{"id":2284,"date":"2022-08-14T13:50:16","date_gmt":"2022-08-14T16:50:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2284"},"modified":"2022-08-15T18:21:19","modified_gmt":"2022-08-15T21:21:19","slug":"cronista-de-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/cronista-de-brasilia\/","title":{"rendered":"Cronista de Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<div>\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">Ao assistir a um v\u00eddeo caseiro, gravado por meu irm\u00e3o, fiz uma descoberta surpreendente: o meu pai, Severino Francisco, foi, muito provavelmente, sen\u00e3o o primeiro, um dos primeiros cronistas de Bras\u00edlia. E por que fa\u00e7o tal afirma\u00e7\u00e3o? Por que antes de ser inaugurado o <i>Correio Braziliense<\/i>, em <span id=\"OBJ_PREFIX_DWT67_com_zimbra_date\" class=\"Object\" role=\"link\">21 de abril<\/span> de 1960, meu pai, um pernambucano quixotesco, nascido em Gravat\u00e1, j\u00e1 fazia croniquinhas rimadas.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Veio para o Planalto Central com o dinheiro que ganhava com almanaques em versos, que escrevia, publicava e vendia. Cresceu no sert\u00e3o bravio e primitivo. Era um nordestino de imagina\u00e7\u00e3o delirante, parecia sa\u00eddo diretamente de dentro de um folheto de cordel. Poeta popular com forma\u00e7\u00e3o autodidata, conseguiu se formar em teologia. Da leitura de revistas e livros de ci\u00eancia, assimilou uma consci\u00eancia ecol\u00f3gica aguda.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Em 1925, era um menino e assistiu, com um misto de pavor e fasc\u00ednio, a chegada das chamadas volantes, os caminh\u00f5es cheios de soldados para perseguir o bando do cangaceiro Lampi\u00e3o: \u201cEu era bem pequenino\/quando vi um caminh\u00e3o\/apinhado de soldados\/com os seus fuzis nas m\u00e3os\/para enfrentar mato\/espinho, cobra e carrapato\/em busca de Lampi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Mais eis que a narrativa embica, abruptamente, para Bras\u00edlia: \u201cO soldado Jo\u00e3o Feitosa\/que perseguiu Lampi\u00e3o\/est\u00e1 vivo e mora em Bras\u00edlia\/\u00e9 filho do meu sert\u00e3o\/me contou de viva voz\/esta triste narra\u00e7\u00e3o\/lutou em Pau de Colher\/\u00e9 um her\u00f3i sem gal\u00e3o\/viu o sangue correr\/de irm\u00e3o para irm\u00e3o\/\u00e9 um dos sobreviventes\/daqueles cabras valentes\/que andavam pelo sert\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Nos tempos de estudante ginasial, nos anos 1950, j\u00e1 revelava impressionante consci\u00eancia ecol\u00f3gica: \u201cPrimeiro uma machadada\/a \u00e1rvore bela e copada\/continua resistindo\/depois come\u00e7a rangindo\/como cana na esteira\/e na hora derradeira\/ainda se ouve um estalo\/ a morte, a queda e o abalo\/e adeus mata brasileira.\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Registrava a devasta\u00e7\u00e3o das matas brasileiras em versos \u00e9picos e pungentes, que parecem escritos no s\u00e9culo 21: \u201cSOS para quem?\/Onde est\u00e1 a consci\u00eancia?\/Onde est\u00e3o os governantes\/O que \u00e9 feito da presid\u00eancia?\/A fauna, a flora e o clima\/ningu\u00e9m olha com clem\u00eancia\/para a grande devasta\u00e7\u00e3o\/\u00e9 o maior atentado\/do homem sem cora\u00e7\u00e3o\/quem comete tal delito\/<span id=\"OBJ_PREFIX_DWT68_com_zimbra_date\" class=\"Object\" role=\"link\">ter<\/span>\u00e1 um nome maldito\/pela pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Meu pai viu Bras\u00edlia nascer e registrou a aventura nos versos, em um tom tamb\u00e9m \u00e9pico: \u201cEis a nova capital\/riscada sob medida\/veremos a sua plenitude\/depois dela ser constru\u00edda\/lago por todos os lados\/beleza e vastid\u00e3o\/espa\u00e7o e arejamento\/tem l\u00e9guas de pavimento\/ainda cheirando a sert\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">No in\u00edcio da cidade, a moradia era um drama para as classes populares, que inventavam nomes bizarros para as suas ocupa\u00e7\u00f5es. Meu pai veste a m\u00e1scara dos candangos em versos jocosos e surreais: \u201cMorei na Curva da On\u00e7a\/e temendo ser assaltado\/levei a minha mudan\u00e7a\/para o Quintal do Delegado\/De l\u00e1 fui despejado\/mudei-me para Sapol\u00e2ndia\/<span id=\"OBJ_PREFIX_DWT69_com_zimbra_date\" class=\"Object\" role=\"link\">hoje<\/span> moro na Ceil\u00e2ndia\/na Vila do Cachorro Sentado\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Certo dia, meu pai se encontrou com Juscelino Kubistchek em Taguatinga e fez a seguinte sauda\u00e7\u00e3o de improviso: \u201cQuero lhe cumprimentar\/Bras\u00edlia \u00e9 um monumento\/Trabalho de nossa gente\/Bravura de bandeirante\/cabe\u00e7a de presidente\/agora posso afirmar\/que vi a reden\u00e7\u00e3o\/meus filhos tomaram posse\/da terra da promiss\u00e3o\/foi a m\u00e3o da provid\u00eancia\/que regeu vossa excel\u00eancia\/para governar nossa na\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Quando Luiz Gonzaga morreu, meu pai o homenageou, numa par\u00f3dia da letra de <i>A morte do vaqueiro<\/i>, mas com a mesma melodia pungente: \u201cO Nordeste brasileiro\/suspirou de emo\u00e7\u00e3o\/quando vagou a not\u00edcia\/morreu o rei do bai\u00e3o\/nunca mais ouvir\u00e3o\/teu cantar meu irm\u00e3o\u201d.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Ao assistir a um v\u00eddeo caseiro, gravado por meu irm\u00e3o, fiz uma descoberta surpreendente: o meu pai, Severino Francisco, foi, muito provavelmente, sen\u00e3o o primeiro, um dos primeiros cronistas de Bras\u00edlia. 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