{"id":2182,"date":"2022-06-08T09:50:54","date_gmt":"2022-06-08T12:50:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2182"},"modified":"2022-06-08T10:10:43","modified_gmt":"2022-06-08T13:10:43","slug":"palacio-itamaraty","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/palacio-itamaraty\/","title":{"rendered":"Pal\u00e1cio Itamaraty"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0 O professor em\u00e9rito de arquitetura Frederico Holanda viu Bras\u00edlia, pela primeira vez, em 1960. Ele tinha 16 anos, chegou em um fusquinha, no meio \u00e0s nuvens de poeira. Pensou que conhecia a cidade por fotos, por\u00e9m o contato direito foi muito mais impactante. Viu os edif\u00edcios meio soltos no cerrado, sob o c\u00e9u estrelado do planalto. Como esta arquitetura \u00e9 poss\u00edvel, em que planeta ele estava?, indagou-se.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dois anos depois, ele ingressou no curso de arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco. Em 1970, dois meses ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio Itamaraty, Frederico voltou a Bras\u00edlia. Perambulava pela Esplanada, quando se deparou com o pr\u00e9dio.\u00a0\u00a0\u00a0 Literalmente, perdeu o f\u00f4lego. Ele participou do evento Jornada Wladimir Murtinho, promovida pelo Itamaraty, na <span id=\"OBJ_PREFIX_DWT149_com_zimbra_date\" class=\"Object\" role=\"link\">segunda<\/span> feira.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0 Acompanhemos a fala de Frederico. Ele reconhece Murtinho na condi\u00e7\u00e3o de mentor e regente da equipe que construiu o Itamaraty. O pr\u00e9dio marca nova \u00eanfase no trabalho de Oscar Niemeyer. Uma fantasia mais contida, formas geom\u00e9tricas mais simples, configura\u00e7\u00e3o rigorosamente sim\u00e9trica. Quatro fachadas id\u00eanticas com abertura para todos os lados e a planta quadrada.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tudo contrasta com o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, o Pal\u00e1cio do Planalto e o Pal\u00e1cio Alvorada, observa Frederico. O pr\u00e9dio evoca os arcos plenos do pal\u00e1cio hom\u00f4nimo do Rio, transmutados na arcada envolvente em Bras\u00edlia. O Itamaraty \u00e9 o \u00fanico formado por um conjunto de colunas \u00e0 moda dos templos gregos. Cria-se uma zona de sombra com o recuo da caixa de vidro ante os arcos ao redor. \u00c9 resgate inovador da hist\u00f3ria da arquitetura.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Agora, Oscar \u00e9 menos o Dioniso da curva livre e sensual, como escreveu, e \u00e9 mais o Apolo do brilho da simplicidade, como diria Glauco Campelo, para caracterizar o classicismo do novo Itamaraty.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Niemeyer segue a cartilha moderna dos pr\u00e9dios soltos, mas a formalidade da interface \u00e9 sutil. No Itamaraty essa rela\u00e7\u00e3o entre dentro e fora \u00e9 novamente incomum, instaurada pelo espelho d&#8217;\u00e1gua e pela passarela de acesso, pois elas est\u00e3o quase ao n\u00edvel da cal\u00e7ada em redor. O que n\u00e3o acontece no STF ou no Alvorada.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0 H\u00e1 um tema recorrente: duas massas opacas separadas por um v\u00e3o transparente central, artif\u00edcio para refor\u00e7ar a rela\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7o interno e o entorno do pr\u00e9dio. Mas \u00e9 no Itamaraty que Oscar encontra a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 mais elaborada e fascinante.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Embora inscrito em um ret\u00e2ngulo de 30 por 54 metros, \u00e9 um pr\u00e9dio marcado por momentos diversamente configurados, proporcionando a quem circula pelo edif\u00edcio muitas surpresas. Em alguns trechos n\u00e3o existe a pele que separa o dentro do fora. Voc\u00ea entra e bate direto com os jardins amaz\u00f4nicos de Burle Marx. A treli\u00e7a de Athos Bulc\u00e3o filtra a nossa percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O avarandado das casas coloniais expandiam o espa\u00e7o interno no externo. No entanto, Niemeyer mais uma vez inova no Itamaraty. O terceiro piso evoca a casa colonial, mais o terra\u00e7o-jardim concebido por Le Corbusier, que Oscar tanto admirava. \u00c9 marcado pelo foco de luz zenital e pelas esculturas de Maria Martins e de Lasar Segall. \u00c9 cont\u00edguo \u00e0 sala Bras\u00edlia, onde s\u00e3o servidos os banquetes. Instaura a rela\u00e7\u00e3o perme\u00e1vel de ritual e de improviso, do formal e do informal, da hierarquia e da igualdade.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Frederico recorre ao poeta ingl\u00eas John Keats para caracterizar o prazer est\u00e9tico que o pr\u00e9dio do Itamaraty lhe desperta: &#8220;deleite eterno&#8221;. Para o professor, \u00e9 a mais importante obra da arquitetura de todos os tempos e espa\u00e7os. N\u00e3o pode comprovar a afirma\u00e7\u00e3o de maneira cient\u00edfica.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">A sua declara\u00e7\u00e3o est\u00e1 no campo da \u00e9tica e da est\u00e9tica. O campo dos valores s\u00f3 existe no plano grupal ou legitimamente pessoal. Mas ele coloca a sua percep\u00e7\u00e3o em debate: &#8220;Tenho uma curiosidade e a exponho: meus valores s\u00e3o correlatos aos vossos?&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco \u00a0\u00a0\u00a0 O professor em\u00e9rito de arquitetura Frederico Holanda viu Bras\u00edlia, pela primeira vez, em 1960. Ele tinha 16 anos, chegou em um fusquinha, no meio \u00e0s nuvens de poeira. Pensou que conhecia a cidade por fotos, por\u00e9m o contato direito foi muito mais impactante. Viu os edif\u00edcios meio soltos no cerrado, sob o c\u00e9u estrelado do planalto. 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