{"id":2086,"date":"2022-04-20T22:00:05","date_gmt":"2022-04-21T01:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2086"},"modified":"2022-04-20T22:00:05","modified_gmt":"2022-04-21T01:00:05","slug":"historias-do-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/historias-do-braga\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias do Braga"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora Rubem Braga fosse muito econ\u00f4mico nas palavras e se mantivesse em sil\u00eancio grande parte do tempo, s\u00f3 saindo da toca para espetadas certeiras, ele suscitou uma antologia de deliciosas hist\u00f3rias com o c\u00e9lebre mau humor bem-humorado. N\u00e3o sei se todas s\u00e3o verdadeiras, mas como o compromisso da cr\u00f4nica \u00e9 mais com a dimens\u00e3o l\u00fadica da vida do que com a veracidade, repasso algumas narrativas que li e ouvi.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Braga trabalhava em uma emissora de televis\u00e3o, compondo pequenas cr\u00f4nicas. Escreveu um texto, o editor leu e veio com um pedido: \u201cSer\u00e1 que dava para voc\u00ea piorar um pouquinho, pois o p\u00fablico de televis\u00e3o n\u00e3o vai entender\u201d. Braga reescreveu o texto e entregou ao chefe. Novamente recebeu solicita\u00e7\u00e3o no sentido de que caprichasse mais um pouquinho para se adequar \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico. Ao que Braga replicou rispidamente: \u201cOlha, isso \u00e9 o pior que eu consigo!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Braga sempre viveu no sufoco, acossado por uma situa\u00e7\u00e3o financeira incerta, embora trabalhasse muito. No fim da vida, o seu amigo Armando Nogueira, respons\u00e1vel pelo telejornalismo da Rede Globo, conseguiu um emprego para ele na poderosa emissora. Em conversa com Braga, Armando comentou: \u201cFiquei sabendo que voc\u00ea e o doutor Roberto Marinho se encontraram no elevador. Voc\u00ea disse alguma coisa a ele\u201d. Braga respondeu que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Armando contou que o pr\u00f3prio Roberto Marinho, dono da Globo, havia lhe perguntado o que Braga fazia na casa: \u201cAh, ele n\u00e3o s\u00f3 escreve, como corrige textos, d\u00e1 aula aos mais novos, colabora com o <i>Jornal Hoje<\/i> e apoia o pessoal na edi\u00e7\u00e3o\u201d. A lista era t\u00e3o grande que o chef\u00e3o fez o seguinte coment\u00e1rio, em tom de incredulidade: \u201cMas como ele d\u00e1 conta de tudo isso?\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se assistisse a uma reuni\u00e3o de pauta do Jornal Hoje, Marinho poderia constatar a seriedade de Braga, que parecia ser o mais imbu\u00eddo de profissionalismo na equipe, pois realizava intermin\u00e1veis anota\u00e7\u00f5es em um papel, supostamente sobre os temas em debate. Mas, quando se encerrava a reuni\u00e3o, ele distribu\u00eda a cada um dos colegas o resultado de suas garatujas: uma s\u00e9rie de caricaturas \u00e1cidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Reza tamb\u00e9m a lenda que, certo dia, Braga se dirigiu \u00e0 Armando Nogueira, com um ar t\u00e3o desconsolado que o amigo perguntou: \u201cPor qu\u00ea voc\u00ea est\u00e1 aflito? Diz logo de uma vez o que quer?\u201d Braga abriu o jogo: \u201cQueria dar um pulinho a Cachoeiro do Itapemirim para matar as saudades, mas queria ir de avi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Armando quase n\u00e3o resistiu em lhe dar uma tremenda bronca: \u201cE precisava de tudo isso? Se todo problema era s\u00f3 a passagem de avi\u00e3o para Cachoeiro do Itapemirim, por qu\u00ea n\u00e3o falou logo?\u201d. Ao que Braga respondeu: \u201cMas com escala em Paris&#8230;\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Embora Rubem Braga fosse muito econ\u00f4mico nas palavras e se mantivesse em sil\u00eancio grande parte do tempo, s\u00f3 saindo da toca para espetadas certeiras, ele suscitou uma antologia de deliciosas hist\u00f3rias com o c\u00e9lebre mau humor bem-humorado. 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