{"id":2119,"date":"2022-05-15T09:58:07","date_gmt":"2022-05-15T12:58:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2119"},"modified":"2022-05-17T19:59:40","modified_gmt":"2022-05-17T22:59:40","slug":"graciliano-e-glenio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/graciliano-e-glenio\/","title":{"rendered":"Graciliano e Gl\u00eanio"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quem recebe um livro da Confraria dos Bibli\u00f3filos do Brasil, institui\u00e7\u00e3o brasiliense comandada por Jos\u00e9 Sales Neto, se sente agraciado pelos deuses. Sales \u00e9, a um s\u00f3 tempo, o fundador, presidente, o editor, o motorista, o supervisor gr\u00e1fico e o office-boy da entidade. Cruza a bola e vai cabecear na \u00e1rea. Sempre publica cl\u00e1ssicos da literatura brasileira com ilustra\u00e7\u00f5es de grandes artistas, em esmeradas edi\u00e7\u00f5es artesanais.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em 2 000, Sales promoveu o encontro\u00a0 entre dois grandes artistas brasileiros: o alagoano Graciliano Ramos e o ga\u00facho-brasiliense Gl\u00eanio Bianchetti. Graciliano estava morto, mas n\u00e3o importa, o que interessa \u00e9 a sintonia espiritual. S\u00e3o pequenos milagres que s\u00f3 a arte pode operar. Gl\u00eanio sempre fez uma arte de sensibilidade para os temas sociais.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sales conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o de uma filha de Graciliano para fazer o livro. Enquanto Jorge Amado tinha uma infinidade de publica\u00e7\u00f5es luxuosas, Graciliano nunca havia sido brindado com uma edi\u00e7\u00e3o de arte caprichada.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Vencida a primeira batalha, Sales partiu para a segunda: convencer Gl\u00eanio a ilustrar <em>Vidas secas<\/em>. Como pe\u00e7a de persuas\u00e3o, ele levou uma edi\u00e7\u00e3o do livro <em>Prel\u00fadio da cacha\u00e7a<\/em>, de C\u00e2mara Cascudo, da Confraria, com tratamento r\u00fastico, caixa constru\u00edda com fibra de juta e gravuras de Abra\u00e3o Baptista. Gl\u00eanio achou muito bonito e topou fazer as ilustra\u00e7\u00f5es, mas preferiu desenhar a fazer gravuras.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Poucos dias depois, Sales foi chamado at\u00e9 a casa de Gl\u00eanio e levou um susto. A s\u00e9rie de desenhos estava quase\u00a0 pronta. Era bel\u00edssima,\u00a0 contundente, a palo seco. Sem deixar de ser Gl\u00eanio, ele se tornou gracili\u00e2nico, incorporou a alma\u00a0 seca, mas c\u00e1lida do mestre Gra\u00e7a.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o de uma beleza pungente os desenhos de Fabiano, Sinh\u00e1 Vit\u00f3ria, os dois meninos e a cachorra Baleia, em eterna fuga retirante. O tra\u00e7o humanista de Gl\u00eanio tem o peso da gravura, com amplas manchas de preto em contraste com \u00e1reas brancas. N\u00e3o s\u00e3o imagens apenas para enfeitar; elas potencializam a dramaticidade do texto de Graciliano.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas ainda faltava acertar a capa. Sales mostrou uma capa elaborada por Aldemir Martins para um livro da Confraria,\u00a0 Gl\u00eanio achou que era bonita, mas inadequada para estampar um livro de Graciliano. <em>Vidas secas<\/em> exigia uma capa seca, crua, em preto e branco. Com impress\u00e3o chapada. E, assim se fez. O livro tem a cor e a textura da terra esturricada. Ganhou uma tiragem pequena, que logo se esgotou e se tornou uma raridade. \u00c9 algo que se perdeu no tempo.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por isso, gostaria de sugerir ao CCBB que promovesse uma grande exposi\u00e7\u00e3o com o acervo de ilustra\u00e7\u00f5es da Confraria dos Bibli\u00f3filos, que publica livros de arte desde 1995. L\u00e1, \u00e9 poss\u00edvel encontrar, entre outras rel\u00edquias: gravuras de Marcelo Grassman para os contos de Clarice Lispector,\u00a0 desenhos de Mill\u00f4r Fernandes para antologia de cr\u00f4nicas de Rubem Braga, desenhos de Poty para <em>A hora e a vez de Augusto Matraga<\/em>, de Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E mais: gravuras de Rubens Gerchman para contos de Rubem Fonseca, desenhos de Maria Tomaselli para poemas de Ferreira Gullar, gravuras de Abr\u00e3ao Baptista para <em>Prel\u00fadio da cacha\u00e7a<\/em>, de C\u00e2mara Cascudo; desenhos de Renina Katz para poemas de Manuel Bandeira, desenhos de Dariel Valen\u00e7a Lins (o ilustrador dos contos de Nelson Rodrigues em <em>\u00daltima Hora<\/em>) para <em>A polaquinha<\/em>, de Dalton Trevisan, e <em>O beijo no asfalto<\/em>, de Nelson Rodrigues. Enfim, esse acervo de imagens \u00e9 um precioso patrim\u00f4nio da cultura brasiliense e brasileira que n\u00e3o pode se perder.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quem recebe um livro da Confraria dos Bibli\u00f3filos do Brasil, institui\u00e7\u00e3o brasiliense comandada por Jos\u00e9 Sales Neto, se sente agraciado pelos deuses. Sales \u00e9, a um s\u00f3 tempo, o fundador, presidente, o editor, o motorista, o supervisor gr\u00e1fico e o office-boy da entidade. Cruza a bola e vai cabecear na \u00e1rea. 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