{"id":2111,"date":"2022-05-10T10:02:45","date_gmt":"2022-05-10T13:02:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2111"},"modified":"2022-07-09T11:24:20","modified_gmt":"2022-07-09T14:24:20","slug":"o-mestre-de-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/o-mestre-de-braga\/","title":{"rendered":"O mestre de Braga"},"content":{"rendered":"<div>\n<p lang=\"zxx\"><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Li primeiro a poesia de Manuel Bandeira, s\u00f3 mais tarde conheci as suas cr\u00f4nicas. N\u00e3o digo que seja o meu poeta preferido, mas alguns poemas e alguns versos me parecem memor\u00e1veis. Certa vez, no meio de um pomar, recitei para uma namorada o<em> Poemeto er\u00f3tico<\/em>: &#8220;Teu corpo \u00e9 tudo brilha\/Teu corpo \u00e9 tudo que cheira\/Rosa, flor de laranjeira\/Teu corpo, a todo momento o vejo\/A \u00fanica ilha no oceano do meu desejo&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A musa tremeu nas bases, pensou que eu havia escrito aquela maravilha para ela. Lembro, tamb\u00e9m, do <em>Rond\u00f3 dos cavalinhos<\/em>: &#8220;Os cavalinhos correndo,\/E n\u00f3s, caval\u00f5es, comendo&#8230;\/Tua beleza, Esmeralda,\/Acabou me enlouquecendo.&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tamb\u00e9m figura em minha antologia joias bandeireanas o poema <em>Alumbramento<\/em>: &#8220;Eu vi os c\u00e9us! Eu vi os c\u00e9us!\/Oh, essa ang\u00e9lica brancura\/Sem tristes pejos e sem v\u00e9us!\/S\u00fabito! Alucinadamente&#8230;\/Vi carros triunfais&#8230; trof\u00e9us&#8230;\/P\u00e9rolas grandes como a lua&#8230; Eu vi os c\u00e9us! Eu vi os c\u00e9us!\/- Eu vi-a nua&#8230; toda nua!&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em face da transpar\u00eancia quase absoluta da era virtual pode soar ing\u00eanua a vis\u00e3o de Bandeira, mas, para mim, o encanto permanece intacto. O ritmo \u00e9 outro aspecto not\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 apenas porque escreve em versos rimados; a poesia dele tem uma m\u00fasica interna, uma flu\u00eancia de riocorrente, haurida na mais pura fonte da linguagem popular.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 uma linguagem direta, clara e l\u00edmpida. Por isso, levei o maior susto quando, mais tarde, li as cr\u00f4nicas e os ensaios de Bandeira. N\u00e3o imaginava que ele fosse um intelectual t\u00e3o requintado. O ensaio-cr\u00f4nica que ele escreveu sobre Rubem Braga foi marcante para mim: &#8220;Braga \u00e9 o estilista cuja melhor performance ocorre sempre por escassez de assunto. A\u00ed come\u00e7a ele com o puxa-puxa, em que espreme na cr\u00f4nica as gotas de certa inef\u00e1vel poesia que \u00e9 s\u00f3 dele.&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pois bem, uma boa alma me presenteou com o livro magrinho, mas essencial, <em>O poeta e outras cr\u00f4nicas de literatura e vida<\/em>, de Rubem Braga, organizado por Gustavo Henrique Tuna. L\u00e1, descobri que era o inverso do que eu supunha: Braga \u00e9 que se declara f\u00e3 de Bandeira. &#8220;Minha ades\u00e3o a Bandeira foi imediata&#8221;, conta Braga. &#8220;Ele me ajudou n\u00e3o apenas a namorar as minhas namoradas e me conformar com o desprezo das outras, como a suportar rudes golpes afetivos que sofri, com a morte de pessoas queridas.&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Braga lembra a vaidade que sentiu quando fazia cr\u00f4nicas para um jornal de Belo Horizonte e lhe contaram que v\u00e1rias pessoas pensavam que Rubem Braga era pseud\u00f4nimo de Manuel Bandeira; Reconhece Manuel na condi\u00e7\u00e3o de mestre: &#8220;A linguagem limpa e ao mesmo tempo familiar, \u00e0s vezes popular, de muitos poemas, influiu em minha modesta prosa. E da melhor maneira: no sentido da clareza, da simplicidade, e de uma esp\u00e9cie de franqueza tranquila de quem n\u00e3o se enfeita nem faz pose para aparecer diante do p\u00fablico.&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sim, Bandeira lhe ensinou muitas coisas, admite Braga. &#8220;S\u00f3 n\u00e3o me ensinou o milagre de sua condensa\u00e7\u00e3o l\u00edrica e musical, o pulo do gato da poesia; mas tamb\u00e9m um escrevedor de jornal e revista n\u00e3o precisava saber tanto&#8230;&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Li primeiro a poesia de Manuel Bandeira, s\u00f3 mais tarde conheci as suas cr\u00f4nicas. N\u00e3o digo que seja o meu poeta preferido, mas alguns poemas e alguns versos me parecem memor\u00e1veis. Certa vez, no meio de um pomar, recitei para uma namorada o Poemeto er\u00f3tico: &#8220;Teu corpo \u00e9 tudo brilha\/Teu corpo \u00e9 tudo que cheira\/Rosa, flor de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":73,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-2111","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/users\/73"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2111"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2111\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2247,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2111\/revisions\/2247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}