{"id":2105,"date":"2022-05-05T09:15:24","date_gmt":"2022-05-05T12:15:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2105"},"modified":"2022-05-08T07:50:06","modified_gmt":"2022-05-08T10:50:06","slug":"2105-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/2105-2\/","title":{"rendered":"O jardim de Am\u00edlcar de Castro"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Parece que as 60 esculturas de Am\u00edlcar de Castro instaladas nos jardins do CCBB foram encomendadas especialmente para o espa\u00e7o. Elas estabelecem um di\u00e1logo muito rico n\u00e3o apenas com a arquitetura de Niemeyer, mas tamb\u00e9m com a espacialidade e com a aspereza da vegeta\u00e7\u00e3o do cerrado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Am\u00edlcar cultiva um jardim de plantas da probabilidade, do aleat\u00f3rio e do acaso. As 12 carretas que transportaram as 60 pe\u00e7as de Am\u00edlcar de Minas Gerais para Bras\u00edlia pesavam mais de 250 toneladas. Mas, insolitamente, as esculturas passam a impress\u00e3o de leveza. E esse efeito \u00e9 provocado pelas \u00fanicas duas interven\u00e7\u00f5es que ele faz no ferro: os cortes e as dobraduras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O poeta e cr\u00edtico Ferreira Gullar foi implac\u00e1vel com a arte contempor\u00e2nea. No entanto, ele escreveu alguns dos melhores textos sobre Am\u00edlcar, amigo e colega do movimento neoconcreto. O artista pl\u00e1stico desenhava na folha em branco e, em seguida, recortava o desenho e o dobrava. No ato, surgia a terceira dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Gullar, Am\u00edlcar trabalha com grossas chapas de ferro e a forma \u00e9 o pr\u00f3prio ferro, que, \u00e0 for\u00e7a de cortes e dobras, ultrapassa a condi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria muda: \u201cA placa opaca e densa \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do significado e a possibilidade dele: nela o artista insere a sua a\u00e7\u00e3o transformada, sua fala poss\u00edvel, que tanto \u00e9 resposta quanto indigna\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma nova idade do ferro. Am\u00edlcar atua tensamente entre a placa an\u00f4nima e a figura: deixar a placa intocada \u00e9 n\u00e3o falar: transform\u00e1-la em castelo, cavalo ou gente \u00e9 dissipar-lhe o mist\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gullar enfatiza que se observarmos o caminho percorrido por Am\u00edlcar em quase trinta anos, veremos que ele se at\u00e9m a uns poucos e mesmos elementos, sem se afastar de sua proposta b\u00e1sica e radical: \u201co plano e a ruptura do plano que abre o espa\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao convidar grandes artistas do modernismo para fazer interven\u00e7\u00f5es na arquitetura de Bras\u00edlia, Niemeyer queria que a arte estivesse presente na cabe\u00e7a dos que tomam as decis\u00f5es sobre o pa\u00eds. Talvez ele tivesse sido um tanto ing\u00eanuo. No entanto, a arte permanece viva como espa\u00e7o simb\u00f3lico e ut\u00f3pico do melhor que poder\u00edamos ser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 pena que esse projeto da Bras\u00edlia original tenha sido interrompido pelo regime militar e por governos democr\u00e1ticos de poucas luzes. A cidade-parque \u00e9 muito adequada ao di\u00e1logo e \u00e0 intera\u00e7\u00e3o com a arte contempor\u00e2nea, que \u00e9, muitas vezes, uma arte ambiental. Talvez em outra cidade ela soe deslocada, mas em Bras\u00edlia a arte contempor\u00e2nea est\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O grupo Udigrudi construiu uma s\u00e9rie de brinquedos musicais para uma exposi\u00e7\u00e3o, que ocupou o espa\u00e7o do CCBB, o Diversom, com esculturas sonoras interativas. As crian\u00e7as escorregavam, escalavam ou pisavam e produziam sons musicais. Era uma experi\u00eancia muito inventiva que deveria ter sido incorporada ao espa\u00e7o de maneira permanente, como um patrim\u00f4nio da cidade, pois o CCBB \u00e9 um espa\u00e7o muito frequentado pelas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 preciso saudar a iniciativa do CCBB de trazer obras de Am\u00edlcar de Castro e de H\u00e9lio Oiticica para Bras\u00edlia. A cidade deveria renovar, constantemente, o acerco de arte contempor\u00e2nea. Bras\u00edlia poderia ser uma Inhotim em ponto grande e ter ainda mais atra\u00e7\u00f5es para a vida cotidiana e para o turismo, sem preju\u00edzo de nenhuma de suas outras fun\u00e7\u00f5es. As esculturas ficam muito bem no CCBB, que, na verdade, \u00e9 um grande parque, transpassado pela vegeta\u00e7\u00e3o do cerrado, dentro da cidade-parque.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Parece que as 60 esculturas de Am\u00edlcar de Castro instaladas nos jardins do CCBB foram encomendadas especialmente para o espa\u00e7o. 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