da Inglaterra: G\u00e9rson, Tost\u00e3o, Jairzinho e Pel\u00e9. Apesar de todos os defeitos da parte defensiva, aquele foi o maior time de futebol que pisou nos gramados do planeta.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Como dizia Jo\u00e3o Saldanha, voc\u00ea n\u00e3o sabia de onde viria o perigo. O escrete tinha cinco craques decisivos: Pel\u00e9, G\u00e9rson, Jairzinho, Rivellino e Tost\u00e3o. O jogo estava dif\u00edcil, de repente, um deles fazia uma jogada que definia o placar. E, daqui a minutos, a vantagem virava goleada de 4&#215;1.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">G\u00e9rson dava lan\u00e7amentos de 40 ou 50 metros, que pareciam jogadas de videogame, a bola viajava no espa\u00e7o, aparentemente sem rumo e ca\u00eda no peito de Pel\u00e9 ou Jairzinho na cara do gol. Depois da derrocada da Copa de 1966, diziam que G\u00e9rson n\u00e3o tinha sangue. Na Copa de 1970, o meio-campista foi um le\u00e3o, matava a bola no peito com a maior classe ou dava uma bica que ela sa\u00eda do est\u00e1dio, conforme a circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Irritado com a inf\u00e2mia, Nelson Rodrigues resolveu pedir uma opini\u00e3o abalizada e telefonou para a Transilv\u00e2nia para saber o que pensava o conde Dr\u00e1cula. O sinistro personagem experimentou o sangue de G\u00e9rson, avaliou e emitiu o veredito implac\u00e1vel: &#8220;Sangue bom, do puro, do escoc\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">O jogo do Brasil contra a Inglaterra foi dur\u00edssimo, o nosso time recebeu marca\u00e7\u00e3o cerrada. Na parte final, quando estava para ser substitu\u00eddo, Tost\u00e3o recebe pela esquerda, enfia a bola no meio das pernas do famoso beque ingl\u00eas Bob Moore e fica perto com o gol. Se fosse eu, tentaria vencer o outro zagueiro e ficar cara a cara com o goleiro. No entanto, ele passa o p\u00e9 sobre a bola, volta e vira para Pel\u00e9 no lado direito da \u00e1rea, que rola para Jairzinho estufar a rede inglesa.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Tive a oportunidade de entrevistar Tost\u00e3o e perguntei como ele viu Pel\u00e9 livre do outro lado, se jogou de costas. Ele explicou que n\u00e3o viu, adivinhou que Pel\u00e9 estava l\u00e1. Driblou a mim, ao c\u00e2mera, a rainha da Inglaterra e a toda a torcida do planeta em uma das jogadas mais geniais das copas.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Mas voltemos a 2022. No \u00faltimo fim de semana vivi momentos de tens\u00e3o, ang\u00fastia e dramaticidade shakespereanas. Recebi um telefonema de Tite me convocando para a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira que disputar\u00e1 a Copa do Mundo no Catar. \u00c9 isso mesmo que voc\u00eas leram. Tentei desconversar, mas Tite mantinha-se intransigente.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Argumentei que era melhor manter o Casimiro como titular, pois, embora tenha sido antigo peladeiro, n\u00e3o chuto uma bola h\u00e1 mais de 20 anos. Fiquei transido com o medo de rebater uma bola, o atacante advers\u00e1rio pegar e fuzilar as redes de Alisson. O Brasil inteiro comeria o meu f\u00edgado, inclusive os estagi\u00e1rios do jornal, turba flamenguista implac\u00e1vel.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Tite contra-argumentou que eu era imprescind\u00edvel em seu esquema t\u00e1tico e n\u00e3o abria m\u00e3o da minha presen\u00e7a no esquadr\u00e3o canarinho. N\u00e3o consegui convencer o t\u00e9cnico, mas, felizmente, fui salvo pela minha mulher: &#8220;Siva, acorda, est\u00e1 na hora de ir para o <strong>Correio<\/strong>&#8220;. Podem torcer porque o Brasil tem alguma chance, eu n\u00e3o vou jogar a Copa. Foi um sonho, minha gente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Estou h\u00e1 semanas em dram\u00e1tica contagem regressiva. Embora tenha muitas cr\u00edticas \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o monstruosa de nossos jogadores, a verdade \u00e9 que tor\u00e7o e me retor\u00e7o quando a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira joga. 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